O mistério da morte do “Homem de Somerton”

Quando assistimos aos noticiários, podemos perceber que crimes em geral não são muito difíceis de serem desvendados: geralmente os assassinatos mais chocantes foram cometidos por ex-namorados, companheiros, amantes da vítima ou até mesmo por bandidos de forma geral. É óbvio que sempre existem alguns casos que não se encaixam nesse modelo e, em alguns, o assassino é um completo estranho que simplesmente tinha o desejo de matar e nem sequer roubar nada da pessoa, ou ainda nenhuma afronta pessoal contra ela. E, por serem intrigantes demais, hoje em dia cada vez mais autoridades têm feito avanços tecnológicos, além de pesquisas minuciosas sobre a mente humana em seus diversos aspectos.

Neste contexto, um crime pra lá de bizarro acabou mudando totalmente a história: no ano de 1948, em Adelaide, no sul da Austrália, um corpo foi descoberto na praia e, conforme as investigações iam ocorrendo, tudo foi ficando ainda mais estranho. Não se sabe até hoje a identidade da vítima e não se tem ideia do que a matou – na verdade, nem podemos ter certeza se sua morte foi um assassinato ou um suicídio.

Esse caso ficou conhecido como O Caso Taman Shud ou “O Mistério do Homem de Somerton” – que é, sem dúvida, um dos maiores mistérios não solucionados do mundo.

Tudo começou às 19 horas da noite de uma terça-feira, em 30 de novembro de 1948; o clima estava quente e o joalheiro John Bain Lyons e sua esposa foram passear em Somerton Beach, um resort à beira-mar a alguns quilômetros ao sul de Adelaide. Enquanto caminhavam em direção a Glenelg, eles notaram um homem elegantemente vestido, deitado na areia, com a cabeça apoiada em uma pedra. Ele estava levemente deitado, como se estivesse bêbado. Porém, o casal percebeu que ele não mudava de posição, mesmo meia hora após observarem do local onde estavam. Eles acharam estranho o homem estar usando um terno em um dia tão quente, mas presumiram que o homem estava dormindo.

Foi só na manhã seguinte que descobriram que o homem estava de fato morto. John Lyons havia acabado de sair de um nado pela manhã para encontrar algumas pessoas aglomeradas na área onde ele havia visto o “bêbado” da noite anterior.

Foto policial do corpo. Wikimedia Commons

Nessa época, não era incomum a polícia encontrar corpos ao longo da praia. Mas havia algo que diferenciava esse caso das mortes por suicídio ou álcool. O homem não havia morrido afogado e sido arrastado pelas ondas até a praia; suas roupas – todas com as etiquetas removidas – estavam secas.

Quanto a seus itens pessoais, ele foi encontrado com dois pentes, uma caixa de fósforos, uma passagem de ônibus usada, uma passagem de trem de segunda classe não utilizada, um pacote de chiclete e cigarros – não havia nenhuma identidade ou documento que trazia pistas sobre quem era ele.

O local onde o homem desconhecido foi encontrado, marcado com um X. Wikimedia Commons

Uma análise pós-morte descobriu que o homem tinha um baço “notavelmente” aumentado e sangramento interno no estômago e no fígado. Mas a autópsia era inconclusiva. Afinal, não havia indicação de violência, dando a se presumir que a morte foi resultado de veneno. Mas… qual veneno, para ser exato?

A mala, o livro e a mulher misteriosa

Wikimedia Commons

Em janeiro de 1949, uma mala contendo dezenas de itens foi descoberta no vestiário da Estação Ferroviária de Adelaide. Ela havia sido encontrada no dia anterior à descoberta do corpo do homem de Somerton e a polícia suspeitava que pertencia a ele. Dentro dela havia roupas, e assim como as que o cadáver vestia, as etiquetas haviam sido removidas. Além disso, um fio encerado que não era comercializado na Austrália – o mesmo tipo usado para reparar as calças do homem não identificado – também foi encontrado. Os nomes “Keane” e “Kean” estavam escritos em alguns outros itens, mas não proporcionavam mais pistas.

Mas uma das evidências mais intrigantes foi descoberta quatro meses após a morte do homem: um patologista que reexaminou o corpo encontrou um pedaço de papel no bolso do homem que dizia “Tamam Shud”. Quando as palavras no papel – que haviam sido tiradas do livro de poesia “Rubaiyat de Omar Khayyam” – foram traduzidas do persa, elas diziam “Está feito”.

Wikimedia Commons

Isso foi suficiente para o médico legista Thomas Cleland considerar a morte do homem “não natural”. Logo após a conclusão do primeiro inquérito, a polícia apelou ao público para ajudar a encontrar o livro com a página removida. E eles encontraram: um empresário anônimo levou até eles a cópia do livro que correspondia ao pedaço de papel removido.

Quando o livro foi entregue, ele revelou duas pistas finais: uma sequência de letras – que se acredita ser um código – e alguns números de telefone. Os números não deram em nada, exceto um que pertencia a uma enfermeira chamada Jessie Thomson.

Wikimedia Commons

Curiosamente, ela morava a menos de 1 quilômetro de onde o corpo do homem de Somerton foi encontrado. Quando a polícia a interrogou em julho de 1949, ela lhes disse que já havia sido dona de uma cópia do livro encontrado, mas negou conhecer o homem de Somerton.

Intrigada, a polícia a levou para ver um busto de gesso da cabeça e dos ombros do homem, na esperança de que isso despertasse sua memória. Segundo relatos, ela se comportou estranhamente quando o viu, mas nunca revelou o porquê.

Um caso nunca solucionado

Enterro do homem de Somerton em 14 de junho de 1949. Wikimedia Commons

Apesar de algumas novas informações terem surgido ao longo dos anos, o caso continua sendo mistério. E para piorar, a maioria das principais testemunhas já morreram.

A polícia disse em uma entrevista que era um “inquérito aberto” que permaneceu no Departamento de Investigação Criminal. Testes genéticos feitos com os fios de cabelos do homem de Somerton, embutidos no molde de gesso, revelaram que sua mãe tinha ascendência europeia, mas essa foi a única informação extraída.

A enfermeira Jessie Thomson morreu em 2007, seis anos antes de seu vínculo com a investigação ter se tornado público. Havia rumores de que seu filho Robin era o filho biológico do homem não identificado. Em 2013, sua filha Kate Thomson disse que sua mãe conhecia a identidade do homem na praia. “Ela me disse que sabia quem ele era, mas que não compartilharia a informação com ninguém”, disse ela em uma entrevista.

Isso tudo só nos leva à última peça do mistério. Examinando o arquivo policial do caso, Gerry Feltus, um detetive que investigou o caso por décadas, encontrou uma evidência negligenciada: uma declaração, feita em 1959, por um homem que estivera em Somerton Beach. Lá, na noite em que o homem desconhecido havia morrido, e caminhando em direção ao local onde seu corpo foi encontrado, a testemunha (segundo o relatório da polícia) “viu um homem carregando outro no ombro, perto do mar. Ele não conseguiu descrever o homem”.

Na época, isso não parecia tão misterioso; a testemunha presumiu que ele tinha visto alguém carregando um amigo bêbado. Olhado à luz do dia, porém, isso só levanta questões. Afinal, nenhuma das pessoas que viu um homem deitado à beira-mar havia notado seu rosto. Seria ele o homem desconhecido? O corpo encontrado na manhã seguinte pode ter sido o mesmo que foi visto no ombro do estranho? E, se assim for, será que esse caso realmente envolveu espionagem – e assassinato? E assim continua o misterioso caso de Somerton Beach: com mais perguntas do que respostas!

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