O médico Daniel Kenigsberg vive em Long Island, Nova York, mas guardava com carinho um terreno baldio de aproximadamente 2.000 metros quadrados em Fairfield, Connecticut. O lote foi comprado por seu pai em 1953 e fazia parte da propriedade onde o médico viveu sua infância. Por décadas, ele pagou os impostos e manteve o local intocado, planejando deixar a terra como herança para seus filhos e netos.
Em 2023, um telefonema de um amigo de infância mudou tudo. O conhecido perguntou por que Daniel estava construindo uma casa de luxo no terreno, já que ele sabia que o médico não pretendia sair de Long Island. Confuso, Kenigsberg dirigiu até Fairfield e encontrou uma estrutura de dois andares, com 370 metros quadrados e quatro quartos, quase finalizada no local onde deveria haver apenas grama e árvores.
Uma mansão avaliada em 1,5 milhão de dólares (cerca de 8,5 milhões de reais) estava sendo erguida em sua propriedade sem que ele tivesse assinado um único documento. O choque foi imediato ao ver operários trabalhando no que deveria ser o seu patrimônio familiar. “Eu sou o dono disso”, afirmou ele ao confrontar a situação bizarra.
A falsificação internacional e a venda fantasma

O Dr. Daniel Kenigsberg não conseguia acreditar (Dr. Daniel Kenigsberg)
A investigação revelou um esquema de fraude imobiliária sofisticado. Um criminoso se passou por Daniel Kenigsberg e utilizou documentos falsos para realizar a venda. O golpista apresentou uma procuração supostamente assinada em Joanesburgo, na África do Sul, alegando que o proprietário estava fora do país e desejava se desfazer do lote rapidamente.
O terreno foi vendido em outubro de 2022 para uma empresa de construção local chamada 51 Sky Top Partners LLC. O valor da transação foi de 350 mil dólares (aproximadamente 2 milhões de reais), um preço abaixo do mercado para a região, o que facilitou a rapidez do negócio. A construtora, acreditando que a compra era legítima, obteve as permissões da prefeitura e iniciou a obra de imediato.
Daniel Kenigsberg processou a empresa e os envolvidos na transação por invasão de propriedade e negligência. Ele exigiu que a casa fosse demolida e que o terreno retornasse exatamente ao estado em que estava antes da invasão. “É assustador pensar que alguém pode simplesmente roubar sua identidade e vender sua terra”, declarou o médico durante o processo.
O desfecho judicial e o destino da mansão

A propriedade estava sendo construída no terreno onde o Dr. Daniel Kenigsberg passou a infância (Google Maps).
O caso se arrastou nos tribunais de Connecticut enquanto a obra permanecia embargada. A construtora alegou que também foi vítima do golpe e que não tinha motivos para suspeitar da documentação apresentada pelo falso vendedor. Advogados e especialistas em segurança imobiliária apontaram que esse tipo de fraude, onde o criminoso foca em terrenos vazios de proprietários que moram em outros estados, tornou-se comum nos Estados Unidos.
Em julho de 2024, as partes chegaram a um acordo judicial cujos detalhes financeiros totais foram mantidos em sigilo. O que se tornou público foi que a mansão não foi demolida como Daniel inicialmente desejava. A propriedade completa, incluindo a casa nova e o terreno, foi colocada à venda legalmente para resolver as pendências financeiras.
A casa acabou vendida por 1,45 milhão de dólares (cerca de 8,2 milhões de reais). O médico recebeu uma compensação financeira significativa pelo transtorno e pela perda do terreno da família. A polícia de Fairfield continuou investigando o rastro do dinheiro enviado para a conta do golpista na África do Sul, mas o autor da falsificação original não foi capturado.
