Um acidente inusitado em um grupo de mensagens confidenciais do governo dos Estados Unidos chamou a atenção esta semana após a revelação de que um jornalista foi incluído por engano em conversas sobre operações militares secretas. O caso, que envolveu figuras de alto escalão da administração Trump, levantou questões sobre segurança digital e transparência em meio a discussões sensíveis.
Tudo começou no dia 15 de março, quando Jeffrey Goldberg, editor-chefe da revista The Atlantic, recebeu uma mensagem de Pete Hegseth, secretário de defesa dos EUA, às 11h44. O texto fazia parte de um grupo de WhatsApp que incluía conselheiros de segurança nacional e outras autoridades. O problema? Goldberg não deveria estar ali. Segundo relatos, o jornalista permaneceu no grupo por vários dias e teve acesso a detalhes confidenciais, como planos militares, alvos estratégicos e informações sobre armas que seriam usadas em uma operação contra os Houthis no Iêmen — tudo isso duas horas antes dos bombardeios começarem.
O responsável pelo erro foi o conselheiro de segurança nacional Mike Waltz ou alguém de sua equipe, que adicionou o número de Goldberg ao grupo por engano. Em um artigo publicado em 24 de março, o jornalista descreveu o conteúdo das mensagens, incluindo debates entre autoridades sobre os riscos e os objetivos da operação. Apesar da gravidade do vazamento, o presidente Donald Trump defendeu Waltz publicamente. Em entrevista por telefone à NBC News, Trump minimizou o incidente: “Michael Waltz aprendeu a lição, e ele é um bom homem”. O presidente também afirmou que a presença do jornalista no chat “não teve impacto algum” na operação militar.

Jeffrey Goldberg, editor do The Atlantic, foi adicionado ao chat por engano.
Questionado sobre como o erro aconteceu, Trump atribuiu a falha a um membro da equipe de Waltz: “Foi um funcionário dele no telefone. Um assessor tinha o número [de Goldberg] salvo”. A reação descontraída do líder surpreendeu: ele classificou o episódio como “o único problema em dois meses, e acabou não sendo sério”. A declaração foi reforçada pela secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, que emitiu uma nota afirmando que Trump “mantém total confiança em sua equipe de segurança nacional, incluindo o conselheiro Mike Waltz”.
Goldberg só revelou sua participação no grupo dias depois, ao sair do chat e questionar Waltz e outros integrantes se sua presença era intencional. A resposta veio de Brian Hughes, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, que confirmou a autenticidade das mensagens e anunciou uma investigação sobre como o número do jornalista foi incluído. Em sua resposta, Hughes destacou que o grupo era “uma demonstração da coordenação política aprofundada entre autoridades” e garantiu que o sucesso da operação contra os Houthis comprovava que “não houve ameaças às tropas ou à segurança nacional”.
O caso expõe desafios recorrentes na era digital: a facilidade de cometer erros em comunicações instantâneas e os riscos de vazamentos acidentais em meio a discussões críticas. Embora autoridades tenham insistido que nenhum dano ocorreu, a situação revela como até mesmo processos supostamente protegidos podem sofrer falhas humanas. Detalhes como o tempo de acesso do jornalista — vários dias — e a variedade de informações trocadas (de estratégias a debates políticos) mostram a complexidade de gerenciar grupos com participantes de diferentes setores.
Enquanto a revisão das práticas de segurança segue em andamento, o incidente já entrou para a lista de episódios curiosos envolvendo tecnologia e política — um lembrete involuntário de que até os assuntos mais secretos podem, por um descuido, virar pauta pública.