Eles são os verdadeiros donos do mundo

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Se um dia existiu um inimigo invisível real, capaz de causar pavor – e, quem sabe, extermínios de nível global – esse inimigo tem um nome: vírus. Mas não só eles, como também suas aliadas, as bactérias.

Para nós, vírus e bactérias podem parecer a mesma coisa, porque ambos causam doenças fatais e, muitas vezes, mortais. Mas para a biologia há uma grande diferença entre um e outro: enquanto as bactérias são um tipo de célula biológica, constituindo um grande domínio de micro-organismos e consideradas como seres vivos, os vírus não passam de partículas infecciosas, que não consideradas como seres vivos pela ciência. Ambos são invisíveis a olho nu, porém capazes de se multiplicar rapidamente em um curto espaço de tempo.

As bactérias nem sempre são prejudiciais: algumas delas são até mesmo vitais para a saúde humana, como, por exemplo, as que compõem a flora intestinal e auxiliam no processo digestivo. Mas, quando saem do controle ou quando interagem inadequadamente, aí temos um problema: tuberculose, cólera, tétano e difteria são exemplos de algumas doenças que as bactérias podem causar.

Um vírus, por outro lado, precisa de ajuda externa para se multiplicar, se infiltrando no material genético das células dos seres vivos e fazendo uma reprogramação capaz de liberar partículas infecciosas pelo organismo. Cada vírus possui uma célula hospedeira específica, sendo que alguns atacam somente bactérias e fungos, enquanto outros atacam plantas. Outros tipos de vírus são capazes de atacar somente animais e já outros, somente seres humanos. Existem vírus, inclusive, que atacam ambos seres humanos e animais.

Algumas doenças causadas por vírus são a AIDS, a hepatite, as gripes em suas mais diversas ramificações, dengue, catapora, sarampo e infecções diversas como o recente Coronavírus, capaz de causar uma infecção respiratória mortal.

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Na história, os vírus e bactérias tiveram um desenvolvimento tão interessante quanto assustador: imagine só um cenário em que pessoas ao seu redor iam dormir por horas e horas e simplesmente não acordavam mais, a não ser que fossem chacoalhadas? Daí elas levantavam, até comiam algo, usavam o banheiro e, como se tivessem passado dias sem dormir, voltavam sonolentas para a cama, para nunca mais acordarem.

Acredite se quiser, mas esse sono mórbido matou cerca de 5 milhões de pessoas na Europa entre 1915 a 1926 e simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. Até hoje não se sabe o tipo de vírus que causou a “Doença do Sono”, uma das pandemias mais violentas da história humana que ganhou o nome de “encefalite letárgica”, por resultar em uma inflamação no cérebro que faz as pessoas perderem os sentidos e caírem no sono da morte.

Mais assustador do que isso se deu em seguida: o surgimento do vírus H1N1. No início, pessoas que pegavam gripe por esse vírus, acabavam melhorando. Porém, entre 1918 a 1919 a taxa de mortalidade atingiu 2,5% e, em 25 semanas, uma versão mais letal do mesmo vírus H1N1, que ficou conhecida como Gripe Espanhola, acabou matando mais gente do que em 25 anos de AIDS. Estima-se que de 50 e 100 milhões de pessoas pelo mundo morreram pela Gripe Espanhola, o que corresponde a até 5% da população mundial da época. A Gripe Espanhola fez mais vítimas do que a Primeira Guerra Mundial.

Com as recentes e alarmantes notícias sobre o Coronavírus, acabamos nos perguntando: será que um desastre como esses que já ocorreram no passado pode se repetir? Os vírus e as bactérias são mesmo uma ameaça tão grande, a ponto de definirem o curso de nossa história?

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Bem, para que possamos responder essa pergunta, primeiro precisamos entender como funcionam esses microrganismos. Apesar de parecer assustador, você sabia que as bactérias praticamente fazem de você o que você é? É isso mesmo: existem mais bactérias sobre sua pele do que gente vivendo no planeta Terra.

Para as bactérias, seu corpo é um lar paradisíaco, abundante em água, gordura, proteínas e sais minerais que as mantém vivas.  Elas se deleitam com a vasta disponibilidade de óleos e proteínas necessários para sua sobrevivência, principalmente nas regiões das axilas, que possuem glândulas em maiores quantidades.

Isso pareceria assustador se não fosse o fato que, pelo lado de dentro, somos um universo inteiro: nosso corpo é feito de 10 trilhões de células e abriga 100 trilhões de bactérias. Para ter uma ideia, colocando tudo isso em perspectiva, segundo Nathan Wolfe, um dos infectologistas mais renomados do mundo “se existisse uma enciclopédia de 30 volumes listando tudo o que vive nesse planeta, 27 seriam para descrever vírus e bactérias”.

Os microrganismos são fundamentais para a vida: fabricam vitaminas, quebram proteínas, limpam o intestino, cuidam do processo digestivo e são tão vitais para os seres humanos quanto as células. Aliás, você sabia que cada uma das nossas células já nasce com uma bactéria dentro? Pois é: a mitocôndria é a responsável por fornecer energia para as nossas células. Podemos dizer que os microrganismos são como engrenagens que nos mantém vivos.

Mas não se engane: assim como dão a vida, rapidamente, podem tirá-la de nós. As bactérias só são “boas” quando estão nos lugares certos. Se forem parar na corrente sanguínea, já era. Esse é o caso da Pseudomonas aeruginosa, uma bactéria gram-negativa que causa a sepse, uma infecção capaz de destruir os tecidos do corpo. Às vezes o tratamento é amputar as partes do corpo que foram infectadas. O mais assustador é que não só essa, mas muitas outras doenças causadas por bactérias, podem pegar qualquer pessoa de surpresa: não importando sua etnia, cor, religião, condição social ou econômica.

As bactérias têm um poder destrutivo inimaginável e nós temos contribuído para que de simples “bactérias” elas passassem a se tornar “superbactérias”: por conta do uso de antibióticos para o tratamento de doenças não tão graves, ou até mesmo pelo uso irregular dos remédios – como, por exemplo, ao parar de tomar o antibiótico antes do prazo –  as bactérias vêm se modificando, tornando-se mais e mais resistentes. Então, surge a chamada “superbactéria”, que se desenvolve quando há uma infecção bacteriana e o paciente toma um antibiótico.

Nesse processo, um grupo pequeno delas pode sobreviver, por terem uma constituição um pouco diferente das demais. Essas bactérias sobreviventes se tornam resistentes àquele antibiótico e podem se reproduzir, transmitindo esse conhecimento às demais. Para se ter ideia, surgiram bactérias resistentes à própria penicilina, a considerada “mãe” dos antibióticos.

Caso não encontremos uma solução para combatê-las, estima-se que até 2050, mais de 10 milhões de pessoas podem morrer por problemas relacionadas às superbactérias, sendo os principais afetados os países e as regiões mais pobres, sobretudo na África e na Ásia, com menos acesso a hospitais que disponham de recursos suficientes e saneamento básico.

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Bem, já mencionamos que as bactérias e vírus não são as mesmas coisas, certo? Diferentemente das bactérias, os vírus por si só não fazem nada, a não ser que se hospedem em uma célula, inclusive em uma bactéria, para obter a energia necessária para poder fazer suas operações – assim como numa fábrica, em que os vírus seriam os operários das máquinas para que pudessem dar início à uma produção.

Cada tipo de vírus tem uma espécie de “chave” que pode quebrar um determinado tipo célula, para que assim, adentrem. Um exemplo disso é o próprio HIV, que possui a chave para a célula CD4, célula fundamental para o funcionamento do sistema imunológico. Quebrando-a, as defesas do organismo são enfraquecidas. É por esse motivo que um paciente acometido pelo HIV não morre pelo HIV em si, mas pode morrer por um simples resfriado, já que não possui defesa nenhuma para combatê-lo.

Nosso organismo hoje em dia é muito complexo, e evoluiu por bilhões de anos para poderem lidar com invasores e, claramente, vencê-los. Nosso sistema de defesa se inicia na pele, que está coberta de células mortas, o que evita a infecção por vírus, por, claramente, estarem mortas.

A pele é a nossa primeira camada de proteção, de forma que os vírus precisam adentrar pelos nossos orifícios – nariz, boca, genitais, etc., para que vivam. Alguns deles até entram diretamente na corrente sanguínea através de picadas de mosquitos.

É aí que dispomos de armas mais sofisticadas para combatê-los: os linfócitos. Os linfócitos possuem uma inteligência própria e são capazes de literalmente “atirar para todos os lados” a fim de eliminarem uma combinação infecciosa. Eles até mesmo criam exércitos de clones de si mesmos para matarem as células hospedeiras do vírus, um processo que demora alguns dias para ser feito.

Enquanto isso, os sintomas vão aparecendo. Quando a batalha é vencida, o exército de clones que mataram o vírus inimigo fica em seu organismo para sempre, de modo que você se torna imune àquela doença.

É exatamente assim que as vacinas funcionam: proteínas dos vírus – e não eles inteiros – são injetadas em seu corpo, para provocar exatamente a formação deste exército e imunizar você para sempre.

Então, nos perguntamos: por que não conseguimos nos livrar dos ataques de vírus para sempre?

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A grande resposta para isso é: o nosso modo de vida. É claro que alguns vírus encontram formas de se esconder dos exércitos que os atacam, mas o nosso modo de vida é o grande responsável pelo surgimento de novos vírus, mais fortes com um alto poder de destruição.

No passado, quando não existiam as vacinas, geralmente os vírus se proliferavam e matavam seus hospedeiros junto, levando consigo tribos inteiras as quais a pessoa infectada mantinha contato.

As civilizações caçadoras e coletoras viviam esparsas e a expectativa de vida também era muito menor. Com o desenvolvimento da agricultura e o crescimento populacional, a troca entre culturas e, posteriormente, viagens transoceânicas, os vírus também tiveram a sua vez: eles tinham uma oferta maior de corpos para se hospedarem, sobretudo através da criação de gado e do contato com seus excrementos e secreções, onde as variações mais letais desses microrganismos começaram a aparecer na história.

Para se ter ideia, com a recente tecnologia que desenvolvemos para entendermos mais sobre os vírus, a ciência ganhou o poder de rastrear a origem deles. O resultado traçado por geneticistas revela que há um ancestral em comum nas comparações de vírus de animais com os humanos.

A conclusão foi que o vírus do sarampo é parente de um que ataca o gado, o da peste bovina. O que significa que os vírus dos bois passaram por uma mutação genética na época das primeiras criações e adquiriu o poder de invadir e infectar os seres humanos.

O histórico do vírus influenza começa nas aves selvagens, que carregam o vírus sem ter como infectar os humanos. Mas, como era de se esperar, demos um jeito de fazer isso acontecer: quando se deram as primeiras criações de galinhas, outros pássaros acabavam tendo contato com seu alimento e água, contaminando-as. Os porcos, também criados juntos, também receberam uma mutação do vírus da gripe aviária, que foi capaz de infectá-los.

Os vírus permaneceram se recombinando dentro dos corpos dos porcos e galinhas, até surgir uma variação que infectasse o homem.

O resultado dessa mistura confusa foi que os porcos ficaram vulneráveis à gripe humana e à aviária, além de terem a gripe exclusiva deles. E muitas combinações continuam surgindo até os dias de hoje: por isso todo ano tomamos o conhecimento de uma gripe diferente.

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Certamente nosso sistema de saúde evoluiu muito nos últimos cem anos, com mais e mais descobertas científicas. Ao mesmo tempo, a origem dos vírus também se tornou mais complexa: hoje há quase 1 bilhão de porcos no mundo e 19 bilhões de galinhas, o que é quase 3 galinhas por habitante do planeta. No Brasil, o maior exportador de carne bovina no mundo, o número de cabeças de gado supera o número de habitantes, segundo a ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne).

A superpopulação desses animais aumenta as chances de aparecer novas doenças mortais: a última que colocou o mundo em pânico ocorreu em 2003: a gripe aviária, que infectou 423 pessoas e matou 258 delas.

O Coronavirus, em sua mutação temporariamente nomeada como 2019-nCoV, já teve uma suspeita inicial de que sua origem tenha se dado a partir de animais marinhos na China, sendo que o mercado inclusive foi fechado para desinfecção. Uma outra suspeita mais recente é a de que sua origem se dê a partir das cobras e morcegos, de modo que investigações ainda procedem para que a origem do vírus seja descoberta.

Você agora deve estar se perguntando: ok, mas e a solução para nos vermos livres dos vírus para sempre?

Bem, a resposta não é muito animadora: talvez nunca nos vejamos livres dos vírus, pois não existe uma fórmula mágica para isso, o que os colocam, talvez, como verdadeiros donos do mundo.

Medidas de higiene, vigilância, criação responsável de animais e maior investimento em pesquisas científicas podem funcionar como armas eficientes capazes de não só prevenir, como também remediar os próximos casos – para, ao menos, administrar os riscos, a fim de que o mínimo de danos seja causado à humanidade e que possamos sair vitoriosos dessa grande batalha.

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