Por que tantas epidemias começam na Ásia e na África?

Epidemias como a mais recente, envolvendo a Covid-19, doença provocada pelo coronavírus Sars-CoV-2 não são uma novidade no nosso planeta. Se você já é um pouco mais velho, certamente se lembra de inúmeras vezes em que o mundo entrou em estado de alerta por conta de doenças contagiosas.

É intrigante, no entanto, observar que grande parte destas epidemias têm como ponto de partida o continente asiático e a África. Por que será que isso acontece?

O professor Suresh V. Kuchipudi, diretor associado do Animal Diagnostic Laboratory, da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos EUA, escreveu um artigo recentemente para o portal ‘The Conversation‘ explicando o que faz com que o continente asiático e africano sejam o ponto inicial destas doenças.

Quando falamos sobre a Ásia, de acordo com o professor, um dos maiores problemas é a grande concentração de pessoas que vivem por lá. Cerca de 60% da população mundial está na Ásia, e com grande parte dessas pessoas se mudando para centros urbanos, as cidades logicamente precisam crescer, expandindo seus limites territoriais para dentro de áreas que anteriormente pertenciam a florestas e à vida selvagem. Este movimento, por sua vez, estreita a distância entre a área urbana e o habitat natural de animais silvestres, que são hospedeiros de diversas doenças com potencial de afetar os seres humanos.

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Os morcegos, por exemplo, que são tidos como responsáveis pelo atual surto envolvendo o coronavírus, podem carregar centenas de patógenos que, dadas as circunstâncias necessárias, podem evoluir a ponto de afetar a saúde dos seres humanos. E como apesar de todo o movimento de urbanização na Ásia ainda existem muitas pessoas que vivem na área rural do continente, espera-se que este efeito continue aumentando durante décadas.

A África por sua vez (e em partes a Ásia também se encaixa aqui) possui muitas regiões ricas em biodiversidade, principalmente por conta do clima tropical. Toda essa variedade de vida animal, somada à forma como as populações locais interagem com esta vida selvagem, cria um risco a mais.

Muitas famílias africanas e asiáticas dependem da agricultura de subsistência, criando em suas próprias residências os animais que usam para o consumo: bovinas, galinhas, porcos, entre outros. Invariavelmente, esses animais são mantidos em condições que nem de longe atendem o que se espera para a manutenção da segurança e da saúde das pessoas que circundam estes ambientes.

Outro fator de risco é a presença de feiras de animais vivos, muito comuns nestes dois continentes. A própria Covid-19, por exemplo, teve início em uma destas feiras, em Wuhan, na China. Estes mercados normalmente aproximam em um espaço físico reduzido vários tipos de espécies selvagens, criando um ambiente extremamente propício para a propagação de vírus que, com o tempo, se tornam mais poderosos e passam a colocar em risco a saúde dos seres humanos.

O continente africano ainda enfrenta um outro problema: a caça. A ação de caçadores, principalmente na África Subsaariana, aproxima seres humanos de animais exóticos, em um cenário que muitas vezes pode significar o ponto de partida para a propagação de patógenos perigosos. Algo semelhante a isso acontece na China, onde uma espécie de “medicina tradicional” faz com que muitas pessoas cacem animais exóticos com fins de fabricar “medicamentos”. Entre estes animais, estão tigres, ursos, rinocerontes, entre outras espécies às quais o mundo ocidental não está tão acostumado assim. Tudo isso, evidentemente, sem que esta tal “medicina” tenha evidências científicas de sua eficácia.

Como percebemos no surto envolvendo o coronavírus, não demora nada para que o vírus viaje da Ásia para o mundo inteiro, colocando todos em alerta máximo. Por isso, alerta Kuchipudi em seu artigo, é crucial que sejam desenvolvidas estratégias de preservação nestes continentes para reduzir as interações com animais potencialmente perigosos. Caso contrário, surtos como este de 2019/2020 podem se tornar cada vez mais frequentes.

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