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Hipácia: A erudita grega terrivelmente morta por suas crenças

Hipácia de Alexandria normalmente é lembrada pelo público em geral como mártir das mulheres intelectuais e uma heroína com um triste destino. E de fato, ela contribuiu muito com seus ensinamentos filosóficos, matemáticos e astronômicos, antes de ser brutalmente assassinada.

A Grécia Antiga foi responsável por lançar as bases filosóficas para grande parte da democracia liberal do Ocidente como um todo, mas as mulheres infelizmente não costumavam fazer parte dos grupos de pensadores.

Hipácia, no entanto, nadou contra a maré da sua época. Linda, brilhante e com uma ousadia invejável, ela era admirada por muitos, mesmo pelos homens que pensavam que ela não deveria ter lugar entre os grandes pensadores – vale ressaltar que a sociedade da sua época era extremamente machista.

Grande parte da sua vida foi perdida ao longo da história, mas a turbulência política e religiosa da época nos sugere que, acima de tudo, suas crenças pagãs levaram à sua morte, mas por outro lado ajudaram a eternizar as suas conquistas nos livros de história.

Não se sabe exatamente a época em que Hipácia nasceu, mas a grande maioria dos historiadores concorda que seu nascimento ocorreu por volta de 350 d.C. Ela era filha de Theon, um matemático e filósofo, que encorajou a sua educação desde o princípio, mesmo contra o que era considerado “normal” para a época.

A garota, no entanto, não se contentou apenas aos ensinamentos do seu pai, e não demorou muito para encontrar outros meios de adquirir conhecimento sobre aquilo que era queria. Muito além da matemática, adorada pelo seu pai, Hipácia se interessou pela astronomia, e foi responsável pela construção de várias ferramentas importantes para a análise e medições de corpos celestes durante a noite.

Hipácia também se tornou membro da escola neoplatônica de filosofia, inclusive vestindo-se com as roupas da elite acadêmica, algo que naquela época somente os homens podiam fazer – durante toda a sua vida, ela fechou os ouvidos para quem tentava lhe dizer que ela não podia fazer isso ou aquilo.

Ousada, ela eventualmente se dirigia ao centro da cidade para contar a quem quisesse ouvir sobre os seus pensamentos acerca de Platão. E de fato, muitas pessoas foram cativadas por suas interpretações.

Grande parte da literatura sobre Hipácia foi escrita após a sua morte, e todos a descrevem como atraente, surpreendentemente bonita, com um ar digno de uma rainha. “Extremamente bela, e com uma belíssima forma… com palavras articuladas e lógicas, em suas ações prudentes e de espírito público. Toda a cidade lhe deu as boas-vindas e lhe concedeu respeito especial”, diz, em tradução livre, um dos relatos sobre a garota.

Mas como ela conseguiu entrar em uma academia dominada por homens e, não apenas sobreviver, mas prosperar? Segundo alguns historiadores, a resposta pode estar em algo “simples”: o celibato.

De acordo com o que há de literatura sobre ela, a intelectual nunca se casou, e era considerada virgem até a sua morte. E como é de amplo conhecimento, a sociedade grega antiga valorizava muito o celibato, que era visto como uma virtude.

Para os historiadores, Hipácia era muito respeitada por homens e mulheres, em grande parte, porque ela parecia quase assexuada. Isso fazia com que ela fosse vista de forma “menos ameaçadora”, na visão de alguns especialistas, apesar de toda a sua intensidade intelectual e sua crescente lista de realizações acadêmicas. Mas o seu celibato não impediu alguns avanços sexuais, como dizem certos relatos.

Em um texto antigo, o autor conta que um estudante ficou tão apaixonado por ela que temeu estar “doente de amor”, e precisou tomar medidas desesperadas para salvá-lo de si mesmo. O estudante, supostamente, teria confessado seu amor por Hipácia várias vezes para ela. E a lenda diz que, em um desses avanços, a garota levantou sua saia, arrancou os panos que usava como absorvente, repletos de sangue, e jogou-os na direção do pretendente.

“Seu amor é apenas luxúria, e você não tem ideia sobre a realidade das mulheres, então aqui está. Agora você deve ser curado de sua obsessão por mim”, teria dito Hipácia na ocasião.

Wikimedia Commons

Hipácia era bastante respeitada por suas realizações e pela imagem que ela passava ao público. Porém, ela praticava o paganismo em uma época em que o cristiano estava lentamente surgindo. Muitas pessoas com crenças pagãs se convertiam à nova religião, com medo de serem perseguidas. Mas Hipácia se negava a fazer isso.

Em vez de se converter, ela continuava com suas práticas consideradas pagãs, e não fazia nenhum esforço para escondê-las. E embora ela tenha sido protegida pelo governo de Alexandria por um bom tempo, eventualmente esta ousadia religiosa fez com que ela se tornasse um alvo entre os círculos cristãos, cada vez mais sedentos pelo poder.

Quando os fervorosos religiosos passaram a incitar a violência contra os pagãos na cidade, o governo deixou de proteger Hipácia.

Foi então que, um dos bispos mais notáveis de Alexandria, Cirilo, liderou um ataque para derrubar Hipácia. Ela ordenou que uma multidão de monges sequestrasse a garota, e eles assim fizeram, arrastando-a pelas ruas enquanto a torturavam.

Os monges queimaram o corpo de Hipácia e rasparam sua pele com conchas de ostras. Levada de arrasto até uma igreja, ela foi despida, espancada com telhas, e teve seus membros esquartejados.

O massacre de Hipácia foi justificado por Cirilo pelo fato dela supostamente “adorar ídolos”, algo que era proibido pelo cristianismo. Mas o que o bispo não sabia era que, matando uma nobre intelectual da forma como ele fez, ele estaria eternizando a imagem dela na história.

A morte de Hipácia, nas ruas de Alexandria. | Science Photo Library

Hoje, poucos se lembram do bispo Cirilo, mas os amantes da história conhecem e admiram a lenda de Hipácia de Alexandria, aquela que rompeu todos os paradigmas da sua época para mostrar ao mundo inteiro que as mulheres podem ocupar o lugar que elas quiserem.

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