Última cópia sobrevivente de um filme da BBC “tão assustador que foi destruído” é encontrada e será exibida novamente

por Lucas Rabello
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Última cópia sobrevivente de um filme da BBC "tão assustador que foi destruído" é encontrada e será exibida novamente.

Um filme de terror da BBC que ficou desaparecido por quase 60 anos foi encontrado por acaso, pouco antes de ser descartado. A obra, chamada No Such Thing as a Vampire, fazia parte da série Late Night Horror, uma antologia exibida no fim dos anos 1960 e cercada por uma fama quase fantasmagórica: a de ter sido assustadora demais para continuar existindo.

Durante décadas, o episódio foi considerado perdido. Não havia reprises, cópias acessíveis nem versões alternativas circulando entre colecionadores. Para pesquisadores e fãs de horror televisivo, ele era uma espécie de criatura de arquivo: mencionada em textos antigos, lembrada por alguns registros, mas impossível de assistir.

A história ganhou novo fôlego quando o grupo Film is Fabulous!, dedicado à preservação de filmes vulneráveis, anunciou que uma cópia havia sido localizada. O achado reacendeu não apenas o interesse pelo episódio, mas também uma pergunta curiosa: será que ele desapareceu por rotina de arquivo ou porque realmente assustou demais o público da época?

O terror perdido da BBC

O filme "No Such Thing as a Vampire" foi exibido pela última vez em 1969 (BBC).

O filme “No Such Thing as a Vampire” foi exibido pela última vez em 1969 (BBC).

No Such Thing as a Vampire foi lançado em 1968 e exibido pela última vez em 1969. O episódio era baseado em um conto de Richard Matheson, autor também ligado ao clássico Eu Sou a Lenda. A trama acompanha uma mulher que começa a adoecer de forma misteriosa. Quando marcas de perfuração aparecem em seu pescoço, ela passa a suspeitar de algo sobrenatural, enquanto o marido tenta afastar essa possibilidade.

A produção fazia parte de Late Night Horror, uma série de seis episódios voltada a histórias sombrias e góticas. Quatro desses episódios continuam completamente perdidos. Entre eles estava William and Mary, escrito por Roald Dahl, com uma premissa digna de pesadelo científico: um radiologista descobre uma forma de preservar o cérebro depois da morte do corpo.

Na época, programas de televisão não eram tratados como relíquias futuras. Muitos eram gravados em fitas caras, que acabavam reutilizadas ou descartadas. Estima-se que entre 60% e 70% da programação da BBC produzida entre as décadas de 1950 e 1970 tenha sido destruída. Dentro desse cenário, a perda de Late Night Horror parecia apenas mais uma página arrancada do livro da televisão britânica.

Mas o caso ganhou contornos mais nebulosos por causa dos rumores. A série teria recebido muitas reclamações de espectadores, incomodados com o teor pesado das histórias. Uma reportagem da BBC News de 2007 afirmou que ela havia sido retirada do ar por “reclamações de que era assustadora demais”. O curador Dick Fiddy, do BFI, também descreveu a produção como chocante e controversa.

Uma lata quase jogada fora

A recuperação de No Such Thing as a Vampire aconteceu de maneira quase cinematográfica. Darren Payne, projecionista e engenheiro de cinema, foi chamado para verificar algumas latas de filme encontradas no The Regent. Eram rolos antigos, sem grande identificação, que estavam prestes a ser jogados fora.

Segundo Payne, “a recuperação de No Such Thing As A Vampire foi puramente por acaso”. Ele contou que um dos membros da diretoria do The Regent havia encontrado uma pequena coleção de rolos e que ninguém sabia muito bem a origem daquele material. As latas estavam ali havia vários anos e quase foram descartadas.

Uma delas chamou atenção por causa de uma etiqueta simples, escrita à mão, com as palavras Late Night Horror. Payne, fã declarado de terror, reconheceu o título de algum canto remoto da memória. A partir daí, levou o filme para casa para descobrir o que havia dentro daquela lata prateada sem aparência especial.

O resultado foi surpreendente. “Eis que acabou sendo o primeiro episódio há muito perdido da série Late Night Horror. Eu tive que me beliscar; foi um momento impressionante e bastante emocionante”, contou Payne. Ele também afirmou que não subestimaria a experiência de ser a primeira pessoa a assistir à produção em quase 60 anos.

Há algo fascinante nesse tipo de descoberta. Um pedaço de televisão dado como morto retorna não por uma grande escavação tecnológica, mas por atenção, curiosidade e um pouco de sorte. Um filme que poderia ter terminado no lixo voltou a respirar dentro de um projetor.

A fama de ser assustador demais

A lenda em torno de No Such Thing as a Vampire não nasceu apenas do desaparecimento. Textos antigos sugerem que a série realmente causou impacto. A Atlas Obscura localizou uma matéria de 1968 da Radio Times sobre Late Night Horror com uma descrição tão intensa que, segundo o próprio veículo, fazia a produção soar como se tivesse sido criada pelo Anticristo. O texto ainda mencionava técnicos da BBC “com os joelhos fraquejando”.

Esse tipo de reputação coloca o episódio em uma linhagem curiosa de obras que ficaram marcadas por reações extremas. O drama nuclear Threads, também da BBC, foi exibido poucas vezes por ser considerado perturbador demais. Outros filmes, como A Serbian Film, enfrentaram banimentos e polêmicas ainda mais severas em diferentes países.

A diferença é que, enquanto algumas dessas obras sobreviveram em cópias alternativas ou caminhos indiretos, No Such Thing as a Vampire parecia ter evaporado. Por isso, sua recuperação tem valor histórico para além do susto. Ela ajuda a entender como o terror era produzido, recebido e preservado na televisão britânica dos anos 1960.

O grupo Film is Fabulous! informou que está trabalhando com o BBC Archives e que o episódio será exibido em Dorset, no dia 20 de setembro de 2026, durante o evento Grindfest, que terá três dias de programação. Para os fãs de cinema perdido, será mais do que uma sessão de terror: será o reencontro com uma obra que atravessou décadas dentro de uma lata esquecida.

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