O “chamado do vazio”: Entenda o fenômeno que nos faz pensar em pular de lugares altos

Em algum momento, ao longo da sua vida, você já se deparou olhando para uma varanda, uma sacada ou até mesmo para a borda de um precipício? E mais estranho do que isso, enquanto você olhava para o chão, lá embaixo, você já sentiu uma mórbida ideia de pular? Não estamos falando necessariamente de uma vontade suicida, e sim de um pensamento: “Se eu quisesse, eu poderia simplesmente pular?”. Se isso já aconteceu com você, saiba que você não está sozinho. Este sentimento, apesar de curioso e até mesmo um pouco assustador, tende a ser breve, totalmente fora do normal e não significa que você perdeu totalmente o gosto pela sua vida. A verdade é que trata-se de um “fenômeno” um tanto quanto comum, e que até possui um nome bonito em francês: l’appel du vide. Em português, isso poderia ser traduzido livremente para “o chamado do vazio”.

Dois pequenos estudos realizados sobre este tema estimam que mais da metade das pessoas já experimentaram este fenômeno ao longo de suas vidas. Mas o que mais a ciência pode nos dizer sobre este sentimento estranho que nos invade quando estamos em lugares altos?

Ali Arapoğlu/Pexels

O primeiro estudo significativo sobre este fenômeno foi publicado em 2012 no ‘Journal of Affective Disorders’, e envolveu entrevistas a 431 estudantes. Nele, os pesquisadores concluíram que pouco mais da metade das pessoas que nunca haviam tido pensamentos suicidas experimentaram este fenômeno de alguma forma. Ao mesmo tempo, mais de 75% das pessoas entrevistadas com ideais suicidas relataram este desejo ao encarar uma janela em um prédio alto ou até mesmo uma ponte. Este estudo mostrou, pela primeira vez, que não havia uma ligação exclusiva entre a ideação suicida e o l’appel du vide.

Os pesquisadores, a partir daí, levantaram a hipótese de que este “chamado do vazio” poderia ser algum tipo de mecanismo de segurança do nosso corpo sendo totalmente mal interpretado. De alguma forma, isso poderia ser o nosso cérebro nos dizendo que deveríamos nos afastar do perigo. E os resultados parecem apoiar essa teoria. Indivíduos com níveis mais elevados de ansiedade eram mais propensos a vivenciar este fenômeno em relação aos entrevistados com menores níveis de ansiedade. Isso faz todo o sentido quando pensamos que, se por um lado a ansiedade pode causar vários problemas na vida de uma pessoa, por outro ela também significa que estamos lidando com um indivíduo que leva muito a sério as ameaças ao seu redor.

Um estudo mais recente, publicado em 2020 na revista BMC Psychiatry, também investigou se este fenômeno era mais prevalente em pessoas suicidas do que naquelas sem este tipo de ideação. “Em nossa clínica ambulatorial, as pessoas repetidamente se perguntavam se eram suicidas”, disse o líder da pesquisa, Tobias Teismann, membro do Departamento de Psicologia Clínica e Psicoterapia da Ruhr-Universitat, em Bochum, na Alemanha. “Por um lado, eles eram muito apegados à vida, mas, por outro lado, muitas vezes sentiam o impulso de pular em algum lugar ou jogar o carro para o sentido contrário do tráfego. Eu mesmo conheço o fenômeno, pois o vivenciei no início dos meus 20 anos. Eu sabia que seria fascinante e clinicamente relevante estudá-lo”, disse.

Teismann recrutou 276 adultos, que preencheram um questionário online, bem como 94 participantes que estava experimentando um “medo clinicamente relevante de voar”, o que significa que procuraram assistência médica ou psicológica em uma tentativa de superar essa fobia. Teismann analisou os dois grupos para tentar investigar a “prevalência do fenômeno em ambas as amostras”, como ele disse. O estudo descobriu que aqueles que tinham pensamentos suicidas provavelmente também tinham o chamado l’appel du vide em determinados momentos de suas vidas. Porém, Teismann não acredita que isso revele uma ligação entre experimentar o “chamado” e querer realmente causar qualquer tipo de dano a si mesmo. “O fenômeno é relatado com mais frequência por pessoas que reagem aos sinais corporais de maneira bastante ansiosa”, explicou. Em outras palavras, as pessoas que sentem tremores, leves tonturas e/ou contrações musculares têm maior probabilidade de se lembrar de ter experimentado o fenômeno.

“Parece ser algo conhecido por muitas pessoas, independentemente da tendência suicida e da ansiedade”, disse Teismann. “Como tal, esse fenômeno é normal e não se trata de um sinal de psicopatologia”, explicou o pesquisador.


Com informações do portal LiveScience.

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