Sinais e sintomas de câncer de garganta relacionado ao sexo oral que podem aparecer décadas depois

por Lucas Rabello
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Sinais e sintomas de câncer de garganta relacionado ao sexo oral que podem aparecer décadas depois

O número de diagnósticos de câncer de garganta associado ao HPV tem chamado a atenção de especialistas nos últimos anos. Embora o vírus seja amplamente conhecido por sua relação com o câncer de colo do útero, ele também está por trás de um tipo específico de tumor que afeta a garganta, as amígdalas e a base da língua.

Dados do Reino Unido indicam cerca de 2.000 novos casos de câncer de laringe por ano. A maior parte das ocorrências ainda é registrada em homens acima dos 60 anos. No entanto, médicos têm observado uma mudança no perfil dos pacientes, com aumento de casos em homens mais jovens e sem histórico prolongado de tabagismo ou consumo excessivo de álcool.

Esse cenário ganhou visibilidade quando o ator Michael Douglas revelou, em 2010, que havia sido diagnosticado com carcinoma espinocelular oral em estágio IV. Três anos depois, ele contou que o câncer estava relacionado ao HPV. Ele relatou que jamais esqueceu a expressão do médico ao identificar um tumor “do tamanho de uma noz” na base de sua língua. Atualmente livre da doença, o caso ajudou a ampliar o debate sobre o tema.

O que é o HPV e como ele age

O papilomavírus humano, conhecido como HPV, é considerado a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo. Estima-se que praticamente todas as pessoas sexualmente ativas entrem em contato com o vírus em algum momento da vida.

Na maioria dos casos, o organismo elimina o vírus espontaneamente. Entretanto, determinadas variantes de alto risco podem provocar alterações celulares que, ao longo do tempo, evoluem para câncer.

O contágio pode ocorrer por contato íntimo, incluindo sexo oral. Foi justamente essa forma de transmissão que passou a ser mais discutida nas últimas décadas, à medida que especialistas identificaram uma ligação direta entre o HPV e o câncer orofaríngeo.

O médico Tjoson Tjoa, especialista em cabeça e pescoço da UCI Health, afirmou: “O que estamos vendo nos últimos cinco a dez anos é que o câncer de cabeça e pescoço mais comum é o câncer orofaríngeo relacionado ao HPV.”

Mudança no perfil dos pacientes

Durante muito tempo, acreditava-se que os principais candidatos ao câncer de garganta eram homens entre 70 e 80 anos, com histórico significativo de cigarro e álcool.

Entretanto, um levantamento que analisou o período entre 1988 e 2004 apontou um crescimento de três vezes nos casos entre homens mais jovens, sem histórico prolongado desses hábitos.

Segundo o Dr. Tjoa, práticas sexuais se tornaram mais frequentes em áreas desenvolvidas do mundo, o que pode ter influenciado a disseminação do vírus. Ele também destacou que a conexão entre HPV e câncer de garganta ainda não é plenamente reconhecida por parte da população.

Pesquisas recentes reforçam essa tendência. Um estudo conduzido nos Estados Unidos com mais de 500 participantes mostrou que pessoas com mais de 10 parceiros sexuais apresentaram risco significativamente maior de desenvolver câncer de boca e garganta relacionado ao HPV.

Os dados indicaram que indivíduos com mais de 10 parceiros tinham 4,3 vezes mais probabilidade de desenvolver esse tipo de câncer. Entre os entrevistados, 163 já haviam sido diagnosticados com câncer orofaríngeo ligado ao vírus.

A médica Virginia Drake, da Universidade Johns Hopkins e autora do estudo, observou que hábitos de vida também influenciam o risco, sugerindo que fatores comportamentais podem atuar em conjunto com a exposição ao vírus.

Sinais que podem surgir anos depois

Um dos aspectos mais preocupantes desse tipo de câncer é o intervalo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas. Em alguns casos, o desenvolvimento do tumor pode levar de 20 a 30 anos após o contato inicial com o vírus.

Muitas pessoas enfrentam apenas uma infecção passageira na garganta e nunca desenvolvem complicações. Outras, porém, podem apresentar alterações que evoluem lentamente ao longo de décadas.

Entre os principais sinais relatados por instituições de saúde estão:

  • Espessamento na bochecha
  • Caroço no lábio, boca, pescoço ou garganta
  • Ferida na boca ou no lábio que não cicatriza
  • Manchas vermelhas ou brancas na gengiva, língua, amígdalas ou revestimento da boca
  • Rouquidão ou mudança persistente na voz
  • Sensação constante de algo preso na garganta
  • Dormência na boca ou na língua
  • Dor na mandíbula ou no ouvido
  • Sangramento ou dor na boca
  • Dificuldade para mastigar ou engolir
  • Mau hálito persistente
  • De forma menos comum, podem ocorrer fadiga e perda de peso involuntária.

A dor persistente no pescoço também é apontada como um possível sinal de alerta. Como esses sintomas podem ser confundidos com problemas menos graves, o diagnóstico precoce depende de atenção e avaliação médica adequada.

Vacinação e prevenção

A vacina contra o HPV foi introduzida nos Estados Unidos em 2006. A recomendação é que crianças recebam a imunização por volta dos 11 ou 12 anos, antes do início da vida sexual.

Especialistas defendem que a vacinação ampla poderia reduzir drasticamente os casos de câncer relacionados ao vírus. O Dr. Tjoa afirmou que a doença é “potencialmente completamente prevenível com vacinação”. Ele acrescentou: “Se 100% dos meninos fossem vacinados antes de se tornarem sexualmente ativos, não teríamos essa doença.”

Enquanto campanhas de vacinação contribuíram para a redução do câncer de colo do útero em mulheres, os casos de câncer de amígdalas, garganta e base da língua associados ao HPV aumentaram significativamente entre homens nas últimas três décadas.

A diferença de impacto entre os gêneros está ligada, em parte, ao fato de que inicialmente as campanhas focaram mais na prevenção do câncer cervical. Com o tempo, a imunização passou a ser recomendada também para meninos.

O avanço do conhecimento sobre o HPV transformou a compreensão do câncer de garganta. O que antes era associado quase exclusivamente ao cigarro e ao álcool agora também envolve fatores virais e comportamentais que podem permanecer silenciosos por décadas.

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