Nova pandemia? Confira tudo o que já sabemos sobre o surto da misteriosa varíola dos macacos

O mundo ainda não conseguiu se livrar totalmente da pandemia de Covid-19, mas na visão de alguns já está prestes a embarcar em mais uma grande epidemia.

Na última semana, 16 países registraram casos de varíola dos macacos, fazendo com o que o mundo inteiro se colocasse em alerta com a possibilidade de um surto global. Portugal, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Canadá, Alemanha, Itália, EUA, Holanda, Austrália, Dinamarca, França, Suíça, Suécia, Israel e Áustria confirmaram casos da doença até o momento, totalizando 112 infectados até 23 de maio de 2022.

Além dos casos confirmados, há 92 pessoas com suspeita da doença, incluindo moradores da Argentina, bem perto do Brasil. Como tudo está acontecendo muito rápido, as autoridades ainda não sabem bem como agir, e a OMS convocou uma reunião de emergência que deve acontecer nos próximos dias.

Mas o que é essa doença?

Nova pandemia? Confira tudo o que já sabemos sobre o surto de varíola dos macacos
PHIL/CDC/Reprodução

Também conhecida como “varíola símia’, esta doença é causada por um vírus do gênero ortopoxvírus, chamado MPXV, que pode ser transmitido a partir do manuseio de alimentos crus, pela mordida de animais selvagens, por fluidos corporais, contatos íntimos e até mesmo por objetos contaminados. Ao contrário do que o nome pode indicar, este tipo de varíola é mais comum em certos roedores do que em primatas.

O nome, no entanto, vem do fato de que a doença foi descoberta em macacos na década de 1950, tendo infectado humanos pela primeira vez em 1970, na África. Até o momento, a OMS vem trabalhando com a tese de que a maior parte das transmissões está ocorrendo por meio de relações sexuais, mas só isso não seria capaz de explicar o aparecimento simultâneo de casos em 18 países ao redor do mundo.

Isso faz com que alguns especialistas apostem na hipótese de que a varíola dos macacos está sendo transmitida também pelo ar, da mesma forma que acontecia com a varíola comum, que já é considerada erradicada desde 1980.

Os primeiros sintomas da doença tendem a aparecer após o período de incubação, que dura de 5 a 21 dias, durante os quais a pessoa afetada nem sabe que está com a doença. Após a incubação, pode surgir febre, cansaço, dores de cabeça e no corpo, além de inchaço considerável nos nódulos linfáticos.

Mas tudo piora quando começam a aparecer as famosas feridas pelo corpo, que ocorrem em grande quantidade principalmente nas mãos, no rosto, na boca e na região genital. As cicatrizes podem deixar a vítima bastante desfigurada, e quando o vírus chega aos olhos, pode até mesmo causar cegueira. Até o momento, já conhecemos duas variantes do MPXV, uma proveniente do Congo, que costuma matar 10% dos infectados, e uma da África Ocidental, que é a responsável pelo surto atual, e que costuma ter letalidade de 1%.

Em relação à vacina, os cientistas acreditam que a vacina da varíola comum é eficaz para conter esta doença. No entanto, a vacinação pode causar efeitos colaterais graves, e não faz parte dos programas de imunização desde os anos 80. Em 2019, laboratórios dos Estados Unidos desenvolveram também a vacina conhecida como ‘Jynneos’, que atua especificamente na prevenção da varíola dos macacos. Outros dois estudos, de 2018 e 2020, indicam que a doença pode ser tratada com os medicamentos tecovirimat e brincidofovir, mas de forma oficial a doença ainda é considerada “sem cura”, devendo a vítima aguardar o fim do seu ciclo.

Podemos esperar uma nova pandemia, parecida com a da Covid-19?

Uma das diferenças mais importantes entre a Covid-19 e a varíola dos macacos é que no caso desta última, não se trata de uma doença desconhecida. A varíola símia é considerada endêmica em todo o continente africano, sem nunca ter causado um surto global. Não é novidade, entretanto, que ela faça vítimas em outros continentes.

Em 2003, 35 pessoas de várias localidades dos Estados Unidos desenvolveram a doença depois de ter contato com cães-da-pradaria, um tipo de roedor que vive em determinadas regiões da América do Norte. A causa da transmissão ainda é um pouco misteriosa, mas os pesquisadores acreditam que os animais selvagens tenham sido contaminados por vírus provenientes de animais importados de Gana. E o que mais nos causa alívio sobre este caso é que não foram confirmadas transmissões entre seres humanos.

O problema do “surto” atual é que, desta vez, seria muito difícil a doença atingir tantos países ao mesmo tempo, de forma tão rápida, sem transmissão direta entre seres humanos. Na visão dos especialistas, isso causa estranheza, já que mesmo na pandemia da Covid-19 houve uma progressão bastante clara, com alguns continentes levando um bom tempo até registrarem os primeiros casos. Em outras palavras, ao contrário do vírus causador da varíola símia, o Sars-CoV-2 não apareceu ao mesmo tempo no mundo inteiro.

Quais são os detalhes que já temos sobre o vírus?

Equipes de pesquisadores em Portugal e na Bélgica foram os responsáveis pelos dois primeiros sequenciamentos do vírus causador do surto de varíola dos macacos. Em Portugal, os resultados não foram muito claros, porém na Bélgica os cientistas chegaram à conclusão que o vírus atual é idêntico a uma cepa sequenciada no Reino Unido há quatro anos, em 2018.

Este fato parece estar tirando o sono de alguns cientistas, já que ele foge da normalidade. Isso porque a maioria dos vírus, ao circularem e se espalharem pela natureza, costumam passar por várias mutações.

Desta forma, quando um vírus já conhecido e relativamente antigo começa a reaparecer entre seres humanos, isso pode ser um indicativo de que o patógeno estava “escondido” em um laboratório e conseguiu escapar de alguma forma. Por outro lado, alguns especialistas ressaltam o fato de que, diferente do Sars-CoV-2, causador da Covid-19, o MPXV é um vírus de DNA, que naturalmente sofre menos mutações do que aqueles feitos de RNA.

Mas por que o vírus não se espalhou em 2018, e somente quatro anos mais tarde?

Os cientistas ainda trabalham com várias hipóteses para tentar responder essa pergunta, mas muitos acreditam que isso pode ter relação com a pandemia de Covid-19. Segundo alguns especialistas, os efeitos imunossupressores da Covid podem ter tornado o contágio da varíola dos macacos mais fácil. Além disso, algumas pessoas talvez já tivessem o MPXV em seu organismo, de forma isolada.

Porém, com a redução imunológica causada pela Covid-19, o vírus tenha encontrado espaço para se multiplicar no organismo e começar a causar sintomas. Os defensores desta hipótese acreditam que isso pode explicar o surgimento de vários casos da doença no mundo inteiro, quase todos ao mesmo tempo.

Em última análise, isso nos deixa em alerta em relação aos efeitos imunológicos da Covid, mesmo após a cura da doença. Nós ainda não sabemos totalmente o que o Sars-CoV-2 pode fazer com o corpo humano a longo prazo, mas a verdade é que praticamente toda a população mundial acabará tendo exposição ao coronavírus em algum momento. E considerando que esta exposição pode propiciar o surgimento de novas doenças, não é de se descartar que a humanidade ainda precise enfrentar novas pandemias como um resultado direta da própria pandemia de Covid-19.


Com informações da SuperInteressante.

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