E se a Terra não tivesse uma Lua?

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Seria difícil imaginar um cenário em que, olhássemos para o céu, e a Lua não estivesse lá, não é mesmo? A Lua certamente foi uma grande companheira da história da humanidade: quantos trovadores não a usaram de inspiração para seus poemas? Quantos casais apaixonados já não fizeram juras de amor eterno em sua presença? Quantos marujos já não a tiveram como única companhia em meio à solidão de uma viagem sem fim? Além de testemunhar toda a história humana e ser objeto de muitos estudos científicos, a Lua sempre foi alvo de nossos interesses, tanto é que demos um jeito de visitá-la através do programa Apollo 11 – onze por causa das onze tentativas anteriores –  que levou pela primeira vez o homem a pousar no solo lunar, em 20 de julho de 1969.

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A Lua é o satélite natural da Terra, além de ter sido um elemento cultural e religioso na história da humanidade, sendo que desde que os primeiros humanos começaram a fazer arte em cavernas, a Lua já havia se tornado um elemento especial de suas pinturas.

Mas, qual é exatamente o papel da Lua nessa história toda? O que aconteceria, se ela, simplesmente desaparecesse ou nunca tivesse existido? E se… a Terra não tivesse uma Lua?

Passo 1: Terra simplesmente enlouqueceria

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Enquanto a Terra gira em torno do Sol e também gira em seu próprio eixo, que é inclinado em cerca de 23,4 graus o resultado é a mudança de temperaturas em certas partes do ano.

O hemisfério norte fica mais orientado para o Sol do que o sul e, seis meses depois, quando a Terra está no lado oposto de sua órbita ao redor do Sol, o hemisfério sul fica mais orientado para o Sol. O resultado? Conhecemos bem: temperaturas extremamente agradáveis para pegar uma praia durante uma parte do ano e a outra para ficar quentinho em frente a uma lareira tomando chocolate quente.

A explicação para a inclinação da Terra advém de sua formação, há 4,5 bilhões de anos: quando a “versão inicial da Terra” colidiu com outro corpo planetário e seu eixo de rotação se inclinou de forma drástica. A partir de então, a atração da Lua, por sua força gravitacional, acabou estabilizando o eixo da Terra, permitindo assim que a vida se originasse e evoluísse em nosso planeta.

Se a Lua não existisse, a Terra inclinaria de 20 a até 85 graus a mais do que agora.

Seja qual for a sua nova inclinação, uma coisa é fato: os polos seriam expostos ao Sol, derretendo as calotas polares e provocando mudanças climáticas extremas. Aliás, uma mudança de apenas um grau na inclinação do eixo do nosso planeta já é suficiente para causar grandes eras glaciais.

Em seguida, aconteceria um enorme aumento no nível dos mares: os efeitos mais conhecidos que a Lua produz na Terra são através da influência sobre as marés do oceano, em conjunto com o Sol, aumentando e diminuindo o nível das águas diariamente.

Na medida que a Lua orbita a Terra, sua gravidade puxa os oceanos em direção a ela, criando assim marés altas – isto é, quão mais próxima a Lua está, mais altas serão as marés.

Para se ter uma ideia da influência que a Lua exerce sobre os oceanos, a diferença máxima de altura entre as marés baixa e alta pode chegar a 16 metros.

Então, se a Lua não estivesse lá para causar esse efeito, as marés seriam reduzidas drasticamente, apesar de ainda haverem marés por conta da força gravitacional do Sol, que existe, mas é bem menor em comparação com a da Lua, por conta da distância.

Sem a gravidade da Lua, os mares também seriam bem mais calmos com as marés reduzidas a um terço. Como consequência, o nível dos mares seria afetado e a água seria distribuída uniformemente por toda a superfície da Terra.

Somando isso com o derretimento dos polos, você pode dizer adeus a muitas ilhas, cidades e até mesmo países inteiros: você jamais veria Nova York novamente e a Flórida, nos Estados Unidos, ficaria completamente submersa. Veneza sofreria estragos colossais e o Brasil seria um dos países mais afetados.

No Sul, o oceano Atlântico invadiria a bacia do Prata, deixando parte do Rio Grande do Sul e um pedação da Argentina e do Uruguai em baixo d’água.

Já no norte, as águas oceânicas avançariam centenas de quilômetros pela calha do rio Amazonas ameaçando a biodiversidade amazônica. Boa parte das capitais brasileiras seriam inundadas, como por exemplo, o próprio Rio de Janeiro: os bairros mais nobres, na zona sul, ficariam debaixo d’água. Já os morros, onde hoje estão localizadas as favelas, ficariam à beira mar.

Você consegue imaginar o tamanho do estrago?

Passo 2: As temperaturas ficariam bizarras

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Como parte do enlouquecimento da Terra, enquanto muitos países perderiam seus territórios, outros poderiam ganhar: com temperaturas mais altas, a Groenlândia se tornaria uma ilha coberta de verde e até mesmo a Antártida poderia começar a florescer.

Se não houvesse Lua, os padrões climáticos na Terra também ficariam malucos: com a desestabilização do eixo, mudanças extremas nas temperaturas globais ocorreriam. O derretimento dos polos fariam os oceanos ao redor atingir uma temperatura de pelo menos 47 graus Celsius, enquanto as áreas do equador sofreriam glaciações.

As chuvas também seriam frequentes: quando a Lua está no céu, a pressão atmosférica e a temperatura do ar aumentam, o que se traduz em menos chuvas em um determinado local.

Sem a Lua, além de contar o aumento das chuvas, os ventos também se tornariam mais fortes, o que é muito perigoso: os furacões teriam ventos ainda mais fortes e com uma força destrutiva infinitamente maior.

Passo 3: Os dias ficariam mais curtos

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Uma das coisas que contribuiu e ainda contribui muito para o surgimento e manutenção da vida na Terra, é o seu tempo de rotação: atualmente, a Terra completa uma revolução a cada 24 horas (ok, 23 horas e 56 minutos, para ser mais específico), o que permite que o planeta tenha um clima favorável para a vida, já que assim toda a superfície da Terra tem tempo o suficiente para aquecer e resfriar, nas medidas exatas.

Mas, nem tudo na Terra sempre foi assim: quando a Terra e a Lua se formaram 4,5 bilhões de anos atrás, o planeta girava tão rápido que o dia durava apenas quatro horas. Enquanto os dinossauros ainda vagavam pela Terra, o dia já tinha a duração de 23 horas.

Em 30 de junho de 2012, todos os relógios passaram a ter um segundo extra antes da meia noite. E por qual motivo? A Lua, é claro.

A gravidade da Lua exerce forças de atrito na própria Terra e diminui a rotação do planeta em dois milissegundos, a cada 100 anos. À medida que a Lua se afasta da Terra, a uma taxa atual de 3,82 centímetros por ano – nosso planeta perde energia rotacional e diminui, consequentemente, a sua rotação.

Se a Lua não existisse desde o início, poderíamos esperar que os dias fossem várias horas mais curtos do que hoje. Agora, se a Lua desaparecesse nesse exato momento, os dias permaneceriam quase inalterados, ainda durando cerca de 24 horas.

Se tudo se mantiver como está, no entanto, os dias durarão 25 horas em cerca de 180 milhões de anos.

Passo 4: Ficaríamos vulneráveis no espaço e sem outra “Lua reserva”

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A Terra fica, literalmente, em uma zona de bombardeio do espaço: todos os dias milhões de detritos passam pela Terra e o número de impactos meteóricos em nosso planeta triplicou nos últimos 290 milhões de anos.

Você sabia que cerca de 33 toneladas de detritos espaciais caem na Terra todos os dias? É isso mesmo: por conta do tamanho delas, a maioria das rochas acaba se desintegrando na atmosfera.

A Lua exerce um papel fundamental atraindo esses detritos para si, principalmente por conta de seu tamanho, 3.500 quilômetros de diâmetro, o que é cerca de 27% do tamanho da Terra.  Tanto é que podemos observar várias crateras colossais em sua superfície, até mesmo a olho nu.

Sem a presença da Lua, a taxa de impacto aumentaria, tornando a Terra um lugar bem hostil. um verdadeiro campo minado muito perigoso para o desenvolvimento da vida. A Lua funciona como um escudo protetor que nos livra de muitos impactos meteóricos.

Entre 2005 e 2013, a NASA detectou mais de 300 impactos na superfície lunar, o que significa que, na ausência da Lua, centenas desses corpos poderiam ter caído na Terra.

Além disso, você sabia que a existem pontos no espaço com um equilíbrio perfeito entre a gravidade da Terra e a da Lua? São os chamados “pontos de Lagrange”. É lá que ficam algumas estruturas em órbitas baixas, como a Estação Espacial Internacional, que sofre correções periódicas em seu curso para evitar cair na atmosfera da Terra.

Nesses pontos de equilíbrio perfeito entre a gravidade da Terra e a da Lua, qualquer coisa fica estacionária entre os dois corpos celestes. Nem a Terra nem a Lua atraem determinados objetos para si, nesse caso.

Um estudo feito por astrônomos húngaros em 2018 descobriu que em dois desses pontos – L4 e L5 – existem enormes nuvens de poeira interplanetária orbitando a Terra com um tamanho até nove vezes maior que o nosso planeta.

Um outro estudo afirma que os pontos de Lagrange podem capturar momentaneamente pequenos asteroides, que se tornam “mini-luas” temporárias da Terra antes de retomar suas jornadas.

Isso significa que, se não existisse mais a Lua, também não existiriam mais os pontos de Lagrange. As enormes nuvens de poeira se dispersariam, finalmente atingindo Terra ou sendo sopradas pelo vento solar e pela gravidade de outros planetas. Ah, e não teríamos sequer a chance de conseguir uma “Lua reserva”.

Passo 5: Sem placas tectônicas, sem a geografia que conhecemos e sem ouro

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A essa altura, já dá para saber que a gravidade da Lua exerce grandes efeitos sobre os processos naturais da Terra como, por exemplo, as marés do oceano. A Lua é tão poderosa sobre o mundo que também produz “marés” em terra firme, você sabia?

As marés terrestres são flutuações na altura relativa da crosta terrestre em uma frequência diária semelhante às das marés oceânicas. À medida que a Lua constantemente puxa a superfície da Terra, o solo abaixo de nós pode subir até 30 centímetros a uma determinada hora do dia. Isso se deve à elasticidade da crosta terrestre, que possui fissuras que permitem que grandes massas terrestres – as placas tectônicas – se movam.

Acredita-se que a Lua tenha se originado após a Terra ter perdido grande parte de sua crosta primordial durante uma colisão interplanetária, conhecida como “Big Splash”.

Se a Lua nunca tivesse sido formada, toda essa crosta teria permanecido na Terra, preenchendo as lacunas em que os oceanos se encontram hoje e a Terra não teria placas tectônicas porque não haveria espaço para elas se moverem. Além disso, a superfície da Terra seria composta de uma única peça, o que impediria os processos necessários para formar montanhas e a geografia que hoje conhecemos.

 Não haveria montanhas em nosso planeta, exceto por alguns vulcões dispersos. Supondo que ainda houvesse algum oceano na Terra, a água cobriria toda a superfície do planeta.

Alguns estudos indicam que as marés da Terra estão relacionadas à ocorrência de pequenos terremotos, sendo que existe a possibilidade de terremotos fracos quando a pressão na crosta causada pela atração da Lua é alta.

Se a Lua desaparecesse hoje, as marés da Terra também seriam reduzidas consideravelmente.

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Por Falar em geografia, ouro, platina, paládio, irídio também são elementos metálicos presentes em nosso planeta que se provaram extremamente valiosos para nossa civilização.

 Usamos esses elementos desde para fabricar carros até naves espaciais, itens eletrônicos e joias. Se não tivéssemos a Lua, certamente não teríamos acesso a esses materiais.

É isso mesmo: a teoria do Big Splash nos explica que, cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, uma rocha do tamanho de Marte – que os cientistas chamam de Theia – atingiu diretamente a superfície quente e derretida da Terra. Tanto a camada externa de Theia como parte do manto da Terra foram ejetadas para o espaço, aglomerando-se na órbita da Terra para formar a Lua.

Porém, o núcleo de Theia ficou por aqui mesmo pela Terra, compondo o nosso planeta e tornando-se nossos metais mais caros e preciosos.

Se a Lua nunca tivesse se formado, a concentração de metais preciosos no manto da Terra seria muito menor, uma vez que metais como ouro e platina tendem a ser atraídos pelo ferro. Em um planeta derretido como a Terra estava a princípio, esses metais teriam afundado até atingirem o núcleo de ferro.

Mas, graças à formação da Lua, eles ficariam espalhados pelo manto terrestre. Eis aqui um excelente motivo para adorarmos a Lua, não é mesmo?

Considerações finais: adeus, magnetosfera!

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O campo magnético da Terra, também conhecido como magnetosfera, é essencial para o desenvolvimento da vida em nosso planeta.

Ele funciona como uma “bolha magnética” que envolve a Terra, protegendo-a constantemente do vento solar – um fluxo de partículas carregadas que vêm do Sol que poderia até mesmo destruir nossa atmosfera – e também impedindo o bombardeamento por radiação cósmica prejudicial.

Por conta do geodínamo, o movimento rotativo do núcleo de ferro fundido da Terra, é que existe a magnetosfera. Esse movimento dos metais magnéticos internos faz com que a magnetosfera permaneça forte.

E, sabe por que  o geodininamo existe? Eureka! Por conta das forças das marés que a Lua exerce na Terra. À medida que a Lua aplaina e estica as camadas internas da Terra com sua força gravitacional, é gerada energia suficiente para manter o núcleo do planeta quente e em movimento.

Se não tivéssemos a Lua e sua troca de energia rotacional, o núcleo da Terra pararia de se mover e depois se solidificaria. Com a perda do geodinamo, a magnetosfera do planeta desapareceria, permitindo que o vento solar devorasse a atmosfera por completo.

E, bem… sem uma atmosfera, todos os reservatórios de água na superfície da Terra evaporariam e a radiação solar transformaria nosso mundo em um deserto árido.

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Apesar de tudo o que já discutimos, não nos aprofundamos no fato de que a vida complexa na Terra talvez não tivesse existido para nos ajudar. Sem a Lua, a Terra teria sido atingida por um número bem grande de asteroides e corpos planetários.

Nesse cenário, a vida dificilmente existiria, o que significa uma menor probabilidade de que os seres vivos se tornassem mais complexos ao longo de milhares de anos.

A estabilização do eixo da Terra proporcionada pela Lua, combinada à deriva continental, permitiu o surgimento de muitos ecossistemas diferentes em todo o planeta. Esses ecossistemas, que eram mais complexos que os da época dos dinossauros, contribuíram para o surgimento de mamíferos e, finalmente, dos seres humanos.

Se a Lua nunca tivesse existido, seres como nós também teriam uma probabilidade muito menor de surgir, sendo o mais provável mesmo que não tivéssemos sequer existido.

A vida se originou nos oceanos primordiais, onde as moléculas se fundiram para formar ácidos nucleicos, os blocos de construção elementares da vida. Sem a atração gravitacional da Lua, não haveria concentrações suficientes de sal na água do mar para que ocorresse uma química tão vital.

Como a Lua controla as marés na Terra e as marés transportam os minerais necessários para a subsistência da vida marinha, é difícil imaginar a vida nos oceanos sem que nosso satélite natural exista.

Então, agora podemos entender por que a Lua tem sido um objeto tão adorado, admirado e sagrado para muitas culturas. Se a Terra é nossa mãe e o Sol o nosso pai, a Lua é, certamente, a nossa babá, cuidadora ou mesmo a nossa professora, responsável pelo nosso desenvolvimento enquanto espécie.

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