O corpo fala — e muito mais do que imaginamos. Mesmo que as palavras sejam nossa principal forma de comunicação hoje, os gestos continuam revelando pensamentos e sentimentos que muitas vezes tentamos esconder. Essa linguagem silenciosa é uma herança dos primeiros humanos, que dependiam de movimentos e expressões para se entenderem muito antes de desenvolver a fala. Hoje, mesmo sem perceber, repetimos gestos que transmitem mensagens específicas, e decifrá-los pode ser a chave para entender o que realmente se passa na cabeça dos outros.
Juan Manuel García, especialista em comunicação não verbal e negociador treinado pelo FBI, dedica seu trabalho a desvendar esses códigos ocultos. Em suas redes sociais, como no perfil @cienciascomportamento no TikTok, e em participações como no podcast En la Nave, ele explica como pequenos movimentos — como tocar o nariz ou levantar as sobrancelhas — podem revelar intenções, inseguranças ou até rejeição.
Um dos exemplos mais curiosos é o gesto de tocar o nariz. Imagine uma situação comum: um colega pergunta se você quer tomar uma cerveja depois do trabalho. Se, na hora de responder, você leva a mão ao rosto e coça ou toca levemente a narina, esse simples movimento pode indicar que está hesitante ou procurando uma desculpa para recusar o convite. “Se a pessoa não toca o nariz por meia hora, mas faz isso exatamente quando ouve a pergunta, é um sinal claro de que algo a incomoda naquela proposta”, explica García. O gesto, quase imperceptível, funciona como um “vazamento” inconsciente de emoções.
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O especialista em comunicação não verbal Juan Manuel García visita o podcast ‘En la Nave’ (@enlanavepodcast/TikTok).
Já as sobrancelhas são como antenas das emoções. De acordo com o especialista, elas têm um papel fundamental na comunicação não verbal. Quando alguém levanta as sobrancelhas rapidamente ao nos cumprimentar, é um sinal automático de que nossa presença é bem-vinda. “É uma reação natural quando vemos uma pessoa que nos agrada. O cérebro ativa esse movimento para demonstrar abertura e interesse”, diz García. Por outro lado, se as sobrancelhas ficam imóveis durante um cumprimento, mesmo que a voz seja amigável, é provável que haja desinteresse ou antipatia por trás da máscara social.
Essa ausência de movimento facial pode gerar desconforto. Se você cumprimenta alguém com um sorriso, mas não recebe a elevação das sobrancelhas em resposta, seu cérebro capta a contradição — mesmo que você não saiba explicar o motivo da estranheza. “Nosso sistema nervoso processa essas informações em milésimos de segundo. Por isso, às vezes sentimos que algo está ‘fora do lugar’ em uma interação, sem entender exatamente o quê”, comenta o especialista.
Mas o conhecimento sobre a linguagem corporal não serve apenas para ler os outros. Podemos usá-lo a nosso favor. García dá um exemplo prático: se você quer causar uma boa impressão em alguém importante, como um chefe, deve levantar levemente as sobrancelhas ao cumprimentá-lo. Esse gesto, mesmo que feito de forma consciente, envia ao cérebro da outra pessoa a mensagem de que você está genuinamente satisfeito com a interação. “O cérebro humano é programado para detectar se as sobrancelhas se movimentam ou não. É um sinal primitivo de aceitação”, reforça.
E não é preciso ser um expert para perceber quando algo está errado. Nosso cérebro é um detector natural de incongruências. Se alguém diz “sim” com a voz, mas cruza os braços, evita contato visual ou mantém a expressão facial rígida, interpretamos a mensagem como ambígua — mesmo sem saber nomear os gestos que causaram a desconfiança. “O corpo nunca mente completamente. Por mais que tentemos controlar nossos movimentos, sempre há microexpressões ou sinais que escapam”, finaliza García.
A comunicação não verbal é uma dança complexa, herdada de nossos ancestrais, que ainda hoje define conexões, conflitos e até oportunidades. Observar os detalhes — um toque no rosto, um movimento das sobrancelhas, a postura — pode transformar a maneira como nos relacionamos, seja para entender os outros ou para expressar melhor nossas próprias intenções.