Brasil pode ser invadido pelos EUA, como aconteceu com a Venezuela?

por Lucas Rabello
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Brasil pode ser invadido pelos EUA, como aconteceu com a Venezuela?

O governo dos Estados Unidos anunciou que vai classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A decisão coloca as duas facções brasileiras em categorias usadas contra grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico e o Cartel de los Soles, ligado ao antigo regime venezuelano de Nicolás Maduro.

Na prática, o rótulo não é apenas simbólico. Ele abre caminho para sanções, bloqueio de bens, restrições financeiras e ações contra pessoas, empresas ou organizações suspeitas de manter vínculos com esses grupos. É como se Washington colocasse uma luz vermelha sobre qualquer relação econômica, logística ou operacional que possa alimentar as facções.

A medida também reacendeu uma pergunta sensível: se os Estados Unidos usaram o discurso do narcoterrorismo antes de agir contra a Venezuela, algo parecido poderia acontecer no Brasil?

O paralelo com a Venezuela

A comparação ganhou força porque, no caso venezuelano, os Estados Unidos associaram o governo de Nicolás Maduro ao narcotráfico e ao Cartel de los Soles. Em janeiro de 2026, uma ofensiva norte-americana terminou com a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, levados para Nova York sob acusações ligadas ao tráfico de drogas.

Mas, segundo Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, há uma diferença central entre os dois cenários.

“Na Venezuela, o governo americano não reconhecia Nicolás Maduro como presidente da República, e abriu processo criminal contra ele, acusando-o de ser o chefe de uma quadrilha. Em contraste, não há acusações dos EUA contra Lula”, afirma.

Ou seja, embora a linguagem usada pelos EUA tenha semelhanças, o contexto político e jurídico é diferente. No caso brasileiro, a acusação recai sobre facções criminosas, não sobre o governo federal.

Ainda assim, a classificação amplia o poder de ação dos Estados Unidos. Pessoas ligadas ao PCC ou ao CV que viajem ao território norte-americano podem ser presas. Empresas com ativos nos EUA também podem ser atingidas caso sejam acusadas de manter relações com essas organizações.

Pressão política e risco militar

Para Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, o discurso do narcoterrorismo pode funcionar como instrumento de pressão. Segundo ele, o objetivo dos EUA no Brasil não seria derrubar o governo, mas forçar um alinhamento maior com a agenda de Washington.

“Então, se na Venezuela esse discurso de narcoterrorismo serviu para justificar contenção regional e estrangulamento político do regime, no Brasil ele funciona mais como instrumento de pressão externa e disputa interna, inclusive porque atores americanos podem se alinhar a setores do bolsonarismo”, disse Fancelli.

Santoro vê um risco mais duro, embora não o trate como inevitável. Para ele, a classificação cria a possibilidade de ações militares dos EUA contra alvos ligados às facções, como o abatimento de aviões ou o afundamento de embarcações suspeitas, algo semelhante ao que ocorreu no litoral venezuelano.

No entanto, qualquer ação militar dos Estados Unidos dentro do território brasileiro sem autorização do governo federal seria considerada agressão internacional e ato de guerra.

Fancelli avalia que uma intervenção militar direta é muito improvável. Para ele, o cenário mais realista envolve sanções financeiras, investigações sobre bancos e fintechs, pressão sobre portos e empresas de logística, restrições migratórias e exigências de cooperação policial.

A última vez que uma intervenção militar norte-americana contra o Brasil entrou no horizonte político foi em 1964, durante as tensões que antecederam o golpe de 31 de março. Agora, o tabuleiro é outro, mas a palavra “terrorismo” voltou a mexer em peças pesadas da diplomacia.

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