Hisashi Ouchi: O homem com as piores queimaduras por radiação da história

Os médicos o mantiveram vivo por 83 dias excruciantes contra sua vontade. Sua pele derretia e ele chorava sangue.

Em 1999, quando o japonês Hisashi Ouchi chegou ao Hospital da Universidade de Tóquio, ele apavorou os médicos com o maior nível de exposição à radiação já registrado até aquela época. Hisashi trabalhava como técnico em uma usina nuclear, e ao chegar no hospital ele já não tinha praticamente células brancas, e seu sistema imunológico estava muito comprometido. Em pouquíssimo tempo, a sua situação ficaria ainda pior.

Hisashi foi uma das vítimas de um acidente nuclear que começou em 30 de setembro de 1999, na usina de Tokaimura, no Japão. Naquela época, esses locais não contavam com medidas satisfatórias de segurança, o que acabava contribuindo para esses acidentes. Tentando cumprir as metas e os prazos apertados, um grupo de funcionários da usina sem nenhuma experiência neste assunto recebeu a missão de misturar um lote de combustível.

Hisashi Ouchi antes do acidente. | Peaked Interest/YouTube

Por não ter experiência neste tipo de trabalho, o grupo de técnicos acabou misturando sete vezes mais urânio do que o nível recomendado. Além disso, o tanque utilizado não era próprio para essa finalidade. Hisashi Ouchi era quem estava de pé bem na frente do recipiente quando as grandes quantidades de raio gama invadiram a sala onde a equipe estava. Todos os funcionários da usina, bem como os moradores do vilarejo, foram evacuados do local. Mas o sofrimento de Hisashi estava apenas começando.

Mantido em uma ala especial no hospital para protegê-lo das infecções hospitalares, Hisashi sofreu com vazamento de fluidos, e literalmente chorava por ajuda. Ele passou por vários ataques cardíacos, e por insistência da sua família, os médicos continuavam o reanimando. O ponto final do seu sofrimento chegaria apenas 83 dias depois, quando o homem já havia enfrentado um calvário sem precedentes na medicina.

Nascido em 1965, Hisashi Ouchi começou a trabalhar na usina em uma época importante para o seu país. Por ter poucos recursos naturais e depender muito da importação de energia, o Japão decidiu investir na energia nuclear.

De fato, os japoneses construíram a primeira usina nuclear em 1961, apenas quatro anos antes do nascimento de Hisashi. Colocar a usina em Tokaimura foi uma medida estratégica, já que o local era abundante e ficava próximo de institutos de pesquisa, reatores nucleares e centros de enriquecimento de combustíveis. No final das contas, um terço da população da cidade passou a depender do rápido crescimento da indústria nuclear.

Usina nuclear de Tokaimura. | Wikimedia Commons

No dia 11 de março de 1997, os moradores da região foram surpreendidos com uma explosão no reator de energia, que fez com que dezenas de pessoas fossem atingidas pela radiação. O governo encobriu o ocorrido na época, para esconder sua negligência no caso. No entanto, considerando o que viria a acontecer dois anos mais tarde, este primeiro acidente chega a passar até mesmo despercebido.

Naquela época, a usina convertia hexafluoreto de urânio em urânio enriquecido, para fins de produção de energia nuclear. Isso era feito utilizando um processo cuidadoso, que envolvia várias etapas de mistura de elementos, em uma sequência meticulosamente calculada. O problema é que, em 1999, as autoridades decidiram experimentar se era possível “pular” algumas dessas etapas, tornando o processo mais rápido.

Mas esses testes, na verdade, fizeram com que os funcionários da usina perdessem o prazo para a produção prevista para o dia 28 de setembro. Então, por volta das 10 da manhã de 30 de setembro daquele ano, Hisashi Ouchi, seu colega Masato Shinohara (de 29 anos) e seu supervisor Yutaka Yokokawa (de 54 anos), tentaram pegar um atalho. Mas nenhum deles sabia, de fato, o que estava fazendo.

Em vez de utilizarem as bombas automáticas para misturar 2,4kg de urânio enriquecido com ácido nítrico em um recipiente próprio para isso, eles usaram as próprias mãos para despejar mais de 15kg do material em baldes de aço. Às 10h35, o urânio atingiu a massa crítica, fazendo com que a sala explodisse com um flash azul, marcando o início de uma reação nuclear em cadeia, que liberava quantidades letais de radiação.

A explosição sofrida por Hisashi foi a maior da história naquele momento. Imediatamente ele passou a sentir fortes dores, e quando chegou ao hospital já havia vomitado violentamente e desmaiado. Todo o seu corpo estava tomado por queimaduras, e seus olhos vazavam grandes quantidades de sangue.

Mas talvez o mais grave de tudo isso era a falta de glóbulos brancos e a ausência de uma resposta imune adequada no seu organismo. Os médicos precisaram colocar o rapaz em um local especial na ala médica para evitar infecções generalizadas. Em uma tentativa desesperada para salvar a sua vida, os médicos chegaram até mesmo a utilizá-lo como teste para procedimentos revolucionários envolvendo células-tronco.

Teoricamente, essa abordagem seria muito mais rápida do que os transplantes de médula óssea. A irmã do rapaz se colocou à disposição para doar as células-tronco. Por algum tempo, o método parecia funcionar, mas não demorou muito para que Hisashi voltasse a um estado de quase morte.

Fotografias dos cromossomos do paciente mostram que eles estavam completamente dizimados, e que a radiação continuava atacando as células introduzidas. E os enxertos de pele recebidos por ele também não funcionavam, já que seu DNA não conseguia se reconstruir.

O sofrimento atingiu um ponto em que Hisashi implorou para que os médicos desistissem dele. “Não aguento mais, não sou uma cobaia”, teria gritado o paciente certa vez, durante o tratamento. Mas por conta da insistência da sua família, os médicos continuaram com os tratamentos experimentais.

Com seu DNA já totalmente obliterado, e com danos cerebrais que aumentavam cada vez que ele “morria” e era reanimado logo em seguida, o destino de Hisashi já estava selado há muito tempo. Em 21 de dezembro de 1999, uma parada cardíaca final levou o garoto à falência de múltiplos órgãos, libertando-o do sofrimento.

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