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A verdade por trás da “Princesa Qajar”, que se tornou um meme nos últimos tempos

É verdade que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas na era da Internet, às vezes é necessário um pouco mais do que apenas uma foto para entender a verdade por trás das coisas. Nos últimos tempos, a imagem da “Princesa Qajar” vem se tornando bastante viral pelas redes sociais, mas a verdade por trás da princesa é um pouco mais complexa do que você pode imaginar.

Women’s Worlds in Qajar Iran

Alguns posts, publicados em vários lugares da Internet, afirmam que, na sua época, Qajar era considerada muito bonita, e alguns chegam a dizer que “13 homens se mataram por terem sido rejeitados pela princesa”. E ainda que isso tenha um fundo de verdade, é preciso ir um pouco mais longe para entender a história toda.

COMO A IMAGEM DA PRINCESA QAJAR FICOU TÃO FAMOSA?

Women’s Worlds in Qajar Iran

Nos últimos anos, várias fotos da “Princesa Qajar” estão circulando na Internet. Uma postagem de 2017, no Facebook, com mais de 100 mil curtidas, dizia: “Conheça a princesa Qajar! Ela era um símbolo da beleza na Pérsia (atual Irã), e 13 jovens se mataram por terem sido rejeitados pela princesa”.

Mas a verdade por trás da foto é mais complexa. Só para início de conversa, algumas das postagens mostram pessoas totalmente diferentes, ainda que digam se tratar da mesma princesa.

A “princesa Qajar”, com esse nome, nunca existiu de verdade. Porém, ambas as mulheres utilizadas nas postagens eram princesas durante a dinastia persa de Qajar, que durou de 1789 a 1925.

As postagens virais foram alvo de uma pesquisa feita por uma estudante candidata a Ph.D na Universidade de Linköping, na Suécia, Victoria Van Orden Martínez.

Segundo a autora, as fotos parecem apresentar duas meias-irmãs, e não uma mulher apenas. Martínez explica que as postagens retratam a princesa Fatemeh Khanum Esmat al-Dowleh, nascida em 1855, e a princesa Zahra Khanum Taj al-Saltaneh, nascida em 1884.

Ambas foram princesas durante o século 19, filhas do xá Naser al-Din Shah Qajar. O xá era um grande fã da fotografia desde muito jovem, e é por isso que existem tantas fotos das irmãs.

Zahra Khanum “Taj al-Saltaneh”, em meaos de 1890. | WikiCommons

E ainda que dificilmente as irmãs tenham provocado a morte dos 13 pretendentes, como as postagens sugerem, suas vidas não foram nada monótonas, já que elas gozavam de um estilo de vida abastado para a época e eram muito ricas.

A segunda filha do xá, Esmat al-Dowleh, casou-se ainda aos 11 anos de idade, algo que para a época era aceitável. Ao longo da sua vida, aprendeu a tocar piano e a bordar com um professor francês, e era responsável por recepcionar as esposas de diplomatas europeus que visitavam seu pai.

Esmat al-Dowleh, ao centro, com sua mãe e sua filha. | WikiCommons

Sua irmã mais nova, Taj al-Saltaneh, era a 12ª filha do seu pai. Ela poderia ter passado batida na história, em meia a tantos irmãos e irmãs. Mas ela garantiu a sua fama ao se tornar uma escritora feminista e nacionalista de grande talento.

Casada ainda mais jovem, aos 10 anos de idade, ela se divorciou de dois maridos, e escreveu suas memórias em uma série de livros. “Ai! As mulheres persas foram separadas da humanidade e colocadas junto com gado e animais. Elas vivem suas vidas inteiras de desespero na prisão, esmagadas sob o peso de ideias amargos”, escreveu al-Saltaneh em uma de suas obras. Em outro livro, ela escreve:

“Quando chegar o dia em que eu ver meu sexo emancipado e meu país no caminho do progresso, eu me sacrificarei no campo de batalha da liberdade, e derramarei livremente meu sangue sob os pés dos meus coortes amantes da liberdade em busca dos seus direitos”.

A VERDADE POR TRÁS DOS POSTS

Em muitos dos posts que descrevem a fictícia “Princesa Qajar”, é colocada uma ênfase em suas características faciais. E de fato, os bigodes nas mulheres eram considerados bonitos na Pérsia do século 19 (e não no século 20, como algumas postagens sugerem).

Segundo o historiador de Harvard, Afsaneh Najmabadi, dizer que elas eram um símbolo da beleza persa faz algum sentido. Najmadi escreveu um livro inteiro sobre o assunto, chamado (em tradução livre) “Mulheres com bigodes e homens sem barba: Gênero e ansiedades sexuais da modernidade iraniana”.

University of California Press

Na obra, o autor descreve como homens e mulheres da Pérsia, no século 19, atribuíam certos padrões de beleza que hoje não fazem o menor sentido.

As mulheres valorizavam suas sobrancelhas grossas e os pelos acima dos lábios de tal forma que, às vezes, usavam até mesmo tinta para reforçar essas características. Segundo Najmabadi, esses conceitos passaram a mudar quando os persas começaram a viajar mais pela Europa.

Dito isso, as postagens não são totalmente mentirosas, mas elas simplificam demais a verdade e dramatizam a ficção. Posts como esses, da “Princesa Qajar”, podem ser divertidos e fáceis de compartilhar, mas é sempre bom tentar entender o que existe de fato por trás das informações que chegam até nós por essas postagens. Muitas vezes, vale a pena pesquisar um pouco para conhecer a história toda.

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