Por dentro do mistério de Lieserl, a filha misteriosa de Albert Einstein

Albert Einstein foi um dos maiores físicos da história, mas ainda que sua carreira profissional seja amplamente conhecida por todos, há vários detalhes da sua vida pessoal que permanecem sendo um mistério. Muitos não sabem, por exemplo, que ele tinha uma filha – Lieserl Eistein.

E talvez o que explique o segredo em volta da filha de Einstein seja o fato dela ter nascido fora do casamento. Em 1901, Mileva Marić, uma estudante de física e matemática que convivia com Einstein no Politécnico de Zurique, deixou os estudos e voltou para casa, na Sérvia. No ano seguinte, ela deu à luz uma menina, casando-se com Einstein apenas um ano mais tarde. A garota, Liserl Einstein, desapareceu, e sua existência foi escondida por muitos anos, até a morte de Marić e Einstein, em 1948 e 1955. Sua história só é conhecida hoje em dia por conta de uma série de cartas pessoais, trocadas entre Einstein e sua esposa, que vieram à tona em 1986.

Einstein e Mileva com seu filho Hans, nascido em 1904, supostamente dois anos após o nascimento de Lieserl
Einstein e Mileva com seu filho Hans, nascido em 1904, supostamente dois anos após o nascimento de Lieserl. | Domínio Público.

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FILHA PERDIDA DE ALBERT EINSTEIN

Albert Einstein e sua esposa, Mileva Maric, em meados de 1905.
Albert Einstein e sua esposa, Mileva Maric, em meados de 1905. | Ann Ronan Pictures/Print Collector/Getty Images

Lieserl nasceu em 27 de janeiro de 1902, na cidade de Újvidék, que ficava no antigo Reino da Hungria, na Áustria-Hungria. Atualmente, esta região pertence à Sérvia. E tecnicamente falando, essa é uma das únicas certezas que os historiadores têm sobre a filha perdido do grande gênio da física.

O seu desaparecimento foi tão completo e bem arquitetado que os especialistas em história nunca descobriram sobre a filha de Einstein até 1986. Naquele ano, as primeiras cartas do cientista e sua esposa Mileva foram reveladas. E foi a partir da leitura destes documentos que os historiadores se depararam com várias referências a uma filha, chamada Lieserl. Em 4 de fevereiro de 1902, por exemplo, Albert Eistein escreveu para Mileva Marić: “Fiquei com medo quando recebi a carta de seu pai, porque já suspeitava de algum problema”.

“Ela está saudável e já chora direito? Que tipo de olhos ela tem? Com quem de nós dois ela se parece mais?”, questionava o físico. “Eu a amo tanto e nem a conheço ainda!”. “Ela certamente já pode chorar, mas a rir ela aprenderá muito mais tarde.

Aí reside uma profunda verdade”, refletiu o gênio da física em outro documento escrito à sua amada. Em outras cartas, Einstein implorava para que Mileva fotografasse a menina assim que ela estivesse recuperada do parto, ou que então fizesse um desenho da filha para ele.

Mas para a tristeza do gênio, Mileva não levou a filha quando se juntou a ele em Berna, na Suíça, em janeiro de 1903. Na ocasião, os dois iriam se casar, mas Lieserl não apareceu. A criança, aparentemente, desapareceu de todos os registros históricos, tornando-se praticamente um fantasma. Por incrível que pareça, quase nenhuma carta de 1903 mencionava o nome da menina, o que causa muita estranheza entre os historiadores.

INVESTIGAÇÕES

Quando os estudiosos descobriram que Albert Einstein tinha uma filha chamada Lieserl, a busca por informações sobre ela começou. Mas desde o início as investigações foram complicadas, já que os historiadores não conseguiram encontrar nem mesmo a certidão de nascimento da garota ou qualquer prontuário médico que mencionasse o nome de Lieserl Einstein.

E para alguns especialistas, “Lieserl” talvez nem fosse o nome verdadeiro da criança. Albert e Mileva referiam-se de várias maneiras ao bebê em suas cartas, e em alguns momentos o nome “Lieserl” era trocado por “Hanserl”, nomes diminutivos genéricos da língua alemã. Para alguns especialistas no assunto, era como se eles estivessem esperando por um “Joãozinho”, ou uma “Mariazinha”.

O fato é que a gravidez de Mileva não era totalmente esperada. Ela ainda não havia se casado com Einstein, e seus planos eram outros. Ela tinha sido a única mulher na turma de Einstein na Politécnica de Zurique, mas depois de saber de sua gravidez, ela se retirou dos estudos. A família de Albert, por sua vez, nunca aprovou a garota. “Quando você tiver 30 anos, ela já será uma bruxa velha”, alertou a mãe de Einstein sobre a mulher, que tinha apenas três anos mais do que ele.

Apesar das dúvidas de sua família, Albert se casou com Mileva, mas só depois que Lieserl foi deixada na Sérvia, onde a família da mãe cuidou do bebê. Einstein, obviamente, tinha motivos para esconder sua filha “ilegítima”. Ter um filho fora do casamento, naquela época, muitas vezes era visto como algo passível até mesmo de demissão, o que para o gênio da física significaria a interrupção da sua carreira mesmo antes do seu início.

A última referência a Lieserl nas cartas de Einstein é de setembro de 1903. “Lamento muito o que aconteceu com Lieserl. É muito normal ter efeitos duradouros da escarlatina”, escreveu Einstein, dando a entender que a filha teria contraído escarlatina. Segundo os historiadores, a garota pode ter sido atingido pela doença aos 21 meses de idade, mas ela aparentemente sobreviveu, como indica outra carta do gênio: “Se ao menos isso passar… Como a criança está registrada? Devemos tomar precauções para que não surjam problemas para ela mais tarde”.

Por conta de falta de pistas, muitos estudiosos não sabem ao certo o que aconteceu: Teria Lieserl morrido ainda criança? Ou será que ela foi entregue para adoção?

Em 1999, a escritora Michele Zackheim publicou um livro sobre a suposta filha de Einstein. Depois de anos procurando pistas e entrevistando sérvios sobre suas árvores genealógicas, Zackheim desenvolveu uma teoria.

Segundo ela, Lieserl nasceu com deficiências de desenvolvimento desconhecidas. Mileva Marić deixou a garota para trás, com sua família, quando ela voltou para Berna para se casar com Einstein. Então, alguns meses antes do seu segundo aniversário, a menina morreu. É possível que Albert, que tanto aguardava uma fotografia da garota, nunca tenha visto o seu rosto. E a menina nunca apareceu nas cartas do gênio a partir de 1903.

Zackheim também acredita que Einstein tenha escondido Lieserl de sua família. No entanto, algumas semanas após o nascimento da menina, a mãe do físico escreveu: “Esta senhorita Marić está me causando as horas mais amargas da minha vida. Se estivesse ao meu alcance, eu faria todo esforço possível para bani-la do nosso horizonte. Eu realmente não gosto dela”.

Albert e Mileva em 1912, pouco antes de se separarem.
Albert e Mileva em 1912, pouco antes de se separarem. | Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images

A escritora também sugere que o público em geral não conheça a verdadeira face de Einstein por trás da sua genialidade na física. “Há uma tentativa real de manter Einstein como um ícone do humanitarismo e da bondade, mas ele não era bom. Ele era um gênio criativo extremamente talentoso, mas era um pai terrível e uma pessoa muito ruim com seus filhos”, escreveu a autora certa vez.

Mas o que aconteceu, de fato, com a filha perdida de Einstein, ainda é um mistério que provavelmente os historiadores não vão conseguir desvendar por um bom tempo.

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