Helios 522 – O assustador voo fantasma

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115 passageiros.

6 tripulantes.

120 pessoas inconscientes em um avião que voava aparentemente sem nenhum problema. 

Afinal, o que causou um dos mais assombrosos desastres aéreos do século 21?

Parece algo saído de um filme de terror. 

Um avião onde todos a bordo estão inconscientes, incluindo os pilotos, mas ainda assim ele continua voando para seu destino.

Por mais assustador que pareça, esse terrível caso foi realidade em agosto de 2005.

Era temporada de verão na Europa, época muito procurada por turistas para passar as férias.

Dezenas de pequenas companhias aéreas de baixo custo entraram em operação para lucrar com a enorme procura.

A Helios, do Chipre, foi uma delas.

Uma pequena frota de três aeronaves operava voos em toda a Europa, atendendo ao mercado de férias do norte do continente e à economia local, transportando turistas a um preço bem menor.

Em seus 7 anos de serviço, eles não tiveram nenhum incidente grave.

Até então.

É a madrugada de 14 de agosto de 2005.

Este Boeing 737, da Helios, está prestes a pousar no aeroporto de Larnaca, no Chipre, vindo de Londres.

Ao chegarem no solo, os pilotos notificam a manutenção sobre uma porta que havia congelado em voo, e também relatos de ruídos anormais vindos da porta traseira esquerda do avião.

Enquanto os pilotos vão descansar, a equipe de manutenção começa a consertar os problemas.

Nada tão grave que algumas verificações de rotina não possam consertar, e o avião estará pronto para voar pela manhã.

Como parte das verificações de manutenção, o mecânico realiza um teste de pressurização, seguindo um procedimento passo a passo.

Uma das etapas principais é alterar a configuração no painel de pressão da cabine para manual.

No fim das contas, a porta foi consertada. No entanto, o mecânico não mudou o botão de volta para automático.

Este pequeno passo aparentemente insignificante parece pequeno, mas será crucial nos eventos do dia seguinte.

Para entender como tudo viria a acontecer, é preciso conhecer um pouco sobre como funciona os sistemas de pressurização e ar condicionado de um avião.

Conforme ele sobe, a pressão do ar ao redor muda. 

Os seres humanos não podem respirar o ar externo na altitude de cruzeiro, por isso ele deve ser pressurizado.

Os passageiros precisam de ar fresco e de boa qualidade para respirar confortavelmente, mas em um tubo de metal selado, isso é difícil. 

Por isso, é preciso que o ar de fora entre.

Então, oxigênio fresco e frio entra na aeronave através dos motores.

Parte dele é levado para o sistema de ar condicionado, onde é comprimido e aquecido antes de ser distribuído pela cabine.

Sem esse sistema funcionando, as pessoas só poderiam respirar com a ajuda de cilindros.

Mesmo que um avião voe a maior parte do tempo acima dos 10 mil metros, o seu interior é pressurizado para uma altitude não superior a 2500, onde dá pra respirar.

No Boeing 737 e em muitos outros aviões, o sistema pode se ajustar automaticamente conforme as circunstâncias.

No entanto, para que isso aconteça, a configuração no painel de pressão precisa estar definida como automática.

A manhã chega em Larnaca. A tripulação fará uma viagem a Praga, na República Tcheca, antes de fazer uma breve escala em Atenas.

O capitão Hans-Jürgen Merten é um piloto alemão que foi contratado pela Helios durante a movimentada temporada de verão para pilotar nesses voos de férias. Ele tem mais de 35 anos de experiência.

Seu primeiro oficial, Pampos Charalambous, é outro experiente membro da tripulação, com 51 anos de idade.

Os comandantes devem seguir uma série de listas de verificação para cada etapa do voo.

Esses guias passo a passo devem serem seguidos para garantir que nada seja esquecido. 

Mas neste voo em especial, eles, em três ocasiões distintas, não percebem que o interruptor de pressurização ainda estava selecionado para a posição manual, em vez de automático.

Então, quando o avião decola rumo a Atenas, a cabine não está pressurizada.

Cinco minutos depois, um alarme tenta avisar os pilotos sobre o problema, mas o aviso é mal interpretado.

Enquanto isso, ao passar dos 3600 metros, o ar rarefeito faz com que as máscaras de oxigênio caiam do teto, indicando que algo está terrivelmente errado.

Cada passageiro tem apenas oxigênio suficiente para alguns minutos. Quando isso acontece, normalmente os pilotos comandam uma descida de emergência para uma altitude segura, mas isso não é feito.

Todos a bordo começam a sentir náuseas e tonturas, os primeiros sinais da hipóxia, e explicam a falta de tomada de decisões por parte dos pilotos.

Essa condição, extremamente perigosa, se dá quando falta sangue oxigenado para o cérebro e outros órgãos vitais. 

Como resultado, os sentidos e a consciência ficam seriamente afetados, e as reações ficam muito mais lentas. A pessoa fica confusa e para de pensar claramente.

O mais perigoso é que você não percebe que está com a condição. 

O 737 subiu até sua altitude de cruzeiro de 10 mil metros, exatamente como foi programado no piloto automático.

Antes da decolagem, os pilotos programam nos computadores todos os dados de rota, altitude, e performance. Desse modo, mesmo sem os pilotos ali, o avião segue o que nele foi programado – voar a caminho de Atenas.  

Assim que chega ao final da rota, o avião passa a circular em torno de seu último ponto de navegação.

Por 40 minutos, os controladores de tráfego aéreo tentam entrar em contato, sem sucesso.

Já sobre Atenas, o controle notifica a Força Aérea sobre o caso, que então lança dois caças F-16 para interceptar o Boeing, caso os pilotos não respondam.

Eles tentam ver o interior da cabine, e notam os dois homens sentados em suas posições, aparentemente mortos. 

Dando intermináveis voltas, eventualmente o voo 522 acabaria por ficar sem combustível. 

Foi quando os pilotos dos caças veem um homem entrar na cabine do Boeing. Havia, afinal, uma pessoa consciente à bordo. 

Era o comissário de bordo Andreas Prodromou. Acredita-se que ele tenha sobrevivido até então por ter usado cilindros extras de oxigênio.

Ele tinha uma licença de piloto, e provavelmente tinha conhecimento da situação. Mas infelizmente, ele nunca tinha comandando um Boeing 737, e mesmo com os cilindros, seus sentidos não estavam 100%.

Ele tentou, mas não conseguiu usar os rádios para se comunicar. 

Não demora até que o motor esquerdo para de funcionar por falta de combustível, seguido pelo motor direito.

O piloto automático se desativa e o avião começa a descer lentamente.

Embora o comissário não tivesse conhecimento para pousar o Boeing em segurança, ele consegue desviá-lo em direção a uma área rural na Grécia, evitando uma tragédia ainda maior caso ele caísse em Atenas. 

Alguns minutos depois, o avião colide contra uma colina a cerca de 40 quilômetros da capital grega. 

Todas as 121 pessoas a bordo morrem.

Após o acidente, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos exigiu que todo os Boeings 737 fossem equipados com duas luzes de advertência adicionais na cabine, indicando problemas com a pressurização antes da hipóxia acontecer.

Além disso, a União Europeia exigiu inspeções mais rigorosas e mudanças em uma série de procedimentos de manutenção, além de por fim à entrada de companhias aéreas inseguras.

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