Registrada pela primeira vez uma abertura de placa tectônica na costa do Canadá

por Lucas Rabello
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Registrada pela primeira vez uma abertura de placa tectônica na costa do Canadá

Durante milhões de anos, o fundo do oceano Pacífico escondeu um processo gigantesco acontecendo longe dos olhos humanos. Agora, pela primeira vez, cientistas conseguiram registrar imagens diretas que mostram uma placa tectônica literalmente se rasgando sob o mar, em uma região próxima à ilha de Vancouver, no Canadá.

O fenômeno envolve a chamada placa Explorer, um fragmento relativamente pequeno da crosta oceânica com cerca de quatro milhões de anos. Usando tecnologia sísmica de alta resolução, pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça e Canadá conseguiram observar detalhes inéditos das etapas finais desse rompimento subterrâneo.

O estudo foi publicado na revista Science Advances e liderado pelo geofísico Brandon Shuck, da Universidade Estadual da Luisiana, com participação de universidades e centros de pesquisa da América do Norte e da Europa. As imagens revelaram estruturas profundas que lembram enormes cicatrizes cortando a crosta terrestre sob o oceano.

A descoberta ajuda os cientistas a entender melhor como placas tectônicas se fragmentam e como esse processo pode alterar regiões inteiras do planeta ao longo do tempo.

O que acontece sob o oceano

A Terra é formada por enormes placas tectônicas que se movem lentamente sobre o manto terrestre. Em algumas regiões, uma placa mergulha por baixo da outra em um processo chamado subducção. Esse movimento é responsável por terremotos, vulcões e pela formação de montanhas.

Na costa oeste da América do Norte, a placa Explorer faz parte desse sistema geológico. Ela está localizada próxima à placa de Juan de Fuca, que se move em direção ao continente norte-americano.

O detalhe mais importante é que as duas placas avançam em velocidades diferentes. Enquanto a Juan de Fuca se desloca mais de quatro centímetros por ano, a Explorer avança cerca de dois centímetros anuais. Essa diferença cria tensões enormes no fundo do oceano.

Com o passar do tempo, essas forças começaram a literalmente puxar a placa Explorer em direções diferentes. O resultado foi a formação da chamada Zona de Falha de Nootka, uma extensa rede de fraturas submarinas com aproximadamente 20 quilômetros de largura.

Os pesquisadores compararam o método utilizado a uma espécie de ultrassom do fundo do mar. Durante a expedição CASIE21, realizada em 2021 a bordo do navio Marcus G. Langseth, ondas sonoras foram disparadas contra o fundo oceânico. Quando retornavam, permitiam criar mapas extremamente detalhados das camadas subterrâneas.

Os rasgos gigantes encontrados

As imagens revelaram algo que os cientistas nunca haviam observado com esse nível de clareza: dois enormes desgarros no interior da placa Explorer.

Esses rasgos estão localizados abaixo da fossa oceânica, região onde a placa começa a afundar em direção ao interior do planeta. Segundo os pesquisadores, os dois cortes provavelmente faziam parte de uma única estrutura que acabou sendo dividida pelo movimento lateral das placas tectônicas.

Um dos pontos mais impressionantes do estudo foi o tamanho da deformação observada. Em uma das áreas, a placa apresenta um desnível abrupto de mais de três quilômetros em apenas dois quilômetros de distância horizontal.

Na prática, é como se uma parte inteira da crosta oceânica tivesse despencado profundamente em um espaço relativamente curto.

Já a placa de Juan de Fuca mostra sinais mais suaves de deformação, indicando que seu processo de ruptura ainda está em estágios iniciais.

O silêncio sísmico intrigante

Outro detalhe chamou a atenção dos pesquisadores: a quase ausência de terremotos sob a ilha de Vancouver na área associada à placa Explorer.

Em regiões dominadas pela placa de Juan de Fuca, tremores são frequentes. Porém, na Explorer, os registros sísmicos são muito menores. Esse “silêncio” geológico pode indicar que a placa já está em um estágio avançado de desacoplamento.

Os cientistas acreditam que, quando esse processo terminar, a famosa zona de subducção de Cascadia poderá encolher cerca de 75 quilômetros. Essa região é considerada uma das áreas tectônicas mais importantes e monitoradas da América do Norte.

Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que ainda será necessário desenvolver novos modelos geodinâmicos para compreender totalmente como essa transformação poderá afetar o comportamento das placas tectônicas na costa do Pacífico.

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