A misteriosa morte de Gloria Ramirez, a “Dama Tóxica”

Gloria Ramirez era uma mulher comum que vivia em Riverside, Califórnia, com seu marido e seus dois filhos. De acordo com que a conhecia, ela era amiga de todos, muito brincalhona, e gostava de divertir os amigos.

Mas tudo mudou em 19 de fevereiro de 1994, quando Gloria Ramirez, então com 31 anos, foi levada às pressas para o Hospital Geral de Riverside. Ela estava com seus batimentos cardíacos acelerados, e também apresentava uma queda na pressão arterial. A mulher mal conseguia respirar, e respondia às perguntas com frases incoerentes.

A mulher sofria com um câncer cervical em estágio avançado, o que ajudava a explicar a deterioração de sua condição médica, e por isso vários profissionais de saúde foram mobilizados para trabalhar em seu caso e tentar salvar sua vida.

YouTube

Os médicos e enfermeiros seguiram os procedimentos padrões ao máximo possível, fazendo uso de drogas para tentar trazer seus finais vitais ao normal. Mas nada funcionou. Quando as enfermeiras removeram a camisa da mulher para aplicar os eletrodos do desfibrilador, notaram um estranho brilho oleoso em seu corpo. A equipe médica também sentiu um odor frutado e de alho vindo de sua boca.

As enfermeiras então colocaram uma seringa no braço de Ramirez para obter uma amostra de sangue. Foi aí que perceberam que seu sangue cheirava a amônia, e havia partículas coloridas flutuando em seu sangue. O médico encarregado do pronto-socorro naquela noite examinou a amostra de sangue e concordou com as enfermeiras de plantão: Algo não estava bem com a paciente, e não tinha nada a ver com insuficiência cardíaca.

De repente, uma das enfermeiras assistentes começou a desmaiar. Outra enfermeira desenvolveu problemas respiratórios.

Uma terceira enfermeira desmaiou e, quando acordou, não conseguia mover os braços e as pernas. De repente, seis profissionais de saúde estavam apresentando problemas sérios, e não puderam continuar tratando Ramirez. Os sintomas variavam de desmaios e falta de ar até náuseas e paralisia temporária. A mulher morreu naquela noite, mas a situação no hospital só ficou mais estranha a partir daí.

Department of Defense/U.S. Air Force

Para lidar com o corpo, uma equipe especial chegou ao local com trajes de proteção. A equipe procurou o pronto-socorro em busca de qualquer sinal de gás venenoso, toxinas ou outras substâncias estranhas.

A equipe de materiais perigosos não encontrou nada que pudesse sugerir como a equipe médica desmaiou. A equipe então colocou o corpo em um caixão de alumínio selado. A autópsia aconteceu apenas uma semana depois, em uma sala especial, onde a equipe realizou seu trabalho em trajes especiais de proteção.

A imprensa apelidou Ramirez de “A Dama Tóxica”, porque ninguém podia chegar perto do corpo sem enfrentar uma série de problemas de saúde. No entanto, ninguém conseguia apontar uma causa definitiva para toda essa situação.

As autoridades realizaram três autópsias. Uma ocorreu seis dias após sua morte, outra seis semanas depois e uma logo antes de seu enterro.

Uma quarta autópsia, mais completa, aconteceu em 25 de março, mais de um mês depois da morte de Gloria Ramirez, e concluiu que seu corpo tinha sinais de Tylenol, lidocaína, codeína e Tigan – um medicamento anti-náusea que costuma se decompor em aminas no corpo. As aminas, por sua vez, estão relacionadas à amônia, o que poderia explicar o cheiro em sua amostra de sangue.

Três semanas depois, em 12 de abril de 1994, as autoridades anunciaram que Ramirez morreu de insuficiência cardíaca devido a uma falha renal, provocada pelo câncer cervical em estágio avançado.

As substâncias incomuns em seu sangue eram muito baixas para explicar sua morte, embora houvesse níveis elevados de amônia e dimetilsulfona em seu corpo. O corpo levou dois meses para ser liberado para um funeral adequado, por conta dos níveis de toxicidade e do medo das pessoas desmaiarem ou passarem mal.

A família da mulher ficou indignada. Sua irmã culpou as condições deploráveis do hospital pela morte. Embora a instalação tivesse sido denunciada por violações no passado, não havia nada na investigação que apontasse as condições do hospital como culpadas.

Creme de dimetilsulfona.

 

Após uma investigação que durou vários meses, as autoridades concluíram que a equipe do hospital sofria de estresse e doenças psicogênicas em massa, desencadeadas por um odor. Em outras palavras, tudo não passou de uma “histeria coletiva”.

A equipe médica do hospital pediu ao escritório do legista para dar uma olhada no arquivo, e o vice-diretor assistente, Pat Grant, fez uma conclusão surpreendente.

Ramirez cobriu sua pele da cabeça aos pés com dimetilsulfona, em uma tentativa desesperada de se curar do câncer cervical. A ciência já havia rotulado a dimetilsulfona como uma substância tóxica em 1965, mas algumas pessoas acreditavam que ela podia aliviar a dor e reduzir a ansiedade.

Atletas até mesmo esfregavam cremes à base da substância na pele para tentar aliviar dores musculares. Isso mudou um pouco a partir do momento em que um estudo em camundongos mostrou que o medicamento fazia mal para a visão, mas nem todos suspenderam o uso.

Pat Grant pesquisou o que acontece com a dimetilsulfona quando exposta ao oxigênio, e foi aí que ele teve uma revelação. A substância, nestes casos, se converte em dimetilsulfato, que destrói as células dos olhos, pulmões e da boca das pessoas.

Quando esse vapor entra no corpo, pode causar convulsões, delírio e paralisia. Dos 20 sintomas descritos pela equipe médica naquela noite, 19 deles correspondem aos sintomas de pessoas expostas a vapores de dimetilsulfato.

A equipe, portanto, não passou uma histeria coletiva. Ela estava sofrendo de envenenamento pela substância, que ao que tudo indica também ajudou a causar a morte da paciente.

você pode gostar também
buy metformin metformin online