Esses animais tem sangue azul. E por isso estão ameaçados

O desenvolvimento de vacinas e medicamentos capazes de combater as milhares de doenças que podem afetar os seres humanos depende de extensas pesquisas e estudos científicos. E para colocar essas pesquisas em prática, normalmente é necessário ir atrás de suprimentos que nem sempre são muito baratos e fáceis de encontrar.

Um desses suprimentos é o sangue azul dos Limulidae, um tipo de caranguejo que se tornou muito popular na pesquisa científica desde 1970. Alguns anos antes, o pesquisadores Frederik Band se debruçava sobre esses caranguejos buscando uma forma de tentar entender como o sistema imunológico dessas criaturas funcionava. Para tanto, Bang injetou uma série de bactérias diretamente no organismo desses caranguejos, para ver como eles reagiriam. O que talvez ele não imaginasse no começo de seus estudos é que essa pesquisa se transformaria em uma das mais importantes da medicina moderna.

Em suas análises, Bang percebeu que as bactérias eram aglomeradas em grandes massas depois de injetadas no organismo dos Limulidae. Desde o primeiro momento ele já desconfiou que provavelmente isso acontecia para proteger as outras partes do corpo do animal da ação dos patógenos. Em uma pesquisa publicada em 1956, Bang concluiu que o responsável por essa resposta imunológica era a molécula LAL (sigla pra lisado de amebócito limulus), presente no sangue de coloração azul desses animais.

A partir disso, Bang revolucionou a forma como as vacinas são testadas antes de realmente passarem a ser aplicadas em seres humanos. Antes disso, a única técnica disponível era aplicar a vacina em coelhos de laboratório, mas junto com a sua equipe o especialista desenvolveu uma técnica mais eficiente, que consiste em mergulhar uma gota de LAL na vacina e analisar a sua reação. Desse forma, os pesquisadores são capazes de saber se ela será ou não tóxica em seres humanos.

Levou alguns anos, mas em 1970 a Administração de Drogas e Alimentos dos EUA permitiu que os testes envolvendo o LAL substituísse os testes em coelhos. A partir deste ponto não demorou para que esta técnica se tornasse cada vez mais popular, criando uma grande demanda pelo sangue desses caranguejos.

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E é por isso que, anualmente, centenas de pescadores se esforçam para coletar a maior quantidade possível desses animais, que são vendidos para a companhia Lonza, com sede na Suíça, que revende o LAL. O litro desta preciosidade medicinal é avaliado em aproximadamente 15 mil dólares, o que faz com que a pesca deste animal movimente uma indústria milionária.

Obviamente, essa indústria traz os seus malefícios para a natureza. Ainda que os caranguejos não precisem ser mortos para a coleta do LAL, cerca de 30% do sangue do animal é extraído durante a coleta. Depois disso, os animais são lançados de volta ao seu habitat natural, mas o problema é que quase um terço deles não sobrevive sequer à extração do sangue. “Algo entre 10% e 25% dos animais vão morrer dentro de alguns dias após a extração do sangue”, disse Win Watson, professor de zoologia na Universidade de New Hampshire, em entrevista ao ‘AllThatsInteresting’.

Mesmo que o procedimento não mate diretamente os caranguejos, a perda de tanto sangue pode fazer com que eles fiquem desorientados por um bom tempo, dificultando as suas chances de sobrevivência na natureza. Tudo isso faz com que o processo atual de coleta do LAL seja extremamente penoso para os animais, que de acordo com os especialistas podem provocar uma queda de 30% na população dos Limulidae.

Felizmente, os cientistas estão próximos de encontrar uma técnica capaz trocar o processo atual de extração do LAL por um outro procedimento, feito em laboratório. A bióloga Jeak Ling Ding é um dos pioneiros na pesquisa deste novo método, e obteve sucesso reproduzindo o gene que produz o “Fator C”, a parte específica do LAL que serve para a detecção de toxinas. No entanto, há ainda um grande caminho a ser percorrido para que a indústria entenda esse avanço tecnológico e comece de fato a “aposentar” a técnica antiga.

Alguns questionam a eficácia dos testes realizados com o “Fator C” sintético, mas até mesmo a European Pharmacopoeia, referência em padrões de qualidade para a indústria farmacêutica, defendeu o uso dessa nova prática.

Agora, a expectativa é que novas pesquisas possam finalmente comprar a eficácia do Fator C produzido sinteticamente, pelo bem desta espécie de animais que, se as coisas continuaram do jeito que estão, podem ver suas populações drasticamente afetadas.

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