Por que algumas pessoas amam o cheiro de gasolina?

por Lucas Rabello
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Você já percebeu como algumas pessoas sentem o cheiro de gasolina e parecem quase satisfeitas? Talvez você seja uma dessas pessoas, secretamente gostando daquele odor pungente, doce e químico. Vamos esclarecer uma coisa — se você gosta, definitivamente não está sozinho.

A gasolina é uma mistura de vários ingredientes como descongelantes, lubrificantes, agentes anti-corrosão, e centenas de compostos químicos chamados hidrocarbonetos. Entre eles, temos butano, pentano, isopentano e os notórios compostos BTEX: benzeno, etilbenzeno, tolueno e xileno. A estrela deste show aromático? Benzeno. É o composto que dá à gasolina aquele cheiro distinto, e aqui está o porquê de ser tão cativante.

O benzeno é adicionado à gasolina para aumentar os níveis de octanagem, melhorando o desempenho do motor e a eficiência do combustível. Com um cheiro naturalmente doce, o benzeno é potente o suficiente para que o nariz humano o detecte com apenas 1 parte por milhão no ar. Além disso, ele evapora rapidamente, então, se você derramar um pouco, vai sentir o cheiro imediatamente.

Agora, gostar do cheiro de benzeno não é tão estranho quanto parece. No século XIX e início do século XX, o benzeno era adicionado a loções pós-barba e até a duchas íntimas por seu aroma agradável. Ele também era um solvente para descafeinar o café. Mas não se acostume demais com o benzeno — ele é um conhecido cancerígeno, perigoso se inalado em altas concentrações ou por longos períodos. Então, por mais tentador que seja, não vá cheirar gasolina por diversão.

Então, por que algumas pessoas gostam desse cheiro potencialmente prejudicial? A ciência ainda não tem uma resposta definitiva, mas há duas teorias principais.

Primeiro, o fator nostalgia. Nosso sentido do olfato é um poderoso gatilho para memórias. Pense nisso—já sentiu um aroma que instantaneamente o transportou para outro tempo e lugar? Essa conexão entre cheiro e memória é frequentemente chamada de fenômeno de Proust, em homenagem ao autor francês Marcel Proust, que escreveu sobre memórias de infância evocadas pelo cheiro de um biscoito madeleine mergulhado no chá.

Isso não é apenas poesia. O olfato é o único sentido que pula o tálamo—uma espécie de central de distribuição sensorial—a caminho do cérebro. Em vez disso, ele toma uma rota direta. O bulbo olfativo, que detecta moléculas de cheiro, tem uma rede densa de conexões perto da amígdala e do hipocampo, as áreas do cérebro envolvidas na resposta emocional e na formação de memórias. É por isso que os cheiros podem desencadear memórias vívidas e emocionalmente carregadas.

Voltando à gasolina: se você já formou uma memória forte e feliz ligada ao cheiro da gasolina, esse aroma pode trazer de volta essas boas sensações. Talvez esteja ligado a viagens de carro na infância, aventuras de barco ou ajudando na garagem. Sentir o aroma do benzeno pode desencadear uma onda de nostalgia e uma sensação agradável.

A segunda teoria é sobre a química do cérebro. O benzeno e outros hidrocarbonetos podem suprimir o sistema nervoso quando inalados, produzindo um efeito eufórico temporário. Essa sensação de dormência ativa a via mesolímbica, também conhecida como o sistema de recompensa do cérebro. Essa via libera dopamina, um neurotransmissor que nos faz sentir bem, reforçando o comportamento.

Essa via mesolímbica é um jogador importante na neurobiologia do vício. Seja sexo, videogames, drogas ou, sim, até mesmo gasolina, essa via faz com que essas experiências pareçam recompensadoras e incentiva você a repeti-las. A gasolina, sendo um inalante comumente abusado, pode levar a efeitos devastadores na saúde de quem se torna viciado. Então, novamente, não vá cheirar gasolina de propósito.

Essas duas teorias — memórias nostálgicas e o sistema de recompensa do cérebro — também poderiam explicar por que somos atraídos por outros cheiros incomuns, como marcadores de quadro branco, bolas de tênis novas ou livros. Podemos subconscientemente associar esses aromas a memórias positivas, ou eles podem nos dar aquele impulso de dopamina.

Embora essas teorias sejam convincentes, a ciência ainda não é conclusiva. Pesquisadores ainda estão explorando as complexidades do nosso sentido do olfato e descobrindo novos mistérios sobre ele todos os dias. Então, se você é uma dessas pessoas que secretamente gosta do cheiro de gasolina, há uma mistura de razões psicológicas e químicas por trás disso. Mas lembre-se, embora o cheiro possa ser intrigante, o benzeno ainda é uma substância perigosa. Aproveite esses momentos nostálgicos, mas mantenha distância da exposição prolongada aos vapores da gasolina.

Lucas Rabello
Lucas Rabello

Fundador do portal Mistérios do Mundo (2011). Escritor de ciência, mas cobrindo uma ampla variedade de assuntos. Ganhou o prêmio influenciador digital na categoria curiosidades.

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