É verdade que o clima tropical pode matar o coronavírus?

A grande maioria das gripes que acometem os seres humanos apresentam maior intensidade em uma determinada estação do ano. A grande maioria dos vírus preferem o clima mais frio, o que ajuda a explicar o motivo pelo qual nos gripamos com mais frequência durante o inverno, mas existem também outros vírus que atuam com mais força durante o verão.

Em meio ao surto de Covid-19, que coloca o mundo inteiro sob alerta máximo, muitos pesquisadores já estão se perguntando se podemos esperar algum tipo de sazonalidade também neste vírus em específico.

Desde o começo das infecções, na China, o coronavírus se mostrou mais perigoso em lugares com clima mais frio, como a Itália e os EUA, mas a falta de conteúdo científico sobre o SARS-CoV-2 faz com que não seja possível fazer qualquer constatação certeira sobre as suas características sazonais.

O que os cientistas tentam fazer, no entanto, é olhar para outros tipos de coronavírus que podem nos ajudar a ter um norte neste sentido.

Em meados de 2010, Kate Templeton, do Centro de Doenças Infecciosas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, mostrou em uma pesquisa que três tipos de coronavírus encontrados em seres humanos mostravam traços claros de sazonalidade. De acordo com a pesquisa, os patógenos mostravam maior potencial de infecção durante as temporadas mais frias, principalmente entre dezembro e abril no hemisfério norte. O estudo ainda traz dados sobre um quarto tipo de coronavírus, que mostrava ainda mais sazonalidade.

Uma pesquisa mais recente, que ainda não foi publicada, porém foi citada em um artigo da BBC, sugere que o novo coronavírus pode ter alguma ligação com a temperatura, bem como a velocidade do vento e a umidade relativa do ar. O mesmo artigo da BBC trata de outra pesquisa que aponta para uma aparente “fragilidade” do SARS-CoV-2 em lugares mais quentes. É importante entender que, em meio ao surto recente envolvendo este novo tipo de coronavírus, é natural que diversas pesquisas científicas apareçam por todo o mundo, com relativa pressa na obtenção de resultados. O fato destes trabalhos ainda não terem sido publicados em veículos renomados se dá às dificuldades logísticas que o isolamento causa também ao campo científico, dificultando as revisões, as comprovações e etc. Para que uma pesquisa possa ser publicada em uma revista do campo científico, ela precisa ser revisada por um grupo de especialistas que não participou do trabalho, e é justamente isso que não está acontecendo com a mesma celeridade de outrora, em função do surto.

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O maior problema, no entanto, é que o SARS-CoV-2 não precisa, obrigatoriamente, seguir os mesmos padrões de outros tipos de coronavírus. E sem que exista literatura científica envolvendo o comportamento deste vírus ao longo de diferentes estações, os cientistas precisam se basear em testes realizados por computador. E esses testes indicam que a Covid-19 se tornará endêmica em determinado momento – ou seja, o vírus circulará por todos nós em algum momento, mas sem surtos como o atual, que acometem o sistema de saúde de qualquer país.

“Eventualmente, nós acreditamos que a Covid-19 se torne endêmica. E seria bastante surpreendente se ela não demonstrasse sazonalidade. A grande questão aqui é se a sensibilidade do vírus às estações vai influenciar a sua capacidade de se espalhar em uma situação de pandemia. Nós não sabemos, mas talvez seja possível que isso aconteça”, disse Jan Albert, professor de controle de doenças infecciosas no Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, em entrevista à BBC.

O que os cientistas já sabem com certeza é que os patógenos da família dos coronavírus possuem o que os especialistas costumam chamar de “envelope”, uma espécie de camada protetiva oleosa, feita de proteínas que se projetam na forma de uma coroa (o que faz com eles tenham esse nome). Algumas pesquisas mais antigas mostram que essa “capa” fica um pouco mais rígida em temperaturas frias, de forma semelhante com o que acontece com a capa de gordura de um corte de carne quando guardado na geladeira. Essa característica oferece aos outros coronavírus uma maior proteção no inverno, o que explica a sazonalidade. O patógeno que causou o surto da SARS em 2003, por exemplo, se provou mais resistente em temperaturas frias e secas, mas não se sabe até que ponto o SARS-CoV-2 seguirá o mesmo padrão.

“O clima é importante porque ele afeta a estabilidade do vírus fora do corpo humano quando expelido por tosse ou espirro, por exemplo”, disse Miguel Araújo, que estuda os efeitos das mudanças ambientais na biodiversidade no Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid. “Quanto mais tempo o vírus permanece estável no meio-ambiente, maior é a sua capacidade de infectar outras pessoas e provocar uma epidemia. Ainda que o Sars-CoV-2 tenha se espalhado rapidamente em todo o mundo, os surtos maiores ocorreram em lugares onde as pessoas estão expostas ao frio e ao clima seco”.

Um estudo realizado na Universidade de Maryland, nos EUA, mostrou que o coronavírus causador da Covid-19 atingiu principalmente as cidades e regiões onde a temperatura média fica em torno de 5-11ºC, mas não se pode ignorar o fato de que mesmo lugares mais quentes também têm apresentado casos significativos da doença. Pesquisas futuras poderão tentar entender qual relação, de fato, o clima tem com o patógeno.

Nesta mesma lógica, pesquisadores da Escola Médica de Harvard sugerem a partir de análises preliminares que o vírus pode não ser assim tão suscetível ao clima. Conforme eles mostram em sua análise, o número de casos e a severidade deles não foram diferentes entre as províncias chinesas mais frias e secas, como Jilin e Heilongjiang, e aquelas mais tropicais, como Guangxi e até mesmo Singapura, país próximo. Para os pesquisadores de Harvard, isso prova que seria um erro apostar na mudança de clima como um potencial “freio” para a epidemia, e que as instituições médicas devem continuar firmes na busca por meios de conter e controlar a propagação do vírus, independentemente da estação.

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