O pior trabalho do mundo: os moderadores de conteúdo do Facebook

Você já pensou como seria ter que acordar todos os dias e ir a um trabalho em que você passa o dia inteiro sendo obrigado a filtrar posts de discursos de ódio, ataques violentos, pornografia gráfica, racismo, estupro, pedofilia, abuso animal e outras coisas do gênero? Pois é, parece algo de outro mundo, mas infelizmente não é.

Essa é a rotina de um moderador em tempo integral no Facebook, ou melhor, para a empresa que trabalha para eles, um fornecedor de serviços profissionais chamado Cognizant, que intitula a vaga como “executivo de processos”.

Nos últimos três meses, um dos colunistas do portal The Verge, Casey Newton, entrevistou diversos funcionários atuais e antigos da Cognizant em Phoenix, Arizona, nos EUA. Todos assinaram acordos de confidencialidade com a Cognizant nos quais se comprometeram a não compartilhar que fornecem serviços ao Facebook ou mesmo reconhecer que o Facebook é o cliente da Cognizant. O sigilo destina-se a proteger os funcionários de usuários que possam estar zangados com uma decisão de moderação de conteúdo e tentar resolvê-los com um fornecedor de Facebook conhecido, além da privacidade de dados em geral.

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Mas o sigilo também isola a Cognizant e o Facebook das críticas sobre suas condições de trabalho, segundo os moderadores. Eles são pressionados a não discutir o impacto emocional que seu trabalho exerce sobre eles, mesmo com os entes queridos, levando a um aumento dos sentimentos de isolamento e ansiedade.

Coletivamente, os funcionários descreveram um local de trabalho que vive à beira do caos. É um ambiente onde os trabalhadores passam os dias contando piadas de humor negro sobre cometer suicídio, depois fumam maconha durante os intervalos para entorpecer suas emoções. É um lugar onde os funcionários podem ser despedidos por fazer apenas alguns erros por semana – e onde aqueles que permanecem vivem com medo dos ex-colegas que retornam em busca de vingança.

Um dos moderadores sofreu um ataque cardíaco no trabalho, não resistiu e faleceu no hospital — parte porque a Cognizant não fornecia desfibriladores no local. No dia seguinte, a gerência negou informar aos colegas de trabalho do falecido sobre sua morte. Ao contrário, comentaram que não havia nada de errado com o empregado.

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Outros trabalhadores disseram que, mesmo sem condições de trabalharem devido ao cansaço, tinham de cumprir normalmente sua carga horária na empresa. Dar um break significava a demissão. Pior ainda, confirmaram que a equipe de RH desprezava e debochava de relatos de assédio sexual e ameaças de violência.

“Não acho que é possível fazer esse trabalho e não sair dele com transtorno de estresse agudo ou com estresse pós-traumático”, relatou um dos ex-funcionários da empresa.

Em 3 de maio de 2017, Mark Zuckerberg anunciou a expansão da equipe de “operações comunitárias” do Facebook. Os novos funcionários, que complementariam a equipe de 4.500 moderadores existentes, seriam responsáveis por revisar cada conteúdo relatado por violar os padrões da comunidade da empresa. No final de 2018, em resposta às críticas à prevalência de conteúdo violento e explorativo na rede social, o Facebook já tinha mais de 30.000 funcionários trabalhando em segurança e proteção – cerca de metade dos quais eram moderadores de conteúdo.

Em suma, plataformas do porte do Facebook veem seus moderadores de conteúdo como insignificantes e descartáveis, não dando importância significativa ao bem-estar das pessoas envolvidas em torno da empresa.

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