Conheça Tarrare, o homem que literalmente comia de tudo

Sabe aqueles profissionais que ganham competições alimentares? Eles não chegam nem aos pés dos ‘talentos’ de Tarrare, um francês do século XVIII. Tarrare – que poderia ter sido apenas um apelido da então frase francesa “bom-bom tarrare!” usada para descrever explosões – nasceu em 1772 em Lyon, na França.

Aos 17 anos, ele tinha cerca de 45 kg e, surpreendentemente, consumia um quarto de carne de vaca por dia. Ele fugiu de casa e começou a participar de um show de aberrações, onde costumava entreter participantes comendo qualquer coisa – literalmente qualquer coisa – que lhe dessem, que variava de cestas de maçãs, dúzias de ovos e até mesmo rolhas de vinho e pedras.

Se você encontrasse Tarrare nas velhas ruas de Lyon, provavelmente não o teria notado pelo seu tamanho (ele tinha uma estatura média e era uma pessoa magra), mas você sentiria o cheiro dele de longe. De acordo com um relato publicado no London Medical and Physical Journal em 1819, Tarrare estava “constantemente coberto de suor e de seu corpo… um vapor surgia, sensível à visão e mais ainda ao cheiro”. Ele tinha finos cabelos loiros e uma boca grande com lábios finos e dentes descoloridos. Frequentemente arrotava e peidava e tinha constantes evacuações odoríferas – o que se poderia esperar de alguém cuja dieta consistia em quantidades massivas de alimentos e itens que qualquer ser humano normal evitaria ingerir.

Enquanto a vida de Tarrare passava, seu apetite tornava-se cada mais bizarro. Ele entrou no exército francês quando a revolução começou em 1789, embora não tenha lutado. Ajudou seus colegas a realizarem tarefas do dia-a-dia e depois comia suas refeições ou as sobras delas, como compensação. Ele acabou no hospital militar porque não importava o que comia, seu apetite era insaciável. Ele surpreendeu os médicos do exército, vomitando não apenas suas rações quadruplicadas, mas também gaze destinada a curar feridas e animais vivos, incluindo gatos, cães, cobras e enguias (o último dos quais ele supostamente nunca sequer mastigou).

Um dos cirurgiões notou a notável capacidade de Tarrare e, como teste, fez com que ele comesse uma caixa de madeira – supostamente pequena o suficiente para ser engolida, embora o tamanho exato não constasse no London Journal – com uma folha de papel dentro. Quando Tarrare ingeriu com sucesso a caixa com o papel, os médicos deram a ele uma mensagem na mesma caixa para enviar aos soldados franceses presos que estavam detidos na Prússia. Se disfarçando como camponês, Tarrare atravessou a fronteira, mas foi rapidamente descoberto como um impostor porque não falava alemão. O exército prussiano o capturou e o torturou, e, de acordo com o relato do London Journal, “Tarrare vomitou a caixa de madeira… e engoliu o papel novamente para esconder o conteúdo do inimigo”.

Felizmente, Tarrare escapou e conseguiu voltar para a França. Os médicos tentaram tratá-lo com tabaco e opiáceos, mas durante seu período no hospital, a equipe o encontrou bebendo sangue drenado e até comendo seus cadáveres. Ele foi finalmente expulso em 1794 quando um garoto de 14 meses sumiu misteriosamente.

Tarrare sumiu do radar pelos próximos quatro anos. Quando ele morreu com a idade de 26 anos em Versalhes de tuberculose, os médicos realizaram uma breve autópsia. Eles descobriram que seu estômago tomava a maior parte de seu intestino, além de seu fígado gordo e maciço. Seus órgãos restantes estavam em decomposição; cheiravam tão mal que o chefe dos cirurgiões do hospital cancelou a operação antes que pudessem fazer qualquer outra coisa.

Tarrare tinha algum tipo de polifagia, uma condição médica caracterizada por excesso de fome. Geralmente, a polifagia é um sintoma de um problema subjacente mais sério. Syndee McElory, uma médica com sede em Huntington, Virgínia Ocidental, sugere que poderia ter sido o hipertireoidismo, que aumenta o metabolismo e causa diarreia, sudorese e cabelos finos – tudo isso coincide com as descrições de Tarrare. “Dito isso, geralmente não aceitamos que isso também faça com que você coma animais vivos e beba sangue humano”, disse ela em um episódio de Sawbones, um podcast de história da medicina em que ela é co-apresentadora. Outros especularam que o apetite incontrolável de Tarrare pode ter sido resultado de uma lesão cerebral ou tumor na amígdala ou no hipotálamo, os quais desempenham um papel importante no apetite.

[Quartz] [Urbo]

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