Afinal, de onde os vírus vêm?

Acompanhando as notícias ou não, você certamente deve estar ciente sobre o novo Coronavírus o motivo pelo qual, neste preciso instante, você possivelmente esteja confinado em sua casa, tomando os devidos cuidados.

Tudo se deu início no final de 2019, quando o vírus começou a adoecer pessoas na China, em pouco tempo se alastrando pelo mundo e tornando-se uma pandemia declarada com perspectivas de que tudo ainda piore.

Muitas pessoas, intrigadas com a grande proporção que o vírus tomou e seu fácil contágio, começaram a especular sobre a origem do vírus na internet, inclusive pensando tratar-se de uma arma biológica. Mas, como alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, essa se tornou uma questão para a ciência: pesquisadores dos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido conseguiram rastrear a origem do vírus chegando à descoberta, através de sua estrutura, que não se trata de uma construção de laboratório, mas sim de um resultado da seleção natural, dada a forma como se inter-relaciona com as células, o que reforça o fato de sua origem não ser outra senão natural.

Parece estranho e confuso e, possivelmente, você deva estar com inúmeras questões em mente por conta de tantas informações circulando por aí, não é mesmo? Porém hoje iremos explicar para você algo importante para que esse cenário seja cada vez mais compreensível: como uma coisa tão pequena pode de causar tanto estrago na humanidade? Afinal de contas, de onde vêm os vírus?

@Shutterstock

O que são vírus?

Primeiramente vale lembrar que um vírus não é a mesma coisa que uma bactéria: enquanto uma bactéria é um organismo vivo unicelular, um vírus é um organismo muito rudimentar e simples, que nem a estrutura de uma célula possui. É por isso que a ciência não classifica o vírus como um ser vivo.

Basicamente, os vírus são constituídos por pequenas coleções de genes ou fragmentos de DNA ou RNA, “encapsulados” em uma capa proteica protetora e, às vezes, em uma membrana lipídica.

Apesar de carregarem informações para se reproduzirem, os vírus não podem se multiplicar sozinhos como fazem as bactérias, sendo que precisam se hospedar em células específicas para isso. Eles adentram em uma célula de maneira em que seu material genético e o da célula se confundem, criando cópias do vírus ao invés dessas células realizarem suas funções normais.

Alguns vírus são capazes de atacar bactérias, já outros, atacam especificamente plantas. Outros tipos podem atacar determinados animais ao passo que outros, os seres humanos. Alguns vírus podem atacar os animais e os seres humanos, como os próprios vírus coronas. Alguns tipos atacam galinhas, outros, porcos. Já outros coronas são capazes de atacar somente pássaros, não tendo decodificações suficientes para atacarem os seres humanos. Existem coronas capazes de atacar os seres humanos, porém a maioria é inofensiva e causa apenas um resfriado, diferentemente de sua versão nova, o COVID-19, cujos sintomas podem causar infecções respiratórias agudas e levar o indivíduo à morte. Cada vírus é muito diferente um do outro, sobretudo em suas mutações constantes.

Vírus são capazes de fazer reprogramações tão complexas que podem ser fatais para um indivíduo ou até mesmo para a humanidade.

@Shutterstock

E qual seria a origem dos vírus?

Bem, não existem registros fósseis que comprovem a origem deles, porém podemos chegar até eles através do DNA de seus portadores que foram infectados. Isso é o que permite à ciência rastrear a origem dos vírus que, pelo que se acredita, devem ter surgido até mesmo antes das células, uma vez que sua estrutura é bem mais simples.

A ciência que estuda a origem dos vírus é chamada de paleovirologia, um campo de estudo bem mais recente do que a paleontologia por estar correlacionada com a Genômica.

Nós seres humanos somos um combinado de proteínas e informações genéticas para todos os lados, mas nem tudo sempre foi assim: há uns 3,5 bilhões de anos, os primeiros seres vivos surgiam na Terra: as bactérias rudimentares, que consistiam em moléculas quebradas pela luz do sol que se combinavam em estruturas cada vez mais complexas, chegando a se multiplicar nos oceanos. As combinações eram cada vez mais estruturadas, fazendo-as ganhar habilidades bioquímicas inéditas. Algumas, no entanto, foram abandonando genes, até ficarem tão simples que começaram a sequestrar o maquinário de bactérias normais para se reproduzir: essa é uma de várias hipóteses para a origem dos vírus, uma espécie de ex-bactéria rudimentar.

Ao longo de bilhões de anos, as bactérias uniram forças para formar seres multicelulares, como plantas, fungos e animais – enquanto isso, os vírus tomaram um caminho diferente, se aproveitando da complexidade crescente desse mecanismo até nos levar aos problemas de saúde pública do século 21, já que sempre evoluem para formas cada vez mais complexas.

A vida surgiu no oceano e, para se ter ideia, o número de bactérias que existem por lá é composto por 28 zeros – o que significa que para cada estrela do Universo visível, há 10 milhões de bactérias na água.

Achou muito? Bem, saiba que o número de vírus que ganham a vida se aproveitando dessas bactérias tem 31 zeros – o que significa que o número de infecções virais que ocorrem no oceano por segundo tem 23 zeros. O oceano foi o berço da vida como também pode ser o nosso destino final. Você sabia que 40% do total de bactérias dos oceanos morrem por causa de vírus, a cada 24 horas? Por lá, todo dia é dia de pandemia.

@Shutterstock

E os novos vírus, como eles surgiram?

Já conseguimos perceber que a natureza está em constante movimento e que a evolução não é uma teoria, porém sim um fato.

Mencionamos anteriormente sobre a evolução dos vírus, que se aproveitam da complexidade crescente dos mecanismos da natureza para tomarem novas formas, não é mesmo? Porém, vale a pena saber como funciona o surgimento de um vírus novo e tão letal como os que conhecemos em toda história humana.

Durante a reprodução, quando um gene viral é copiado mutações podem ocorrer, por simples “erros de cópia”, bem parecidos como quando você copia um arquivo quebrado pelo computador. Em uma nova recombinação o “arquivo” é corrompido, o que torna o vírus inútil. Esses erros são muito frequentes e o vírus acaba se tornando inútil, pois não conseguem aderir a uma célula hospedeira.

Todavia, em ocasiões raras, uma mutação pode fazer com que o vírus possa se aderir a uma nova célula hospedeira e, se o vírus tiver a sorte de “encontrar” essa célula, a infecção viral pode ocorrer. Isso é chamado de “infecção por transbordamento” quando, por exemplo, um vírus sai de um animal e infecta uma pessoa.

De início o novo vírus não é muito bom em atacar o novo hospedeiro e enfrenta muitos desafios em um ambiente novo. Muitas vezes, as mutações que ocorrem para que esse vírus sobreviva, acabam afetando ele mesmo, que acaba morrendo por tabela. É por essa razão que a maior parte dos vírus de transbordamento vão à extinção depois de infectarem algumas poucas pessoas.

Se o vírus consegue sobreviver e se reproduzir por tempo suficiente, a seleção natural dará um “empurrãozinho” para ajudar no contágio e reprodução dessa nova espécie hospedeira. Mutações positivas acontecem a todo momento enquanto as inúteis são descartadas também a todo momento. E é assim que, em erros e acertos, surgem versões cada vez mais elaboradas de vírus, a ponto de tornarem-se uma epidemia ou pior: uma pandemia.

Em resumo, um vírus não surge da noite para o dia, apesar de parecer o contrário. Cientistas revelam que as evidências genéticas mostram o quão lento é esse processo de transbordamento de patógenos, que estiveram por trás de quase todo grande surto epidêmico na história.

@Shutterstock

Para melhor ilustrar esse processo, podemos usar o exemplo do próprio Corona que, no início dos anos 2000, atacava somente morcegos. Logo o vírus transbordou para as civetas, animais cuja espécie principal é conhecida por gato-de-algália, passando então para os seres humanos após mutações sofridas.

Nós chamamos essa versão atual de SARS Coronavírus, por causar uma síndrome respiratória aguda grave, um vírus se espalhou rápido e internacionalmente de pessoa para pessoa, inclusive infectando os próprios cientistas em laboratório. Até o momento em que o vírus foi contido, mais de 8 mil pessoas foram infectadas e 700 morreram.

Um outro tipo de Coronavírus, definido como MERS,  que infecta camelos, também transbordou recentemente para os seres humanos, causando ainda mais mortes.

Coronavírus não são o único tipo de vírus de origem animal que podem facilmente se adaptar a novos hospedeiros: o HIV transbordou dos chimpanzés pela ingestão de sua carne; a gripe suína veio parcialmente dos porcos, possivelmente evoluindo após uma recombinação de um vírus suíno e um vírus aviário; a gripe espanhola de 1918, que matou mais gente do que a Primeira Guerra Mundial, pode se originado das galinhas.

Apesar das evidências ainda não serem conclusivas, este novo Corona vírus pode ter se originado de morcegos ou mesmo de pangolins, já que vírus bem similares foram encontrados dentro de seu organismo.

Para esses animais o vírus não é perigoso, porém na região em que o primeiro surto de COVID-19 aconteceu, a caça e consumo ilegal destes animais juntamente com rituais religiosos e uso deles para medicina alternativa acontecem, propondo os seres humanos um contato com o vírus.

@Shutterstock

Para todos os efeitos, a ciência já possui tecnologia para rastrear a origem de um vírus, tornando-se a única esperança para que no futuro, possamos nos preparar e até mesmo conter situações como esta que estamos vivenciando agora.

Isso não significa que a ciência possua todas as respostas para todas as nossas questões e necessidades: mas podemos dizer que a ciência possui as perguntas, o questionamento, o que é, na verdade, o mais importante além da humildade para voltar atrás e corrigir uma ideia, caso surjam evidências que provem o contrário. Tudo isso associado a um método e sobretudo a uma sede inalcançável pelo saber é o que faz da ciência a única ferramenta confiável que dispomos para que possamos compreender melhor a natureza, nos preparando para eventos futuros e agindo de forma mais consciente, respeitando o espaço de cada um neste planeta e as leis que o regem.

você pode gostar também

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.