Kuru: A doença terrível causada pelo canibalismo que quase dizimou uma tribo da Papua Nova Guiné

O mundo está cheio de civilizações isoladas da humanidade, que vivem de forma totalmente diferente daquilo que estamos acostumados. E até o começo da década de 1930, as pessoas nunca haviam ouvido falar sobre o povo ‘Fore’, da Papua Nova Guiné. Durante muitos anos, estas pessoas evoluíram uma cultura bastante peculiar, que resistiu a séculos e mais séculos. E essa cultura guardava algumas características um tanto quanto assustadoras, como rituais de canibalismo, por exemplo.

Empresários da Austrália, motivados pela presença de ouro na Papua Nova Guiné, foram os primeiros a fazer contato com o povo Fore, que posteriormente foi analisado por pesquisadores e frequentemente visitado por oficiais da Austrália. No entanto, levaria cerca de 20 anos para que os cientistas tomassem conhecimento das práticas de canibalismo entre este povo. E além de ser assustadora e causar repulsa por si só, essa prática também levava a um outro problema: Uma doença chamada ‘kuru’.

Para este povo da Papua Nova Guiné, o canibalismo fazia parte da sua cultura, e era incluído em praticamente todos os rituais de sepultamento. Quando uma pessoa querida falecia, seus entes queridos quase sempre preparavam e comiam seus restos mortais. E ainda que o ritual tivesse boas intenções entre os integrantes da comunidade, ele obviamente causou horror ao redor do mundo quando tornou-se público.

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E o consumo de carne humana por parte dos Fore levou à disseminação do ‘kuru’, uma doença que foi apelidada de “morte do riso”, e fazia com que as vítimas perdessem o controle de suas emoções, dos seus braços e pernas e também morressem pela falência de funções vitais. As crises ocasionadas pela ‘kuru’ eram particularmente bizarras, pois os enfermos tinham ataques incontroláveis de riso – consequências dos danos causados pela doença no cérebro -. Na maior parte dos casos, os pacientes morriam em menos de um ano após começar a apresentar sintomas. Durante a década de 1950, a doença matava 2% da população da tribo todos os anos. Felizmente, os nativos estavam sendo cuidados por especialistas da Austrália, mas o problema é que nem mesmo eles sabiam o que estava acontecendo. Mas não demorou para que a verdade chocante viesse à tona.

O CANIBALISMO ENTRE O POVO FORE

Não é nenhuma novidade que povos indígenas da Papua Nova Guiné pratiquem canibalismo. Este país, isolado na Oceania, possui diversas tribos nativas que vivem de forma totalmente diferente do resto do mundo, e várias delas incluem ou já incluíram o consumo de carne humana entre suas práticas culturais.

Cada tribo tinha a sua própria interpretação sobre este tipo de prática, que para nos soa totalmente macabra e repugnante. Para os Fore, tratava-se de um rito funerário sagrado. Toda vez que uma pessoa morria, seu corpo passava por um processo de cozimento, e depois servia como alimento para seus entes queridos. Por mais que tudo isso pareça incrivelmente assustador e desumano, na crença deste povo tratava-se de uma cerimônia que honrava o falecido e o seu espírito. “Se o corpo fosse enterrado, ele seria comido por vermes. Se fosse colocado em uma plataforma, também seria comido por vermes. Os Fore acreditavam que era muito melhor que o corpo fosse comido por pessoas que amavam o falecido do que por vermes e insetos”, explicou, certa vez, um dos pesquisadores envolvidos no estudo deste povo isolado. Praticamente todo o corpo do falecido era consumido, exceto a vesícula biliar. Isso significa que, durante o ritual, até mesmo o cérebro da pessoa que havia morrido servia como alimento para seus familiares. E como os pesquisadores descobriram posteriormente, era isso que acabava por causar os casos de ‘Kuru’.

Os missionários e oficiais da Austrália que pisaram na Papua Nova Guiné naquela época condenavam a prática do canibalismo entre as tribos encontradas na região. Mesmo assim, o ritual dos Fore permaneceu popular durante um bom tempo. Não se sabe muito bem quando que o ‘Kuru’ surgiu, mas alguns historiadores afirmam que os primeiros casos da doença se deram entre 1910 e 1920.

A ORIGEM DA DOENÇA

Entre os cientistas que se dedicaram ao estudo do povo Fore estavam a antropóloga Shirley Lindenbaum e o seu marido, Robert Glasse. Viajando de aldeia em aldeia na comunidade, eles examinaram as possíveis causas da doença, que estava matando pelo menos 200 indivíduos todos os anos. Depois de descartar bactérias e outros contaminantes, eles logo perceberam que a doença também não era um problema genético, porque afetava mulheres e crianças nos mesmos grupos sociais, mas nem sempre nos mesmos grupos genéticos.

Mas, durante uma visita à Papua Nova Guiné, um neurologista e epidemiologista da Nova Zelândia, chamado RW Hornbrook, fez uma pergunta que serviu como chave para a solução do problema: “O que as mulheres adultas e as crianças estão fazendo que os homens adultos não fazem?”. A resposta logo veio à tona: Os homens normalmente não participavam do ritual de canibalismo, já que a carne humana era servida principalmente para as mulheres e para as crianças.

Enfrentando o ceticismo de alguns colegas, Lindenbaum e sua equipe levaram um grupo do Instituto Nacional de Saúde dos EUA até a comunidade para testar uma teoria. Os pesquisadores injetaram amostras de cérebros humanas infectados em chimpanzés. E para a surpresa de todos, os animais começaram a demonstrar sinais da ‘Kuru’ meses depois da injeção, confirmando, assim, a hipótese de Lindenbaum, de que a doença estaria relacionado ao consumo de carne humana. Mas isso não respondeu a todas as perguntas.

O povo Fore não era o primeiro a praticar canibalismo na história, mas ele era o primeiro a apresentar uma doença como essa. Então, o que exatamente poderia estar por trás disso?

O povo Fore não era o primeiro a praticar canibalismo na história, mas ele era o primeiro a apresentar uma doença como essa. Então, o que exatamente poderia estar por trás disso? Como a comunidade havia encerrado os casos de canibalismo após a década de 1960, era difícil explicar de forma exata o que havia causado a epidemia da “morte do riso”. Entretanto, grande parte dos especialistas acredita que tudo começou depois que uma pessoa do povo Fore desenvolveu uma condição neurológica chamada “doença de Creutzfeldt-Jakob”, com sintomas semelhantes ao ‘Kuru’. As duas doenças são causadas por príons, proteínas anormais que se comportam de forma incomum, causando lesões no cérebro e provocando danos sérios ao sistema nervoso. Ambas são fatais e costumam levar à morte em pouco tempo após o aparecimento dos sintomas.

Os especialistas teorizam que o indivíduo com a doença de Creutzfeldt-Jakob morreu em algum momento entre a década de 1910 e 1920, e teve seu corpo servido como alimento para os seus parentes. Nesse momento, os príons em seu tecido cerebral se espalharam para aqueles que os comeram, que por sua vez transmitiram a doença para outras pessoas, sucessivamente. E este ciclo perdurou durante décadas até que a medicina finalmente entendesse o que estava acontecendo.

HOJE EM DIA

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O número de casos da doença foi diminuindo ao longo do tempo, até que a condição tenha sido oficialmente considerada erradicada em 2012. Hoje em dia, o povo Fore é formado por 20 mil pessoas, quase o dobro do número registrado durante o pico da epidemia de ‘Kuru’. Os pesquisadores que trabalharam no experimento com os chimpanzés receberam um Prêmio Nobel por suas descobertas. Os resultados alcançados com a pesquisa levou a novos avanços na compreensão de doenças, como a Creutzfeldt-Jakob, a encefalopatia esponfigorme bovina (também conhecida como ‘doença da vaca louca’, e doenças neurodegenerativas, como o Mal de Alzheimer.

Várias décadas mais tarde, pesquisa apontaram que, ainda que a prática do canibalismo entre o povo Fore tenha causado a epidemia de ‘Kuru’, ele também deu início a um interessante processo evolutivo. Em 2015, especialistas descobriram que alguns membros da tribo desenvolveram genes que os protegem do ‘Kuru’, bem como de outras doenças priônicas, como a ‘doença da vaca louca’, e podem até mesmo protegê-los de algumas formas de demência.


Com informações do ‘All That’s Interesting’.

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