A triste história da última pessoa contaminada pela varíola

Na última semana, um laboratório da Pensilvânia, nos Estados Unidos, precisou ser interditado após a descoberta de vários frascos antigos etiquetados com a palavra “smallpox” (varíola, em inglês). Após a interdição, os frascos foram cuidadosamente analisados e, para o alívio de todos, não foi encontrado nenhum traço do antigo vírus que matou milhares de pessoas no mundo inteiro.

O assunto foi levado muitíssimo a sério pelo governo dos Estados Unidos, e considerando o histórico desta doença mortal, todo cuidado é pouco. Só para se ter uma ideia da mortalidade da varíola, 30% das pessoas infectadas pelo vírus acabavam falecendo em decorrência da infecção. Graças a um grande programa internacional de vacinação, a Organização Mundial da Saúde declarou o vírus erradicado em 1979. Mas apesar de ter sido vencido por conta da vacinação, o vírus deixou um rastro de destruição, tendo matado cerca de 300 milhões de pessoas durante todo o Século 20.

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Mas você já parou para pensar em quem foi a última pessoa a contrair varíola?

A dona deste “título” é a fotógrafa médica Janet Parker, que trabalhava na Escola Médica de Birmingham, na Inglaterra. Apresentando sintomas de um resfriado, ela foi diagnosticada com uma gripe normal, mas seu quadro mudou completamente quando ela começou a apresentar as típicas bolhas no corpo. A partir daí, os médicos diagnosticaram Parker com catapora. Porém, depois de um mês sofrendo com os sintomas, eles começaram a desconfiar da varíola.

Voltando um pouco no tempo, antes de começar a apresentar os sintomas, Parker havia usado um telefone dentro do da universidade onde trabalhava. Logo abaixo do local onde ficava o telefone, havia um laboratório, onde o professor Henry Bedson guardava amostras do vírus da varíola. Naquela época, Bedson utilizava as amostras em seus estudos, que tinha como objetivo analisar o potencial que as variantes da doença tinham para causar problemas após a erradicação do vírus. De acordo com documentos da época, a OMS chegou a questionar o trabalho de Bedson, porém permitiu que ele continuasse mantendo as amostras em seu laboratório, desde que certas melhorias fossem feitas nas questões de segurança envolvendo as amostras. Parker utilizou o telefone localizado na parte de cima do laboratório cerca de cinco meses depois da visita da OMS.

Erupções cutâneas causadas pela varíola. Aqui, uma jovem paciente parece ser muito mais velha do que realmente é.

 

E de acordo com o que as investigações apontaram, ela provavelmente foi contaminada por uma cepa conhecida como ‘Abid’, que pode ter escapado por um duto de ar do laboratório. Infelizmente, logo depois de ser internada com o diagnóstico de varíola, a mulher faleceu. E antes mesmo da confirmação da morte de Parker, o professor Henry Bedson cometeu suicídio, provavelmente horrorizado com a hipótese de ter causado o retorno de uma doença fatal que o mundo levou anos para erradicar.

“Lamento ter perdido a confiança que tantos de meus amigos e colegas depositaram em mim e em meu trabalho”, escreveu ele em uma nota, acreditando que o vírus havia escapado de seu laboratório. Esta hipótese foi confirmada posteriormente por relatórios do governo americano.

A mãe de Parker também foi infectada pelo vírus, mas ela felizmente conseguiu sobreviver. Um ano depois, em 1979, a varíola foi declarada erradicada por completo. Com o mundo finalmente livre deste inimigo terrível, a ordem da OMS foi destruir todos os estoques remanescentes de varíola, ou então transferi-los para um dos dois laboratórios considerados “seguros”. Um deles ficava nos Estados Unidos, e o outro na Rússia – onde as últimas amostras da doença permanecem até hoje. Pelo menos teoricamente, já que em 2014 foram encontradas várias amostras do vírus em um laboratório da África do Sul, embalados em uma frágil caixa de papelão.


Com informações do IFLScience.

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