Por que os antigos incas drogavam as crianças escolhidas para o sacrifício humano?

Por mais de 500 anos, os restos mumificados de várias crianças congeladas no alto de um vulcão no sul do Peru mantiveram um registro secreto dos seus últimos dias. Desde a descoberta das múmias, em meados da década de 90, os pesquisadores trabalharam para desvendar o passado dessas crianças, revelando uma história chocante que envolve o sacrifício de seres humanos.

Agora, uma nova descoberta de uma equipe internacional de pesquisadores acrescenta novos detalhes à história, revelando vestígios de material em seus cabelos e unhas, sugerindo altas doses de uma substância psicodélica.

Levando em consideração todo o contexto histórico da antiga cultura inca, é possível que vítimas do ritual agora conhecido como ‘capacocha’ fossem intoxicadas com estimulantes, antidepressivos e às vezes até mesmo álcool enquanto conscientemente enfrentavam a morte. Embora seja difícil saber as emoções que as crianças experimentavam durante o ritual, os pesquisadores especulam que o uso de alucinógenos pode ter sido usado para aliviar os estados depressivos das crianças.

O material analisado no último estudo estava entre um pequeno número de múmias descobertas pelo explorador norte-americano Johan Reinhard, e pelo arqueólogo peruano José Antonio Chávez em suas expedições ao vulcão Ampato, nos Andes, em 1995. Somente em 2019 os corpos, juntamente com um terço encontrado no mesmo local, seriam submetidos a um rigoroso exame bioarqueológico que concluiu que dois provavelmente eram homens jovens e o terceiro uma mulher.

Todos os três, no entanto, tinham entre 6 e 7 anos de idade. Um mostrou sinais de malformação em uma abertura de um dos ossos do pescoço, o que provavelmente lhe causava fortes dores de cabeça, perda súbita de consciência ou até mesmo cegueira. Restos semelhantes foram encontrados em vários estados de preservação em todo o local, que já foi domínio do Império Inca. De acordo com os especialistas, estas descobertas são evidências de assassinatos ritualizados para apaziguar ou apelar a divindades por ajuda e favores.

A maioria parecia ser de famílias ricas, escolhidas como “representantes”, que recebiam a missão de atuar como emissários. Depois de serem levadas a um lugar no alto das montanhas, em uma jornada que poderia levar dias, ou até meses, as crianças eram sacrificadas de várias maneiras. Algumas violentas, outras menos traumáticas, mas todas chocantes.

Sinais de uso de drogas entre os restos mortais foram encontrados anteriormente em uma série de cadáveres, apontando especificamente para o consumo de folhas de coca e álcool. As folhas de coca são mastigadas há milhares de anos para reduzir a fome e estimular o sistema nervoso, e o seu consumo era comum entre as crianças que embarcavam na árdua caminhada pelas montanhas.

Em alguns casos, as crianças foram encontradas com as folhas ainda na boca, com sinais de tê-las consumido com álcool em grandes quantidades nos momentos que antecederam sua morte. No entanto, essa descoberta mais recente de metabólitos associados ao consumo de uma bebida psicodélica feita de ayahuasca (Banisteriopsis caapi) é fortemente sugestiva de um ritual destinado mais a acalmar do que estimular.

Ayahuasca durante o seu preparo para o consumo. | (Apollo/Wikimedia Commons/CC BY 2.0)

Os pesquisadores usaram espectrometria de massa para identificar a presença de alcalóides e metabólitos de coca, bem como harmalina e harmina nas unhas de duas múmias Ampato.

Harmalina e harmina são formadas a partir de compostos presentes na ayahuasca, que normalmente são misturados com outros materiais para criar uma bebida que induz vômito e diarreia, além de alucinações intensas e vívidas. Com os testes da triptamina N,N-DMT (que cria alucinações) dando negativo, é difícil dizer com confiança se alguma mistura que as crianças consumiram produziu tal efeito.

Também não havia evidências de consumo de álcool, ou pelo menos foi tarde demais para que esses vestígios aparecessem em seus cabelos e unhas. Isso deixa em aberto a possibilidade de a ayahuasca não ter a intenção de produzir alucinações, mas simplesmente reduzir a depressão e ansiedade.

Essas crianças incas, que marcharam para a própria morte, confiando que estariam fazendo um bem para suas comunidades, esperaram muito tempo para contar suas histórias. Agora, finalmente, nós estamos ouvindo.

A pesquisa foi originalmente publicada no Journal of Archaeological Science: Reports.


Com informações do LiveScience.

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