A história real dos ‘vampiros’ de Meduegna

por Lucas Rabello
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Em 1727, um lutador sérvio chamado Arnold Paole caiu e quebrou o pescoço, sendo enterrado na pequena cidade de Meduegna (Medveđa), Sérvia. Mas essa não foi o fim da sua história. Logo, os aldeões afirmaram que Paole não estava descansando em paz; ele estava atormentando-os do além-túmulo. Segundo um relatório do marechal de campo Fluckinger ao Alto Comando de Belgrado, dentro de 20 a 30 dias após a morte de Paole, os aldeões estavam sendo assediados pelo antigo vizinho. Quatro pessoas teriam até morrido por causa dele.

Paole já havia confidenciado a outros sobre ser atormentado por um vampiro perto de Cossowa, na província turca da Sérvia. Para se livrar da maldição, ele supostamente comeu terra do túmulo do vampiro e se besuntou com seu sangue. Alerta de spoiler: não funcionou. Seu comportamento assustador levou os aldeões a desenterrar seu túmulo 40 dias após sua morte para ver se ele estava realmente morto-vivo.

Quando abriram o túmulo, encontraram o corpo de Paole intacto e sem sinais de decomposição. Sangue fresco havia escorrido de seus olhos, nariz, boca e ouvidos. Seu queixo, xale e torso estavam cobertos de sangue, e novas unhas haviam crescido no lugar das antigas. Convencidos de que tinham um verdadeiro vampiro em mãos, os aldeões enfiaram uma estaca no coração de Paole. Ele supostamente soltou um gemido e liberou uma quantidade significativa de sangue antes de queimarem seu corpo.

Meduegna

Você pensaria que isso resolveria o problema, certo? Errado. Os problemas com “vampiros” na cidade continuaram. Mais dezessete pessoas morreram repentinamente, sendo que treze dessas mortes ocorreram em apenas seis semanas. Os sintomas relatados pelas vítimas — dores lancinantes no lado e no peito, febres prolongadas e laceração dos membros — só alimentaram os temores dos aldeões sobre vampiros.

Entra em cena o médico militar Medicus Glaser. Ele chegou para investigar as mortes súbitas. Seu exame dos corpos não fez muito para acalmar a histeria. Um cadáver estava com a boca aberta, com sangue fresco e brilhante fluindo do nariz e da boca. O corpo estava inchado e coberto de sangue, uma visão realmente suspeita. Glaser não podia culpar totalmente os aldeões por suas teorias sobre vampiros.

Com o pânico não diminuindo, uma segunda comissão foi chamada para investigar. Os cirurgiões militares Johann Flückinger, Siegele e Johann Friedrich Baumgarten, junto com dois oficiais, tenente-coronel Büttner e J. H. von Lindenfels, assumiram o caso. Seu relatório, datado de 26 de janeiro de 1732, revelou que, entre as sepulturas examinadas, cinco corpos estavam decompostos, como esperado. No entanto, doze corpos estavam em um estado alarmante. Esses corpos estavam intactos, com sangue fresco nas veias, pele vermelha e vívida e novas unhas. A comissão concluiu que esses corpos estavam em ‘condição vampírica.’

Então, o que uma cidade deve fazer com um monte de supostos vampiros? O passo lógico, obviamente, era decapitar e queimar os corpos para evitar mais caos sobrenatural.

Naquela época, não havia conhecimento sobre várias condições médicas que poderiam explicar a ‘condição vampírica.’ Mas se você está inclinado a acreditar que existe um Edward Cullen da vida real por aí, lembre-se dos moradores de Meduegna que podem discordar das suas noções românticas.

O que de fato aconteceu em Meduegna?

Várias condições médicas e processos naturais podem explicar os fenômenos observados que alimentaram essas crenças.

Primeiro, o estado de “intactidão” e a presença de sangue fresco em um cadáver podem ser explicados pela composição do solo e as condições ambientais. Em solos argilosos e em ambientes frios, a decomposição pode ser retardada, preservando o corpo por mais tempo. Além disso, a presença de sangue pode ser resultado de processos de decomposição onde gases acumulados no corpo empurram fluidos para fora através de orifícios naturais.

Os relatos de corpos inchados e com sangue saindo da boca e nariz podem ser atribuídos ao fenômeno da putrefação. Durante a decomposição, a produção de gases provoca inchaço e pode forçar fluidos, como sangue e outros líquidos corporais, a sair pelas aberturas do corpo. Esse processo, natural na decomposição, era mal compreendido na época e facilmente confundido com sinais de “vida” pós-morte.

As mortes subsequentes na vila, acompanhadas de sintomas como dores no peito, febres e laceração dos membros, poderiam ser explicadas por uma epidemia de alguma doença infecciosa, como tuberculose ou febre tifoide. Sem o conhecimento de germes e a transmissão de doenças, esses surtos eram frequentemente atribuídos a causas sobrenaturais. Os sintomas relatados são consistentes com várias doenças infecciosas que poderiam ter se espalhado rapidamente em uma comunidade pequena e isolada.

Finalmente, o estado dos corpos encontrado pelos cirurgiões militares, com pele vermelha e unhas aparentemente “novas”, pode ser explicado pela retração da pele durante a decomposição, dando a impressão de crescimento das unhas e cabelo. A vermelhidão da pele pode ser resultado da preservação parcial ou de processos químicos naturais. Essas observações, mal interpretadas, reforçaram a crença no vampirismo. Hoje, compreendemos que essas condições são parte dos processos naturais da morte e decomposição, não sinais de atividade vampírica.

Lucas Rabello
Lucas Rabello

Fundador do portal Mistérios do Mundo (2011). Escritor de ciência, mas cobrindo uma ampla variedade de assuntos. Ganhou o prêmio influenciador digital na categoria curiosidades.

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