A cidade brasileira que esconde um vulcão de 25 milhões de anos

por Lucas Rabello
760 visualizações
A cidade brasileira que esconde um vulcão de 25 milhões de anos

No coração do sertão potiguar, uma silhueta imponente desafia a paisagem plana da caatinga e desperta a curiosidade de quem trafega pela BR-304, no Rio Grande do Norte.

O Pico do Cabugi, localizado no município de Angicos, não é apenas uma montanha isolada, mas sim o que restou de um dos eventos geológicos mais dramáticos do Brasil. Com aproximadamente 590 metros de altitude, essa formação representa o registro de um passado em que a terra literalmente fervia na região Nordeste.

Diferente do que muitos imaginam, o Brasil possui, sim, estruturas de origem vulcânica, e o Cabugi é a mais preservada delas. Geólogos explicam que ele se formou há cerca de 25 milhões de anos, durante o período Terciário.

Naquela época, o magma forçou sua passagem através da crosta terrestre, mas o que vemos hoje não é o cone externo do vulcão. O tempo e a erosão desgastaram as camadas superficiais de terra e cinzas, deixando exposta apenas a chaminé central, onde a lava se solidificou como um tampão de rocha basáltica extremamente resistente.

Essa característica faz do local um exemplar raro de neck vulcânico, ou gargalo vulcânico. A estrutura é tão robusta que sobreviveu ao processo de desgaste natural que nivelou o restante do terreno ao seu redor. Para os pesquisadores, o Cabugi funciona como uma cápsula do tempo geológica, permitindo o estudo da atividade magmática que moldou parte do relevo brasileiro em épocas remotas.

O mistério do vulcão do sertão

A fama do Pico do Cabugi atravessa gerações e alimenta o imaginário local. Muitos visitantes acreditam estar diante de um vulcão pronto para despertar, mas a ciência garante que ele está extinto há milhões de anos.

A última vez que aquela chaminé viu lava incandescente, o cenário ao redor era completamente diferente do atual semiárido. A presença de rochas basálticas escuras contrasta fortemente com o solo claro e a vegetação acinzentada da caatinga, criando um impacto visual que atrai aventureiros e geólogos de várias partes do mundo.

O acesso ao pico é protegido pelo Parque Estadual do Pico do Cabugi. A subida é considerada um desafio físico devido à inclinação acentuada e ao terreno repleto de pedras soltas. Durante a subida, é possível observar de perto as colunas de basalto que se formaram durante o resfriamento lento do magma. Essas estruturas geométricas naturais são provas da origem vulcânica da montanha e mostram como a natureza organizou a matéria sob condições extremas de pressão e temperatura.

Importância científica e preservação regional

Além do valor turístico, o Cabugi possui uma relevância acadêmica fundamental. Ele serve como base para estudos sobre a tectônica de placas e o vulcanismo continental no Brasil. A conservação dessa área é essencial não apenas para manter a integridade da formação geológica, mas também para proteger a fauna e a flora locais que se adaptaram a esse microclima específico. A altitude elevada proporciona um ambiente ligeiramente diferente do restante da planície, servindo de refúgio para espécies da biodiversidade potiguar.

O local também carrega histórias culturais. Moradores da região mantêm viva a memória de pesquisadores estrangeiros que visitaram o local no século passado. Um guia local recorda as palavras de um geólogo que examinou as pedras do cume: “Isso aqui é um monumento natural que conta a história do fogo no Brasil”. Essa frase resume a percepção de que o Cabugi é um patrimônio que vai além da beleza cênica.

Veja também: