Manicômio de Barbacena: o hospício infernal que foi palco do holocausto brasileiro

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Em 1903, Barbacena, em Minas Gerais, passou a ser conhecida como a “Cidade dos Loucos”, graças à inauguração de sete instituições psiquiátricas no município. 

Na época, estâncias de clima ameno, como Barbacena, eram vistas como adequadas para o tratamento de doenças mentais. Uma dessas iniciativas era o Hospital Colônia. Mas, com o tempo, esse foi o palco para cenas dignas de filmes de terror. 

Com 16 pavilhões separados, esse hospital acabou sendo transformado em um manicômio, e depois em um matadouro. 

Isso por que a instituição não tinha o mínimo interesse em recuperar pessoas realmente enfermas. 

Em vez de atender os doentes, o local recebia todo e qualquer tipo de indivíduo que por algum motivo “não se encaixava na sociedade”. 

Nesse grupo estavam mães solteiras, aqueles sem condições de se manter sozinhos, moradores de rua, homossexuais, portadores de necessidades especiais, vítimas de crimes bárbaros, inimigos políticos, pessoas sem documento e mendigos. 

Além disso, há relatos de que alguns eram levados ao hospital apenas por conta da cor de sua pele. 

Somados a essas pessoas, estavam também homens “afeminados” e mulheres consideradas de “temperamento forte”, que se recusavam a casar ou seguir a vida planejada pelos pais.

Isso fez com que em certo ponto, 70% dos internados no Hospital Colônia não tivessem nenhum tipo de diagnóstico envolvendo transtorno psicológico. 

Muitos também eram mandados apenas por desavenças com gente importante.

De tempos em tempos, trens lotados desembarcavam nas dependências do Colônia, trazendo pessoas que, uma vez lá dentro, praticamente deixavam de existir para o mundo exterior. 

Isso rende até hoje comparações inevitáveis com os campos de concentração nazistas, já que eles também eram abastecidos com trens. 

Lá, mulheres e homens eram separados, tinham seus pertences confiscados e muitos inclusive tinham seus nomes trocados pelos funcionários, que inventavam apelidos para os “pacientes”. 

Apesar de ter sido planejado para abrigar no máximo 200 pessoas, o hospital chegou a ter mais de 5000 ao mesmo tempo. Para comportar tanta gente e abrir espaço, o Colônia trocou camas por capim.  

Por mais de 30 anos, os internos foram submetidos a tratamentos desumanos, como tortura, privação alimentar e de sono, eletrochoques, espancamentos, estupros e procedimentos totalmente ultrapassados como a lobotomia. 

Ali era um manicômio com cemitério, evidência de que curar não era a missão. Durante décadas não houve médicos ou enfermeiras, mas meros guardas. 

Os funcionários comandavam uma rígida rotina de terapias de choque, exposição ao frio e uso de duchas escocesas no meio da noite, sem nenhum motivo.  Tudo isso com o objetivo de tentar “recuperar” as pessoas que se consideravam estar em um quadro de loucura. 

Muitos, quando não morriam pela tortura, acabavam perdendo a vida para a hipotermia ou fome. 

Os internos bebiam e se banhavam no esgoto a céu aberto. Os que não tinham quaisquer problemas mentais, com o tempo, enlouqueciam.  E nem mesmo depois de mortos tiveram piedade deles. Milhares de corpos foram vendidos para várias faculdades ao redor do Brasil, onde eram usados em aulas de anatomia.

Fezes e urina eram encontradas espalhadas aos montes pelas dependências do hospital, uma vez que faltavam aos internos as mínimas condições de saneamento. Os prisioneiros conviviam com ratos e baratas, e até água faltava. 

Além disso, para evitar abusos sexuais, muitas mulheres cobriam o corpo com fezes em uma tentativa de afastar os funcionários.

Foi somente em 1961, quando o fotógrafo Luiz Alfredo conseguiu registrar os absurdos do Hospital Colônia, que a história começou a chegar até os olhos de todos. Mesmo assim, foram necessários mais 19 anos para que o hospital enfim fosse fechado.

Após o encerramento, em 1980, o local onde costumava ficar o Hospital Colônia recebeu o “Museu da Loucura”, aberto em 1996. 

Infelizmente, aqueles que conseguiram sobreviver às barbáries do hospital nunca tiveram seus danos realmente reparados, bem como aquelas famílias que para sempre tiveram suas vidas marcadas pelos absurdos cometidos pelo próprio governo da época.

Até o seu fechamento nos anos 80, mais de 60 mil pessoas perderam a vida nas dependências do Colônia. Hoje, menos de 200 sobreviventes da tragédia contam essas atrocidades.

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