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Miep Gies, a mulher que escondeu Anne Frank e presenteou o mundo com seu diário

Em 1933, Hermine Santruschitz começou a trabalhar para a Opekta, uma empresa destinada ao comércio de especiarias e fabricação de geleias. Lá, ela acabou conhecendo Jan Gies, que se tornaria seu marido, e seu chefe Otto Frank – um empresário que deixou a Alemanha para viver na Holanda, fugindo da perseguição nazista. Com o passar do tempo, Hermine se tornou cada vez mais próxima de Otto, e do restante da família Frank – incluindo sua filha, Anne.

Sim, estamos falando de Anne Frank, cuja história acabou se transformando em um dos livros mais famosos do mundo. No entanto, sua história emocionante talvez nunca fosse conhecida pelo público se não fosse por Hermine Santruschitz, chamada também de Miep Gies. É graças a ela que “O Diário de Anne Frank” existe hoje em dia, porque depois que a família Frank foi encontrada, Gies recuperou o livro do abrigo da família acima da fábrica da Opekta.

Miep e Jan Gies. | Wikimedia Commons

Embora ela seja conhecida por ter ajudado várias pessoas durante a ocupação nazista, Gies também estava fugindo. Nascida em 15 de fevereiro de 1909, na Áustria, Hermine foi levada para a Holanda para morar com uma família adotiva quando tinha apenas 11 anos de idade. Naquela época, a Áustria vivia uma escassez de alimentos, principalmente como reflexo da Primeira Guerra Mundial.

Segundo relatos da época, ela era uma garota enérgica, que adorava dançar e tinha uma vida social bastante ativa, participando de vários clubes e atividades. Mas ela começou a enfrentar muitas dificuldades depois que se negou a fazer parte de um grupo nazista local.

O partido nazista ganhava cada vez mais força em Gaaspstraat, onde Gies morava com sua família adotiva, e muitos dos seus amigos adotaram suas crenças. Mas quando ela foi questionada, ela se recusou a fazer parte do grupo. Essa escolha, no futuro, seria devastadora para ela.

Após sua recusa, a garota teve seu passaporte invalidado, e ela foi condenada a retornar para sua cidade natal, Viena, dentro de noventa dias. Na época, a Áustria havia sido anexada à Alemanha, o que fazia com que Gies fosse considerada cidadã alemã.´

Temendo ser deportada para uma área controlada pelos nazistas, Gies foi forçada a casar com seu noivo – um nativo de Amsterdã – muito mais cedo do que planejava. Com isso, ela pretendia obter a cidadania holandesa.

Trabalhando na Opekta, Miep e seu marido Jan eram frequentemente convidados para a casa de Otto Frank, seu chefe. E após a invasão alemã na Holanda, Miep, juntamente com outros três funcionários da Opekta, escondeu a família Frank e outros alemães nos quartos vagos acima dos escritórios da empresa.

Por dois anos, Gies ficou calada sobre as famílias abrigadas, tendo mantido segredo inclusive para sua família adotiva, que não fazia ideia do que ela estava fazendo. Junto com os Frank, Gies e seu marido também esconderam um estudante universitário antinazista no anexo acima de seu apartamento, a poucos quarteirões dos escritórios da Opekta.

Vista aérea dos escritórios da Opekta. | Getty Images

Para manter as famílias seguras, Gies visitava vários mercados todos os dias, nunca comprando mais de uma sacola de mantimentos de cada vez. Ela também usava cupons de alimentação roubados, adquiridos pelo seu marido. Em pouco tempo, a garota já tinha um bom relacionamento com vários fornecedores do chamado “mercado alternativo”, que facilitava a aquisição dos mantimentos.

Mas em 4 de agosto de 1944, ocorreu o desastre. Os escritórios da Opekta foram invadidos e as famílias escondidas foram levadas. A própria Gies visitou várias delegacias depois que as famílias foram levadas, e chegou a oferecer dinheiro em troca da sua libertação. Mas ela não conseguiu. Ainda assim, Gies daria uma última contribuição à história da família Frank, garantindo que ela sobrevivesse por meio do diário de Anne.

Antes que as autoridades pudesse revistar o anexo acima dos escritórios onde as famílias estavam hospedadas, Miep Gies invadiu o local e pegou para si as páginas do diário de Anne. Ela os guardou durante toda a guerra em uma gaveta da escrivaninha, nunca os lendo, pois tinha a intenção de devolver o diário à sua legítima proprietária no final da guerra.

Mais tarde, Gies chegou a admitir que, caso tivesse lido o diário antes, provavelmente o teria destruído. Isso porque as páginas tinham informações que poderiam ter matado ela, seu marido, seus cúmplices e seus fornecedores do mercado alternativo.

Após o fim da guerra, ao saber que Anne havia morrido no campo de concentração de Bergen-Belsen, Gies devolveu as páginas ao único sobrevivente do anexo secreto acima dos escritórios: Otto Frank.

Miep Gies segurando uma cópia do diário que ela ajudou a preservar. | Getty Images

Cinquenta anos após a captura da família Frank, Miep Gies recebeu prêmios por seus serviços prestados. Ela foi premiada com a Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha, bem como a Medalha Wallenberg pela Universidade de Michigan.

Em 1995, ela foi condecorada na Ordem de Orange-Nassau pela Rainha Beatrix da Holanda. No final de sua vida, Gies refletiu sobre o tempo que passou na Terra, e como ela afetou as pessoas ao seu redor: “Tenho cem anos agora. Essa é uma idade admirável, e até cheguei a ela com bastante saúde. Então é justo dizer que você teve sorte, e ter sorte parece ser o fio vermelho que atravessa a minha vida”.

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