Dave Chudley não entrou no mundo das tatuagens blackout quando o estilo já estava em alta, cercado de referências, especialistas e vídeos explicativos. Ele começou em 2020, quando cobrir grandes áreas do corpo com tinta preta ainda era, para muita gente, um território pouco compreendido. Hoje, com boa parte do corpo tomada por tinta sólida, ele olha para trás e admite que aprendeu algumas lições do jeito mais difícil.
A tatuagem blackout faz exatamente o que o nome sugere: cobre grandes áreas da pele com tinta preta, formando blocos densos e uniformes. Em alguns casos, ela serve para esconder tatuagens antigas. Em outros, vira um projeto visual próprio, com impacto imediato e aparência extrema. Nos últimos anos, o estilo ganhou mais atenção depois que celebridades como Machine Gun Kelly passaram a cobrir partes do corpo com tinta preta, levando a técnica para fora dos círculos mais fechados da tatuagem.
Mas, segundo Dave, o erro mais comum é achar que esse tipo de tatuagem é simples por não ter desenhos detalhados. Para quem vê de fora, pode parecer apenas preencher a pele com preto. Para quem passa horas na cadeira, a história é outra.
“É só colorir. Não, não é só colorir. Tem muita coisa envolvida, porque não é só pintar a pele, é sobre não danificar a pele no processo, conseguir aquele acabamento liso, a saturação completa”, explicou.
O erro no primeiro blackout
A primeira grande lição veio logo no começo. Dave iniciou o projeto pelo antebraço, mas quando a tatuagem cicatrizou percebeu que o resultado não combinava com o restante do trabalho que já tinha no corpo. A diferença ficou tão evidente que ele acabou removendo tudo e começou novamente do zero.
A partir daí, o projeto foi subindo pelo braço, etapa por etapa, enquanto ele entendia melhor o que funcionava. O problema, segundo ele, era que em 2020 ainda não havia um método tão claro para esse tipo de tatuagem. Muitas decisões eram tomadas na base da tentativa.
“Nós não sabíamos muito sobre isso em 2020. Era mais o artista experimentando junto com você enquanto fazia o trabalho, talvez precisemos de duas passadas, talvez esta agulha, talvez aquela agulha”, contou.
Para Dave, esse período inicial mostrou que o blackout não perdoa improviso. Uma área mal saturada pode ficar manchada. Uma aplicação agressiva pode prejudicar a pele. Um resultado irregular pode exigir remoção, retoques longos ou até um recomeço completo.
Ele diz que gostaria de ter entendido três coisas antes de se sentar na cadeira pela primeira vez: que o blackout é muito mais difícil do que parece, que exige um especialista de verdade e que, naquela época, o processo ainda estava longe de ser bem estabelecido.
A importância de um especialista
Hoje, Dave defende que blackout não deve ser feito por qualquer tatuador generalista. Na visão dele, é um estilo que precisa de alguém dedicado exclusivamente à técnica. Por isso, atualmente ele viaja para ser tatuado por Johnny Ransom, artista de Berkshire, na Inglaterra, especializado nesse tipo de trabalho.
“A saturação dele é a melhor. Ele sabe exatamente como fazer, é a única coisa que ele faz. Ele é o melhor do Reino Unido, talvez até da Europa”, afirmou.
Dave também acredita que a indústria evoluiu bastante desde que ele começou. Aquela fase de incerteza, em que artista e cliente descobriam o caminho durante a sessão, teria dado lugar a um processo muito mais definido.
“Existe um plano muito conciso de como o trabalho é feito. Sabemos quais tintas usar, sabemos quais agulhas, sabemos qual máquina, sabemos exatamente como cicatrizar da melhor forma possível.”
Apesar da aparência intensa, Dave diz que a reação das pessoas fora da internet costuma ser mais discreta do que muita gente imagina. Na vida real, ele quase não chama tanta atenção quanto os vídeos fazem parecer. O grande palco das reações é mesmo a internet, onde imagens do seu corpo coberto por tinta preta acabam alcançando pessoas que não acompanham o universo da tatuagem.
“As reações vêm do online. Quando um vídeo fica viral, ele costuma ser entregue a públicos que não estão envolvidos na indústria da tatuagem. Para as pessoas da indústria da tatuagem, é tipo, tanto faz, é só blackout.”
A experiência dele mostra como uma tendência visualmente simples pode esconder uma complexidade enorme. No caso do blackout, o preto absoluto não é apenas uma escolha estética. É uma técnica exigente, dolorosa, permanente e difícil de executar bem, especialmente quando feita sem informação suficiente e sem um profissional realmente preparado.
