Por que tantas pessoas estão tendo AVCs aos 20, 30 e 40 anos?

por Lucas Rabello
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Por que tantas pessoas estão tendo AVCs aos 20, 30 e 40 anos?

Nos últimos anos, médicos passaram a observar um dado que chama atenção: os acidentes vasculares cerebrais, conhecidos como AVCs, não aparecem mais apenas como uma preocupação ligada à idade avançada. Um relatório recente dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos apontou que, entre 2020 e 2022, houve um aumento de 14,6% nos casos de AVC entre pessoas de 18 a 44 anos.

O número acendeu um alerta porque muitos desses pacientes não se encaixam no perfil tradicionalmente associado ao problema. São adultos jovens, em alguns casos na faixa dos 20 anos, que pareciam saudáveis, mantinham rotina ativa e não esperavam enfrentar uma emergência neurológica tão cedo.

O médico Mohammad Anadani, chefe dos serviços neuroendovasculares do Endeavor Health Neurosciences Institute, contou que a situação tem surpreendido até especialistas. “Nunca tivemos pacientes tão jovens”, afirmou. Segundo ele, o AVC em pessoas de 20 anos não costuma ser a primeira hipótese considerada. “Não pensamos em AVC em pacientes de 20 anos. Sentimos mais pressão ao cuidar desses pacientes porque eles são muito jovens.”

Recentemente, Anadani tratou duas jovens adultas que sofreram AVC: Ann Fulk, de 24 anos, e Aubrey Hasley, de 23. Os casos chamaram atenção porque ambas eram consideradas saudáveis pelos padrões comuns. De acordo com o médico, os AVCs provavelmente foram embólicos, ou seja, tiveram origem em outra parte do corpo e o coágulo viajou até o cérebro, em vez de se formar diretamente nos vasos cerebrais.

Fatores de risco em jovens

Nos dois casos, havia um ponto em comum: ambas usavam anticoncepcionais orais, medicamentos conhecidos por aumentar o risco de AVC em algumas pessoas. No caso de Aubrey Hasley, havia ainda outro fator importante: ela tinha forame oval patente, uma abertura no coração que pode permitir que um coágulo passe para a circulação arterial e chegue ao cérebro sem ser filtrado pelos pulmões.

Apesar desses exemplos, os especialistas ainda não têm uma resposta única para explicar por que os AVCs estão aumentando entre adultos jovens. Anadani afirma que as causas exatas ainda não são totalmente compreendidas, mas aponta fatores clássicos que vêm crescendo nessa faixa etária, como hipertensão, diabetes, colesterol alto e obesidade.

Esses problemas, muitas vezes vistos como questões de pessoas mais velhas, podem se instalar silenciosamente. Pressão alta sem sintomas, sedentarismo, alimentação pobre em nutrientes e excesso de peso formam um terreno perigoso. O corpo jovem pode parecer resistente, mas os vasos sanguíneos não ignoram anos de sobrecarga.

O estilo de vida também entra na lista de suspeitos. Estresse intenso, longas jornadas de trabalho e pouca atividade física são citados como possíveis contribuintes. Em rotinas marcadas por sono irregular, prazos apertados e pouca recuperação, o sistema cardiovascular trabalha em modo de alerta constante.

Energia, estimulantes e rotina acelerada

Ann Fulk contou que, na época do AVC, trabalhava muito e consumia bastante cafeína. Um dos produtos que ela bebia tinha 200 miligramas de cafeína por lata. Para adultos saudáveis, a recomendação geral costuma limitar o consumo diário a até 400 miligramas de cafeína.

Anadani ressalta que não há evidência clara ligando diretamente bebidas energéticas ao AVC. No entanto, estudos já associaram esse tipo de consumo ao aumento do risco de hipertensão e arritmias cardíacas, como fibrilação atrial. Essas condições, por sua vez, são fatores conhecidos para AVC. Por isso, ele considera plausível que energéticos possam contribuir para um risco maior, especialmente em pessoas vulneráveis.

Outro ponto levantado por médicos é o uso de estimulantes, como medicamentos à base de anfetamina, incluindo o Adderall. O cardiologista Evan Levine já afirmou que adultos jovens saudáveis, entre 20 e 40 anos, podem apresentar maior risco de problemas cardíacos ao usar esses remédios. Anadani, porém, trata essa hipótese com cautela: segundo ele, as evidências são mistas. A maioria dos estudos não encontrou uma associação forte entre Adderall e AVC, mas alguns trabalhos indicaram possível relação.

Para o especialista, energéticos e estimulantes podem ter algum papel, mas provavelmente pesam menos do que fatores mais bem estabelecidos, como obesidade, sedentarismo e estresse crônico. O crescimento dos AVCs em jovens parece ser menos um mistério isolado e mais um retrato de vários riscos se acumulando ao mesmo tempo: pressão alta, alterações metabólicas, rotinas exaustivas, pouca movimentação e substâncias que aceleram ainda mais um corpo já sobrecarregado.

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