O código de uma placa de pedra de 2.800 anos que não pode ser decifrado

Quando se trata de arqueologia, pouca coisa é mais tentadora do que uma linguagem, uma imagem ou uma gravura misteriosa. Sem ter uma sólida compreensão dos “autores” ou “artistas” originais, ou nem mesmo qualquer ideia do que significam os símbolos separados, é certo que o verdadeiro significado de alguns destes glifos permanecerá perdido para sempre.

Um desses exemplos pode ser a “Stela de Montoro”, uma gravura em uma laje de pedra encontrada em um campo de fazendeiros perto de Córdoba, Espanha, em 2002. Os pesquisadores têm tentado decifrá-la desde então, e um novo estudo do jornal Antiquity sugere que um avanço foi feito.

É uma bagunça linguística. Juntamente com algumas gravuras de imagens potencialmente abstratas, elementos em espanhol, grego, ibérico, árabe e cananeus – uma região de língua semítica do Próximo-Oriente – podem ser identificados na Stela de Montoro. Isso a torna um pouco parecida a famosa Pedra de Rosetta, cuja mistura de hieróglifos egípcios, grego clássico e demótico abriu caminho a uma tradução inovadora.

A Stela de Montoro, como se vê acima. Fotografia: Marta Diaz-Guardamino. Sanjuan et al./Antiquity

O problema é que não está claro o que os glifos realmente significam isoladamente. Apesar de usar símbolos de linguagem identificáveis, eles estão – ao contrário da Pedra de Rosetta – dispostos sem qualquer padrão discernível, por isso não está claro se há uma palavra comum ou uma “frase” ou símbolo que pode conectar os pontos e fornecer algum significado.

Agora, com base em um programa de “caracterização química, imagem digital e análises geo-mitológicas e epigráficas”, juntamente com outras “investigações arqueológicas”, uma equipe da Universidade de Sevilha apresentou duas hipóteses.

A equipe datou a laje e descobriu que foi criada até a Idade do Ferro – especificamente entre os séculos III e IX aC. Com base no que conhecemos da migração humana na época, uma data anterior implica que um grupo de pessoas bastante analfabetas foram os criadores da Stela e que os arranjos de glifos são representações de coisas que eles literalmente viram em sua jornada.

Isso provavelmente foi iniciado pelo encontro dos povos de Canaã – muitas vezes referidos como fenícios – e aqueles que já viviam no sul da Península Ibérica. Os fenícios foram, sem dúvida, os inventores do primeiro “alfabeto”, e os habitantes analfabetos usavam o que viam como símbolos de linguagem incomuns para formar imagens.

Alternativamente, com base na inclusão de vários elementos linguísticos posteriores, a placa poderia ter chego ao final da Idade do Ferro, no tempo em que o Império Romano se expandiu dramaticamente através da Europa e do Norte da África. Eles estavam lutando por território com os cartagineses, que eram essencialmente descendentes fenícios.

Ambos estavam presentes no sul da Espanha e ambos eram conglomerados de várias tribos e povos, todos com suas próprias línguas e culturas. Este caldeirão explicaria por que a placa possui tantos símbolos linguísticos diferentes.

É difícil dizer qual hipótese é mais correta, mas ambas são perfeitamente plausíveis. O que realmente precisamos, no entanto, é uma coleção de artefatos similares, então qualquer código inerente ou diálogo gravado na placa poderia ser decifrado.

A Stela de Montoro esteve em exibição no Museu Arqueológico de Montoro por oito anos, depois que dois guardas a tiraram de uma pilha de lixo de um agricultor desinteressado. Somente em 2012 foi feito um sério esforço para desvendar os mistérios por trás disso.

Sanjuan et al. 2017 / Antiguidade

Embora este estudo represente o melhor avanço até a data, há uma boa chance de que nunca descubramos verdadeiramente o significado dos desenhos na Stela. Poderia ser qualquer coisa: uma história transmitida de geração em geração, lembrando uma aventura épica – ou talvez, apenas uma coleção de desenhos antigos.

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