Kowloon: A colossal super favela de Hong-Kong que já foi a mais povoada do mundo

Se você vive em uma cidade metropolitana, provavelmente está acostumado a paisagens repletas de arranha-céus e construções gigantescas. Mas você com certeza nunca viu algo como Kowloon – uma cidade murada que durante um bom tempo concentrou a maior densidade populacional do planeta.

Durante o seu período áureo, a cidade localizada em Hong Kong contava com milhares de construções de 40 metros de altura, abrigando cerca de 50 mil habitantes em um território de 27 mil m².

Na prática, a cidade era uma espécie de super favela, construída sobre os restos de um antigo forte murado, que servia como posto militar desde épocas muito antigas. Dizemos “era” porque a cidade na existe mais. Em 22 de março de 1993, Kowloon passou a ser cercada por tratores de demolição, que deram início à derrubada das construções que constituíam a comunidade.

Aos olhos das autoridades de Hong Kong, Kowloon era uma mancha na paisagem, e um motivo de vergonha perante os outros países. Mas ainda que a localidade tivesse lá seus problemas e vivesse em uma espécie de caos constante, seus antigos moradores ainda olham para trás com um ar de nostalgia. Afinal de contas, Kowloon viveu por mais de 40 anos de forma praticamente autônoma em relação ao governo de Hong Kong.

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A origem da cidade, pelo menos da forma como a conhecemos por último, remonta o ano de 1842, quando os chineses tentaram ressignificar o antigo forte abandonado, contendo a expansão dos britânicos, que avançam contra Hong Kong motivados pela Guerra do Ópio.

Mas os esforços chineses não foram muito efetivos. Em 1898, o Reino Unido dominou a região, e a China foi obrigada a entregar vários territórios de Hong Kong, incluindo Kowloon.

Com o passar do tempo, os antigos prédios do forte, que serviam como casebres e armazéns, foram transformados em instalações como creches, escolas, hospitais e igrejas, criando uma comunidade bastante viva onde antes não havia praticamente nada.

O problema é que não demorou muito para que Kowloon se transformasse em uma espécie de “terra sem lei”, onde prosperavam facções criminosas e negócios obscuros, como o tráfico de drogas e redes de jogos de azar.

Durante muitos anos, criminosos de diferentes especialidades se esconderam por lá, usufruindo de uma organização social totalmente alheia ao resto do país.

Médicos e dentistas eram contratados para atender os moradores da região, e as organizações fora-da-lei também financiavam esquemas que garantiam o fornecimento de água encanada, energia elétrica e outras necessidades básicas.

Na prática, o local era visto como esconderijo para muitos criminosos, mas é claro que a maioria avassaladora dos moradores era constituída por pessoas de bem, trabalhadoras, que não tinham muitas condições para viver em outros lugares. Prova disso é que inúmeras fábricas, lojas e comércios familiares funcionavam na região, bem como ONG’s que se responsabilizavam pela coleta de lixo, reabilitação de dependentes químicos e até mesmo pelo cuidado das crianças cujos pais precisavam trabalhar o dia inteiro.

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Alguns historiadores e especialistas da história chinesa afirmam que Kowloon era como uma grande família, onde as pessoas se uniam e tentavam prosperar em conjunto. Lá, não havia perseguições por parte dos fiscais da colônia, nem cobranças de impostos, taxas, vistos e demais tarifas.

Por outro lado, é claro, muitos trabalhavam em condições desumanas, sem que houve qualquer tipo de controle oficial sobre as condições de trabalho e de higiene dos postos profissionais. Havia também uma grande preocupação em relação aos mais jovens.

Os desocupados eram fortemente incentivados a encontrar um emprego, e os pais costumavam “empurrar” seus filhos até que eles abrissem seus próprios negócios ou arrumassem uma forma de viver sozinhos.

O grande “boom” de Kowloon se deu em 1960, durando até o fim dos anos 80. Neste período, mais de 500 prédios sem licenciamento foram levantados na região, formando uma rede gigantesca de pequenos apartamentos totalmente aglomerados. Isso fez com que alguns pontos da cidade não fossem atingidos pelo sol, criando um ambiente muito escuro, que rendeu ao município o apelido de “Cidade das Sombras”.

A escuridão era tomada por fios, canos, varais improvisados e muita, muita sujeira. Há relatos de que os moradores precisavam sempre sair com guarda-chuvas, já que a umidade e a água que pingava dos canos e das roupas estendidas se assemelhava a uma garoa contínua.

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Em 1970, a incidência do crime organizado em Kowloon já havia reduzido consideravelmente, mas a polícia ainda realizava constantes incursões no local.

Por isso, e também pela aparência pouco apelativa da cidade, as autoridades decidiram que não era bom para a imagem do país manter uma comunidade como Kowloon. Por este motivo, entre o final dos anos 80 e começo dos anos 90, várias empresas e moradores foram retirados da cidade, quase sempre com compensações financeiras bem abaixo daquilo que era devido.

Em janeiro de 1993, Kowloon estava totalmente abandonada, passando a ser lembrada apenas por pequenas maquetes em alguns museus chineses, que mostram por meio de representações em pequena escala o lugar que, por muito tempo, recebia o título de cidade mais densamente povoada do mundo.


Com informações do Uol.com.

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