A influenciadora australiana Stacey Warnecke morreu após uma complicação grave durante um parto domiciliar sem acompanhamento médico, segundo informações apresentadas em um inquérito sobre sua morte. O caso ocorreu em 29 de setembro do ano passado e voltou a chamar atenção por expor os riscos de uma prática conhecida como freebirth, quando a gestante decide dar à luz em casa sem médicos, enfermeiros obstetras ou parteiras registradas.
Stacey tinha 30 anos e havia escolhido ter o filho, Axel, em casa, acompanhada pelo marido, Nathan, e por Emily Lal, uma doula. Diferente de uma profissional de saúde, a doula atua oferecendo apoio emocional e físico, mas não realiza procedimentos médicos nem substitui acompanhamento obstétrico.
Durante o inquérito, foi informado que Stacey começou a sangrar intensamente depois da saída da placenta. Em seguida, passou a demonstrar dificuldade para respirar. Mesmo assim, de acordo com o que foi apresentado, ela recusou duas vezes a chamada de uma ambulância. Apenas na terceira tentativa aceitou receber atendimento de emergência.
Quando os paramédicos chegaram, encontraram Stacey caída no chão, com a pele fria. Ela foi levada ao Frankston Hospital, onde a gravidade da situação ficou ainda mais evidente. Ao ser transferida da maca da ambulância para a cama hospitalar, houve uma grande perda de sangue.

Stacey Warnecke morreu no ano passado após complicações de um parto livre, ela foi levada às pressas para o hospital, mas não sobreviveu (GoFundMe)
O que aconteceu durante o parto
O médico legista propôs como causa da morte uma “hemorragia pós-parto no contexto de um parto domiciliar”. No hospital, a equipe realizou uma histerectomia de emergência, uma cirurgia para remover o útero, na tentativa de conter o sangramento.
Os profissionais também usaram todo o estoque disponível do tipo sanguíneo de Stacey nos esforços para salvá-la. Mesmo assim, ela sofreu múltiplas paradas cardíacas e não resistiu. O inquérito ouviu que a equipe médica fez “esforços heroicos” para tentar mantê-la viva.
Em declaração apresentada ao processo, Nathan afirmou que a esposa tinha “uma visão forte sobre a cascata de intervenções que pode ocorrer dentro de um ambiente hospitalar, e um forte desejo de evitá-las”.
Stacey promovia em seu trabalho como influenciadora um estilo de vida “livre de químicos” e, segundo o inquérito, via o freebirth como a única forma de ter o bebê inteiramente em seus próprios termos. Ela também havia recusado exames pré-natais, incluindo ultrassonografias de rotina, e decidiu não contar com uma parteira registrada durante o nascimento.

Uma investigação revelou que Warnecke recusou duas vezes o pedido de uma ambulância antes de concordar na terceira vez (GoFundMe).
O papel da doula no caso
A doula Emily Lal disse ao inquérito que recebeu 6 mil dólares australianos para estar presente no parto. Ela afirmou que não estava ali “para tornar um parto mais seguro”.
Ao ser questionada sobre como ajudaria as pessoas a permanecerem seguras durante o parto, respondeu: “Como eu ajudaria as pessoas a ficarem seguras durante o parto?”
Depois, completou: “Eu não acho que eu estar lá torne o parto mais seguro. Estou participando como amiga em um papel de apoio.”
Ela também declarou: “Eu não diria a ela: ‘Acho que você perdeu sangue demais.’ Esse não é o meu papel.”
Segundo Lal, Stacey chegou a perguntar se a perda de sangue era normal. A resposta da doula foi que era “mais do que eu consideraria normal”.
O patologista Michael Burke, do Victorian Institute of Forensic Medicine, afirmou no inquérito que Stacey morreu após uma enorme perda de sangue, que desencadeou complicações incluindo insuficiência cardíaca. “É raro uma mulher morrer no parto”, disse ele, acrescentando que a perda de sangue durante o nascimento é “imediatamente tratável se for reconhecida rapidamente e manejada corretamente”.
O caso deixou uma pergunta difícil pairando sobre o inquérito: até que ponto uma escolha feita em nome da autonomia pode se tornar perigosa quando emergências médicas surgem em questão de minutos? No parto, uma hemorragia pode transformar uma cena doméstica e planejada em uma corrida contra o tempo. Para Stacey Warnecke, essa corrida começou tarde demais.
