Entenda o que acontece com o cérebro humano ao ficar 40 dias sem açúcar

Ano passado, um morador da cidade de Hershey, a “capital mundial do chocolate”, na Pensilvânia (EUA), se desafiou a excluir o açúcar da sua dieta durante a quaresma. Se você estiver disposto a seguir este exemplo, aqui está o que você pode esperar durante estes quarenta dias.

Açúcar: recompensa natural, correção não natural.

Na neurociência, a comida é chamada de “recompensa natural”. Para sobrevivermos como uma espécie, coisas como alimentação e procriação devem ser prazerosas para o cérebro para que estes comportamentos sejam reforçados e repetidos.

A evolução resultou na via mesolímbica, um sistema cerebral que decifra estas recompensas naturais para nós. Quando fazemos algo prazeroso, um agrupamento de neurônios, chamado área tegmental ventral, usa o neurotransmissor dopamina para mandar um sinal para uma parte do cérebro. A conexão entre esta parte do cérebro e o nosso córtex pré-frontal dita movimentos motores, como a decisão de dar ou não mais uma mordida em um delicioso bolo de chocolate. O córtex pré-frontal também ativa hormônios que dizem ao seu corpo: “Ei, esse bolo é muito bom, vou me lembrar disso para o futuro.”.

Nem todas as comidas são tão recompensadoras, é claro. A maioria de nós prefere comidas doces a salgadas por que, devido a evolução, a nossa via mesolímbica reforça que comidas doces são fontes saudáveis de carboidratos. Quando nossos ancestrais colhiam frutos, por exemplo, o azedo significava “ainda não maduro”, enquanto amargo significava “alerta, veneno!”.

Fruta é uma coisa, mas a dieta moderna tem as suas próprias singularidades. Uma década atrás, foi estimado que um americano comum consumia em média 22 colheres de chá de açúcar por dia, totalizando 350 calorias extras, uma estimativa que provavelmente aumentou desde então. Alguns meses atrás, um especialista sugeriu que em média, um britânico comum consume 238 colheres de chá de açúcar por semana.

Hoje é quase impossível encontrar alimentos processados e preparados que não contenham açúcares adicionados para sabor, preservação ou ambos.

Esses açucares são sorrateiros e nos tornam inconscientemente viciados. Assim como drogas viciantes – como nicotina, cocaína e heroína – tomam conta do sistema de recompensa do nosso cérebro e tornam os seus usuários dependentes, o aumento de evidências neuroquímicas e comportamentais sugere que o açúcar é viciante da mesma forma.

Vício em açúcar é real.

“Os primeiros dias são um pouco difíceis,” disse Andrew sobre o desafio de ficar sem comer açúcar. “É quase como se você estivesse me desintoxicando de alguma droga. Eu me encontrei comendo grandes quantidades de carboidratos para compensar a falta de açúcar.”.

Existem quatro estágios do vício: consumo compulsivo, abstinência, desejo, e a predisposição ao vício de outras drogas. Todos estes estágios foram observados em testes de substâncias viciosas – como açúcar e drogas em si – em animais.

Um experimento típico transcorre da seguinte maneira: ratos são privados de comida durante 12 horas por dia, depois é dado a eles o acesso a uma solução açucarada e comida regular por outras 12 horas. Após um mês seguindo este padrão, os ratos começam a apresentar comportamentos similares aos de pessoas viciadas em drogas. Eles comem compulsivamente a solução açucarada em um curto período de tempo, e comem muito mais do que da comida normal. Eles também apresentam sinais de ansiedade e depressão durante o período de privação alimentícia. Muitos dos ratos que se viciam em açúcar e são mais tarde expostos a outras drogas, como cocaína e misturas de ópio, demonstram comportamentos dependentes às drogas, ao contrário de ratos que não consumiram a solução açucarada anteriormente.

Assim como as drogas, os picos de açúcar liberam dopamina. A longo prazo o consumo regular de açúcar chega a alterar a expressão gênica e a disponibilidade de receptores de dopamina. Especificamente, o açúcar aumenta a concentração de um tipo de receptor excitatório chamado D1, mas diminui a concentração de outro receptor chamado D2, um receptor inibitório. Consumo regular de açúcar também inibe a ação do transportador de dopamina, uma proteína que bombeia a dopamina para fora da sinapse e de volta ao neurônio.

Em resumo, isso significa que o acesso repetido a açúcares com o tempo leva a sinalizações prolongadas de dopamina, maior excitação das vias de recompensa do cérebro e uma necessidade ainda maior de açúcares para ativar todos os receptores de dopamina do mesencéfalo como antes. O cérebro se torna tolerante ao açúcar e são necessárias quantidades cada vez maiores de açúcar para atingir os mesmos efeitos.

Mistérios do Mundo

Abstinência de açúcar também é real.

Apesar de estes estudos terem sido conduzidos em roedores, não é exagerado deduzir que os mesmo processos aconteçam no cérebro humano também. “Os desejos nunca pararam, mas isso provavelmente foi psicológico,” disse Andrew. “Mas ficou mais fácil depois de uma semana mais ou menos.”

Em um estudo de 2002, conduzido por Carlo Colantuoni e colegas da Universidade de Princeton, ratos que passaram por um típico protocolo de dependência de açúcar, sofreram posteriormente a retirada completa deste açúcar. Isso foi facilitado por privações de alimentos ou tratamentos com naloxona, um medicamento usado para tratar o vício de opioides, que se liga a receptores no sistema de recompensas do cérebro. Ambos os métodos levaram a problemas físicos, incluindo tremores nas mandíbulas, nas patas e na cabeça. O tratamento com naloxona também pareceu deixar os ratos mais ansiosos.

Experimentos de abstinência similares feitos por outros também reportam comportamentos similares à depressão em tarefas como o teste de natação forçada. Ratos sofrendo de abstinência do açúcar são mais propensos a mostrar comportamentos passivos (como flutuar) do que ativos (como tentar escapar) quando colocados na água, sugerindo um sentimento de desamparo.

Um novo estudo publicado por Victor Mangabeira e colegas, na revista Physiology & Behavior, reporta que a abstinência de açúcar também está relacionada ao comportamento impulsivo. Inicialmente, ratos foram treinados para receber água ao puxar uma alavanca. Depois de treinados, os animais retornaram às suas casas e receberam acesso a uma solução de açúcar e água, ou somente água. Depois de 30 dias, quando os ratos receberam novamente a oportunidade de puxar a alavanca para beber água, aqueles que ficaram dependentes de açúcar puxaram a alavanca um número consideravelmente maior de vezes do que aqueles que beberam só água, sugerindo um comportamento impulsivo.

Estes são experimentos extremos, é claro. Nós, humanos, não estamos nos privando de comida por 12 horas e depois nos permitindo comer bolos e refrigerantes no final do dia. Mas estes estudos em roedores certamente nós oferecem uma compreensão quanto às consequências neuroquímicas da dependência e abstinência do açúcar.

Após décadas de programas de dieta e livros best-sellers, temos construído a noção de “vício em açúcar” por um longo período de tempo. Existem relatos daqueles passando por uma abstinência de açúcar descrevendo ânsias por comida que podem desencadear recaídas e alimentação impulsiva. Há também inúmeros artigos e livros sobre a energia e a felicidade renovada naqueles que abdicaram o açúcar para sempre. Mas, apesar da onipresença do açúcar em nossas dietas, a noção de dependência de açúcar ainda é um tema tratado como tabu.

Você ainda está motivado a cortar o açúcar da sua dieta durante a quaresma? Você talvez se pergunte quanto tempo irá levar até que você esteja livre de desejos e efeitos colaterais, mas não há uma resposta – todos são diferentes e não foram feitos estudos em humanos sobre o assunto. Mas após 40 dias, ficou claro que Andrew já tinha superado o pior, e provavelmente estava até mesmo invertendo algumas de suas sinalizações de dopamina que foram alteradas pelo açúcar. “Eu me lembro de comer o primeiro doce após a quaresma e pensar que ele era açucarado demais,” afirma Andrew. “Precisei reconstruir a minha tolerância.”

 

Traduzido e adaptado de The Conversation, publicado originalmente pela neurocientista Jordan Gaines

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