A produção de uma cinebiografia sobre uma das figuras mais icônicas da história da música costuma gerar grande expectativa, mas o novo filme Michael está mergulhado em uma onda de críticas antes mesmo de sua estreia definitiva.
O longa, dirigido por Antoine Fuqua, foca na trajetória de Michael Jackson, o Rei do Pop, interpretado por seu sobrinho na vida real, Jaafar Jackson. No entanto, a escolha do recorte temporal e a omissão de fatos polêmicos colocaram a obra no centro de um debate acalorado sobre ética e verdade no cinema biográfico.
O ponto principal de discórdia é a decisão dos realizadores de não incluir as inúmeras alegações de abuso sexual infantil que marcaram as últimas décadas da vida do cantor.
Enquanto o filme busca humanizar o artista e mostrar sua ascensão, críticos e diretores de documentários apontam que ignorar esses aspectos cria uma narrativa incompleta e higienizada. A recepção inicial da crítica especializada reflete esse desconforto, com o filme registrando uma pontuação de apenas 37% em plataformas de avaliação.
A justificativa oficial da equipe de produção
A equipe criativa por trás de Michael defende que o filme não cobre as acusações de abuso porque sua narrativa termina no ano de 1988. Segundo os produtores, o foco da obra é o processo de formação do artista, desde sua infância nos anos 1960 até o auge da carreira na década de 1980. Como a primeira acusação formal de abuso surgiu apenas em 1993, cinco anos após o encerramento do roteiro, os realizadores afirmam que não haveria espaço cronológico para abordar o tema.
Colman Domingo, que interpreta o pai de Michael, Joe Jackson, reforçou essa posição em entrevistas recentes. Ele explicou que o longa é um retrato íntimo de quem Michael era e de como ele tentava encontrar sua voz como artista. Domingo afirmou que “o filme se passa dos anos 60 até 1988, então ele não entra nas primeiras alegações”. Ele ainda mencionou a possibilidade teórica de uma continuação para lidar com eventos posteriores, focando este primeiro momento apenas na construção do fenômeno pop.

Michael Jackson e James Safechuck em 1988, ano em que o filme termina
A reação de Dan Reed e as críticas à cronologia
Dan Reed, diretor do documentário Deixando Neverland, de 2019, tem sido uma das vozes mais críticas contra a cinebiografia. O documentário de Reed trouxe à tona os depoimentos de James Safechuck e Wade Robson, que acusam o cantor de abusos ocorridos quando ainda eram crianças.
Para Reed, o argumento de que o filme termina antes das acusações é uma manobra para evitar o assunto. Ele contesta a validade desse corte temporal, afirmando que os abusos relatados por Safechuck teriam começado justamente durante a turnê Bad, período que o filme Michael retrata.
Em entrevista, Reed expressou sua descrença com a justificativa dada pela produção. Ele declarou: “Eu acho isso hilário. É como dizer: ‘Vamos fazer um filme sobre Jeffrey Epstein, mas vamos parar antes dele começar a cometer crimes graves’. Ou, você sabe, ‘vamos fazer um filme sobre Harvey Weinstein, mas vamos parar antes que qualquer pessoa descubra que ele estava estuprando pessoas’. Eu acho que é uma piada, sério”. O diretor argumenta que, para ser um filme honesto, a obra precisaria lidar com o que ele chama de elefante na sala.
O impacto da turnê Bad na narrativa
A turnê Bad é um dos momentos mais importantes da carreira de Michael Jackson e está presente no novo longa. Contudo, para Dan Reed e os acusadores que participaram de seu documentário, esse período não pode ser dissociado das polêmicas.
Reed afirma que James Safechuck tinha dez anos na época da turnê e que os abusos teriam se iniciado naquele contexto. A ausência desse subtexto na cinebiografia é vista por críticos como uma tentativa do espólio de Jackson de controlar a imagem pública do cantor.
Reed sustenta que, se o espólio tivesse argumentos persuasivos que pudessem exonerar Michael Jackson ou explicar sua proximidade com crianças, eles teriam colocado isso no filme. Segundo ele, a omissão ocorre porque não existe outra explicação para esses comportamentos.
Ele comentou: “É a coisa óbvia que, se você estivesse fazendo um filme honesto sobre Michael Jackson, você iria querer cobrir, certo? Eu acho que o fato de não existir essa explicação é o motivo de terem deixado de fora, e fico feliz que as pessoas estejam percebendo isso”.

Dan Reed, diretor de Leaving Neverland, criticou duramente a cinebiografia.
A possibilidade de uma sequência
A ideia de que o filme Michael poderia ter uma parte dois, conforme sugerido por Colman Domingo, também foi alvo de críticas ácidas por parte de Dan Reed. Domingo afirmou na TV americana que “há a possibilidade de haver uma parte dois que possa lidar com outras coisas que aconteceram depois”. Ele reiterou que o foco atual é como Michael foi criado e como ele se desenvolveu como músico, deixando a porta aberta para discussões futuras sobre os processos judiciais e as denúncias de 1993 e 2005.
Reed foi enfático ao rejeitar essa possibilidade de uma continuação que abordasse os crimes de forma direta. Ele disse: “Nunca haverá uma sequência”. O documentarista acredita que qualquer continuação teria apenas motivações financeiras para utilizar músicas que ficaram de fora do primeiro filme. Ele acrescentou: “Se houver mais dinheiro para ser ganho, eles farão um segundo filme, mas tenho 100% de certeza de que o segundo filme não abordará nenhuma das alegações de abuso sexual infantil porque eles não podem, porque ele era culpado como o pecado”.
O papel de Taj Jackson na defesa da família
Diante das críticas pesadas e da baixa recepção inicial, a família Jackson tem se manifestado para defender a integridade da obra. Taj Jackson, sobrinho de Michael, utilizou suas redes sociais para rebater os críticos do filme.
Ele tem sido um defensor ferrenho do legado do tio e questiona as motivações daqueles que atacam a produção antes mesmo de sua ampla distribuição. Para a família, o filme é uma oportunidade de mostrar o lado humano e o esforço artístico de Michael, que muitas vezes é ofuscado pelas manchetes negativas.
A tensão entre a família e diretores como Dan Reed reflete a divisão que ainda existe no público e na mídia em relação a Michael Jackson. Reed revelou que conversou com James Safechuck e Wade Robson sobre a cinebiografia e que ambos estão satisfeitos por ele estar expondo as falhas que enxerga no projeto. O diretor de Deixando Neverland já planeja um terceiro documentário, focado no julgamento que as empresas de Michael Jackson enfrentarão futuramente devido aos processos movidos por Safechuck e Robson.
O legado e a percepção pública
A cinebiografia Michael chega em um momento onde o público consome produções sobre crimes reais e biografias com um olhar muito mais analítico. A escolha de Antoine Fuqua em focar na música e no brilho do artista entra em conflito direto com o desejo de uma parcela da audiência por transparência total sobre as sombras de sua vida privada. O filme aborda o relacionamento difícil com o pai, Joe Jackson, mostrando como a disciplina rígida moldou o talento de Michael, mas a barreira imposta no ano de 1988 permanece como o ponto de maior atrito.
Enquanto o debate continua, o filme segue sua trajetória cercado de polêmica. A discussão sobre se é possível separar a obra do artista, ou se uma biografia tem o dever de expor todos os lados de seu objeto de estudo, ganha novos capítulos com cada declaração dos envolvidos. O uso de Jaafar Jackson no papel principal traz uma camada extra de semelhança física e emocional, mas para críticos como Reed, nenhuma performance técnica pode compensar o que ele considera uma omissão deliberada da verdade histórica.
