Noela Rukundo: A história chocante da mulher que driblou uma execução e voltou para casa no dia do seu funeral

Em janeiro de 2015, Noela Rukundo voou de Melbourne, na Austrália, para o Burundi, no continente africano, seu país natal. A ideia era viajar para o funeral de sua madrasta, mas o que ela não sabia era que, quando ela voltasse para casa, um mês mais tarde, ela estaria presente em seu próprio funeral. Sua história até hoje é um pesadelo que continua assombrando seus pensamentos.

Seu marido, Balenga Kalala, suspeitava da infidelidade da esposa, ainda que não tivesse nenhum motivo real para isso. Então, movido pela sua desconfiança irreal, ele contratou assassinos para matar a própria esposa enquanto ela estava no seu país natal.

Os homens a sequestraram, mas se recusaram a matá-la, e inclusive ajudaram a mulher a provar a culpa de Kalala. Quando Noela Rukundo voltou para a Austrália, ela deu um susto gigantesco no seu marido, aparecendo em sua casa no dia em que estava marcado o seu funeral.

Noela Rukundo
Noela Rukundo. | Kazungu Bembereza/Facebook

VIAGEM DESTINADA A TERMINAR MAL

Noela Rukundo imigrou para a Austrália saindo do Burundi com seus cinco filhos em 2004. Lá, ela conheceu Balenga Kalala, um refugiado do Congo que ajudava a mulher a traduzir documentos do inglês para o idioma suaíli, na agência onde ambos trabalhavam. Alguns anos depois, Rukundo e Kalala casaram-se em Melbourne e tiveram três filhos.

Mas em 2015, Kalala se convenceu de que a esposa estava lhe traindo. Então, quando a mulher voou de volta ao Burundi para participar do funeral de sua madrasta, em janeiro de 2015, Kalala decidiu se vingar daquilo que ele pensava que a esposa estava fazendo. Em 17 de fevereiro daquele ano, na noite após o funeral da sua madrasta, Rukundo estava cansada e emocionalmente desgastada por conta do funeral, e o calor era sufocante mesmo dentro de casa.

Enquanto ela tentava descansar, Kalala ligou para ver como ela estava. Ele a consolou, e disse que ela devia sair para tomar um pouco de ar fresco. Sentindo-se animada depois de conversar com o marido, ela decidiu seguir o conselho, e saiu de casa.

“Não pensei em nada. Eu achava que ele se importava comigo, que ele estava preocupado comigo”, disse Noela Rukundo à BBC. Mas assim que ela saiu do hotel onde estava, um homem armado se aproximou dela. “Abri o portão e vi um homem vindo em minha direção. Então ele apontou a arma para mim”, contou Rukundo.

“Ele apenas me disse: Não grite, se você começar a gritar, eu vou atirar em você. Eles vão me pegar, mas você? Você já estará morta”. Rukundo, então, obedeceu. Ela seguiu o homem armado até um carro, onde dois estranhos estavam esperando. “Eu estava sentada entre dois homens. Um tinha uma arma pequena, outro tinha uma arma mais longa. E os homens disseram ao motorista: Nós dê um lenço”. Eles cobriram o rosto de Rukundo com o tecido e foram embora. “Depois disso, não falei nada… Fui levada para algum lugar, dirigimos por 30 ou 40 minutos, então ouço o carro parar”.

Balenga Kalala
Balenga Kalala, em 2015. | Balenga Kalala/Facebook

Os pistoleiros empurraram Noela Rukundo para dentro de um prédio e a amarraram a uma cadeira. Ela ouviu um de seus sequestradores comentar com outro: “Vá chamar o chefe”. Eles começaram a perguntar o que ela tinha feito que faria um homem querer matá-la. Ela respondeu: “Qual homem? Porque eu não tenho nenhum problema com ninguém”.

Os homens ligaram para Rukundo, enquanto a mulher ouvia. “Mate-a”, ordenou Kalala. E ao descreverem onde iriam despejar o corpo de sua esposa, Noela Rukundo desmaiou.

A MUDANÇA NO RUMO DA HISTÓRIA

Noela Rukundo recuperou a consciência quando os assassinos terminaram a ligação com o marido. “Eu disse a mim mesmo que já estava morta. Nada que eu pudesse fazer poderia me salvar”, lembra a vítima do sequestro.

No entanto, algo totalmente inesperado aconteceu. Os sequestradores disseram a ela: “Nós não vamos matar você. Não matamos mulheres e crianças”. Além disso, conforme relatado pelo Washington Post, a gangue conhecia o irmão de Rukundo.

Mesmo assim, o líder da gangue queria extorquir ainda mais dinheiro de Kalala, então eles informaram ao marido de Rukundo que a taxa de assassinato havia aumentado. Eles passaram a exigir mais 3400 para concluir o trabalho, elevando o pagamento total para quase 10 mil dólares.

Eles mantiveram Rukundo em cativeiro por dois dias antes de soltá-la na beira da estrada. Eles forneceram a ela provas incriminatórias, incluindo um cartão de memória com conversas telefônicas gravadas e recibos de transferência da Western Union, que provavam que Kalala planejou o ataque.

“Damos 80 horas para você deixar este país”, disseram os homens a Rukundo. “Seu marido está falando sério. Talvez possamos poupar sua vida, mas outras pessoas não vão fazer a mesma coisa”.

O tempo todo, Kalala acreditava que sua esposa estava morta, conforme ele pediu. Ele disse à família e amigos que Rukundo havia morrido em um trágico acidente enquanto ela estava viajando. A comunidade africana em Melbourne fornece apoio espiritual e financeiro a Kalala. Mas Noela Rukundo, na verdade, estava viva.

A VOLTA PARA CASA

Noela Rukundo
ABC News

Embora fosse tarde da noite na Austrália, Rukundo imediatamente ligou para seu pastor em Melbourne e pediu ajuda. Ela também entrou em contato com as embaixadas do Quênia e da Bélgica para obter assistência para voltar à Austrália.

Ela voltou a Melbourne em 22 de fevereiro de 2015 – e foi direto para casa, enfrentar seu marido. Às 19h30, ela viu Kalala levando os convidados até seus carros após o funeral que ele havia organizado para a esposa supostamente morta. Depois que os convidados saíram, Rukundo surgiu. Ela olhou para o marido, que estava compreensivelmente perplexo e aterrorizado. “São meus olhos? É um fantasma?”, ele começou a gritar.

“Então ele começou a caminhar na minha direção, devagar, como se estivesse andando sobre cacos de vidro… Ele continuou falando sozinho e, quando chegou até mim, me tocou no ombro. Ele deu um pulo. Fez isso de novo, e começou a falar: ‘Noela, é você? Sinto muito por tudo!”.

Rukundo simplesmente respondeu: “Surpresa! Eu ainda estou viva”. Ela então chamou a polícia, e seu marido começou a negar que tinha envolvimento com o plano de assassinato, mas ela tinha todas as provas. E além disso, a polícia mais tarde grampeou uma conversa telefônica onde Kalala confessava o crime.

No tribunal, Kalala se declarou culpado da acusação de incitação ao assassinato. “Às vezes, o diabo pode entrar em alguém para fazer algo. E depois que as pessoas cometem essas coisas, começam a pensar: ‘por que eu fiz isso?'”, justificou Kalala, que foi condenado a nove anos de prisão, com possibilidade de liberdade condicional após seis anos. Curiosamente, Noela Rukundo diz não guardar rancor contra o ex-marido. “Ele é um ser humano. Do meu coração, eu o perdoo”, disse ela á Australia Broadcasting Corporation.

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