Os efeitos colaterais que os astronautas da Artemis podem sofrer ao retornar à Terra

por Lucas Rabello
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Os efeitos colaterais que os astronautas da Artemis podem sofrer ao retornar à Terra

A missão Artemis II está prestes a encerrar um capítulo histórico na exploração espacial com o retorno de sua tripulação à Terra. Após uma jornada de dez dias que levou seres humanos de volta às vizinhanças da Lua pela primeira vez em cinco décadas, os quatro astronautas enfrentam agora a fase mais crítica da viagem. O retorno envolve atravessar a atmosfera terrestre em uma cápsula que se transformará em uma verdadeira bola de fogo antes de atingir o Oceano Pacífico.

A espaçonave Orion entrará na atmosfera a uma velocidade impressionante de 40.233 quilômetros por hora. Nesse momento, o escudo térmico de última geração será o único obstáculo entre os astronautas e temperaturas que chegam a ser a metade do calor registrado na superfície do sol. O plano de voo prevê que o impacto controlado na água, conhecido como splashdown, ocorra por volta das 20h no horário da costa leste dos Estados Unidos, nas águas próximas a San Diego.

Os tripulantes Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen foram os primeiros humanos a testemunhar o lado oculto da Lua pessoalmente. Agora, o foco muda da observação lunar para a logística de sobrevivência e recuperação em mar aberto. Assim que a cápsula estabilizar na água, os sistemas internos serão desligados e a equipe aguardará o resgate coordenado por agências governamentais e militares.

A tripulação da Artemis II está retornando após se tornar a primeira população a testemunhar o lado oculto da Lua (NASA).

A tripulação da Artemis II está retornando após se tornar a primeira população a testemunhar o lado oculto da Lua (NASA).

O resgate no oceano

A operação para retirar os astronautas da Orion é uma tarefa conjunta entre a NASA e o Departamento de Defesa. O engenheiro Jason Endley, contratado pela agência espacial, explicou o funcionamento da etapa final. “É aí que entra o meu trabalho, o de recuperar o módulo da tripulação junto com todos os outros funcionários da NASA e da Amentum que temos no navio”, afirmou Endley.

Assim que a cápsula tocar a água, quatro helicópteros começarão a circular a aeronave. Dois deles são destinados exclusivamente ao resgate, enquanto os outros dois realizam o registro de imagens da operação. Um dos helicópteros será responsável por baixar um colar de estabilização. Esse equipamento é essencial para garantir que a Orion flutue na posição vertical correta enquanto a equipe se prepara para a extração.

Quando a segurança for confirmada, uma cesta de resgate será baixada para içar o primeiro astronauta. Todos os tripulantes serão levados para uma embarcação naval próxima, o USS John P. Murtha. A bordo do navio, eles passarão por exames médicos iniciais antes de serem transportados de volta para a base em Houston, no Texas.

Os astronautas reentrarão na atmosfera terrestre a 3.200 quilômetros da costa da Califórnia (NASA).

Os astronautas reentrarão na atmosfera terrestre a 3.200 quilômetros da costa da Califórnia (NASA).

Desafios físicos da microgravidade

Mesmo que a missão Artemis II tenha durado apenas dez dias, o corpo humano sofre alterações significativas em ambientes de gravidade zero. Para efeito de comparação, astronautas como Suni Williams e Butch Wilmore passaram mais de 600 dias no espaço entre 2024 e 2025, mas mesmo períodos curtos exigem precauções extremas. A perda de massa muscular é uma das preocupações mais urgentes dos cientistas espaciais.

Kevin Fong, fundador do Centro de Medicina de Altitude, Espaço e Ambientes Extremos da University College London, detalhou a rapidez desses efeitos. “Em alguns experimentos com ratos, eles viram a perda de até um terço dos músculos de grupos musculares específicos dentro de sete a dez dias de voo – isso é uma perda enorme, enorme”, disse Fong.

Para mitigar esse desgaste, a tripulação da Artemis II seguiu um cronograma de exercícios rigorosos utilizando um equipamento chamado volante de inércia (flywheel). Como a cápsula Orion possui apenas 9 metros cúbicos de espaço interno, o equivalente a um quarto pequeno, os aparelhos de ginástica precisam ser extremamente compactos. O volante funciona como uma máquina de remo multifuncional que gera resistência sem depender de pesos tradicionais.

Treinamento em espaço confinado

O astronauta Jeremy Hansen descreveu as capacidades do aparelho de exercícios antes do lançamento da missão. “Podemos mudar a dinâmica deste dispositivo para que possamos fazer levantamento de peso com ele. Assim, podemos fazer agachamentos. Podemos fazer levantamento terra. Podemos fazer roscas. Podemos fazer puxadas altas”, explicou Hansen.

A manutenção da força física é vital não apenas para a saúde a longo prazo, mas para que os astronautas consigam se mover assim que a gravidade da Terra voltar a agir sobre seus corpos. A transição do ambiente de queda livre para o peso total do planeta costuma causar desorientação e fadiga extrema, já que o sistema vestibular, localizado no ouvido interno e responsável pelo equilíbrio, precisa ser recalibrado.

O retorno ao peso da Terra

Astronautas que retornaram de missões recentes relataram dificuldades curiosas na adaptação. Jasmin Moghbeli, que voltou à Terra em 2024 após 200 dias no espaço, relatou sua experiência. “Com os olhos fechados, era quase impossível andar em linha reta”, disse Moghbeli. Isso ocorre porque os sinais de equilíbrio que os humanos usam para se orientar na Terra são efetivamente ignorados pelo cérebro durante a estadia no espaço.

O astronauta Andreas Mogensen, da Agência Espacial Europeia, compartilhou sensações semelhantes sobre os primeiros dias após o pouso. “Senti-me instável durante os dois primeiros dias. Meu pescoço estava muito cansado de segurar minha cabeça”, afirmou Mogensen. A sensação de peso excessivo é uma queixa comum entre os profissionais que retornam do vácuo espacial.

Jeanette Epps, que passou 235 dias em órbita, ressaltou a necessidade de persistência física logo após o retorno. “Você tem que se mover e se exercitar todos os dias, independentemente de quão exausto você se sinta”, comentou Epps. O processo de readaptação envolve reaprender a lidar com a gravidade constante, que faz com que cada membro do corpo pareça significativamente mais pesado do que antes da decolagem.

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