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A história de Balto, o Husky que ajudou a salvar uma cidade inteira da morte certa

Em janeiro de 1925, os moradores da cidade de ‘Nome’, no Alasca, enfrentaram uma terrível epidemia de difteria. Naquele ponto, a pequena cidade de 1400 habitantes já contava com sete mortos, 19 doentes e 150 sob vigilância. Para tratar a doença, os enfermos precisavam enfrentar uma viagem de centenas de quilômetros, e por isso parecia que a cidade corria o risco de ser dizimada pela difteria – até que um cachorro, chamado Balto, ajudou a salvar o vilarejo.

Cidade de Nome, no Alasca. | Wikimedia Commons

Na época, a difteria era uma das principais causas de morte nos EUA, especialmente entre as crianças e os mais jovens. A doença tirou a vida de mais de 15 mil americanos apenas durante o ano de 1921, o que serve como um exemplo do potencial mortífero que ela tinha. A cidade de Nome não tinha, no entanto, os recursos que as grandes metrópoles tinham para tratar a difteria, e as viagens eram quase impossíveis por causa do inverno brutal do Alasca.

A cidade mais próxima de nome, com uma estação de trem, era Nenana, a quase 1100km de distância. Embora fosse possível viajar de trenó, uma viagem normalmente levava algo em torno de um mês. Por isso, podia ser tarde demais para entregar o soro que ajudava a combater a doença. E a única maneira de salvar a cidade era realizando uma corrida de revezamento contra o tempo. Por isso, 20 condutores, com o auxílio de 150 cães, puxaram trenós através dos ventos fortes da região, lutando contra tudo e contra todos. Os condutores dividiram a jornada em várias etapas, e a viagem que deveria levar quase um mês acabou sendo feita em pouco mais de cinco dias.

Essa corrida contra o tempo ficou conhecida como “A Grande Corrida da Misericórdia”, ou “Nome Serum Run”. E um cachorro chamado Balto foi o responsável por liderar a última etapa da jornada, emergindo a partir de então como um herói nacional.

A GRANDE CORRIDA DA MISERICÓRDIA

Nascido por volta de 1919 na própria cidade de Nome, Balto era um Husty Siberiano que foi criado por um condutor de trenós chamado Leonhard Seppala. Em seus primeiros anos, Balto não chamava muita atenção, e sequer conseguia se destacar dentro da sua matilha. No entanto, sua habilidade surpreendente e resiliência fizeram com que ele fosse um dos principais destaques entre os heróis daquela que ficou conhecido como a “Peste Negra do Alasca”, em 1925.

A epidemia não poderia ter vindo em pior hora. A região estava no meio do inverno, o que fazia com que o acesso à cidade, que já era complicado, ficasse pior ainda. Para economizar tempo, um grupo de condutores reuniu todos os seus recursos e elaboraram um plano genial. Ao dividir a jornada em vários trechos, eles poderiam levar o soro para difteria até Nome em uma fração do tempo normal. Enfrentando uma nevasca com temperaturas baixíssimas, a equipe se preparou para decolar em 27 de janeiro de 1925. Naquele dia, cerca de 300 mil doses da antitoxina chegaram a Nenana de trem. Envolta em frascos e protegidas por colchas, a carga havia sido encaixada em um cilindro metálicos para garantir a sua segurança. Sem tempo a perder, o primeiro condutor, ‘Wild Bill’ Shannon partiu com sua equipe de cães.

Infelizmente, Shannon perdeu dois de seus cães, e também sofreu com sérios problemas no rosto por conta do congelamento. Ainda assim, ele chegou à próxima parada e entregou o soro ao outro condutor. A medicação passaria ainda por várias mãos diferentes até chegar em Nome.

BALTO, O CÃO QUE VIROU HERÓI

Seppala recebeu a etapa mais árdua da viagem. Ele já havia viajado mais de 270km para pegar o soro, e então viajaria mais 146km para levá-lo ao próximo condutor. Com um cão experiente chamado Togo liderando a matilha, Seppala partiu confiante com a medicação em 31 de janeiro de 1925. Togo, um cão de 12 anos de idade, liderando corajosamente a equipe de Seppala através do gelo na Montanha Little McKinley. Eles não pararam até chegarem ao condutor Charlie Olson. Mais tarde, ele passaria o soro para Gunnar Kaasen – que terminou os últimos 86km sendo puxado por Balto.

Gunnar Kaasen e Balto. | Wikimedia Commons

Antes da corrida do soro, o esse husky siberiano era indistinguível entre os outros cães com os quais ele cresceu. Mas completar a etapa final desta corrida faria com que Balto virasse uma estrela internacional da noite para o dia. Não há dúvidas de que as terríveis condições pelas quais Balto passou ajudaram a impulsioná-lo. As temperaturas no final da jornada eram assustadoramente baixas, e fortes ventos lançavam neve para todos os lados. A certa altura, Kaasen não conseguia nem enxergar através da neve. Ainda assim, Balto não desistiu, e seguiu firme com seu objetivo.

Em 2 de fevereiro de 1925, Kaasen e sua matilha de cães de trenó finalmente chegaram a Nome com o soro que todos esperavam. Entregá-lo ao médico local, Dr. Curtis Welch, foi o ponto final e mais emocionante de toda a viagem. Enquanto Kaasen descansava, ele contou para todos na cidade sobre a bravura de Balto. O corajoso cãozinho liderou o caminho apesar de todas as adversidades, e logo os moradores de Nome passaram a celebrar o seu heroísmo, e mais tarde o mundo inteiro iria começar a fazer o mesmo.

Nos Estados Unidos, Balto tornou-se um nome familiar. Na cidade de Nova Iorque, ele foi homenageado com uma estátua no Central Park em 17 de dezembro de 1925, apenas 10 meses após a corrida do soro. Esculpida por Frederick George Richard Roth, o monumento está lá até hoje, com uma inscrição: “Dedicado ao espírito indomável dos cães de trenó que levaram a antitoxina por 1000km através do gelo, das águas traiçoeiras e das nevascas de Nenana até o alívio de Nome, no inverno de 1925”.

Gunnar e Balto, no Central Park. | Bettmann/Getty Images

Mas nem todos acharam a homenagem justa. Para Seppala, o fato de Balto ter se tornado uma celebridade em vez de Togo foi frustrante. Ele sentiu que Togo havia feito uma jornada muito mais difícil do que a de Balto, e certa vez escreveu sobre isso:

“Espero nunca ser o homem a tirar o crédito de qualquer cachorro ou condutor que participou dessa corrida. Todos nós fizemos o nosso melhor. Mas quando o país ficou entusiasmado, eu ressenti a estátua de Balto, pois se algum cachorro merecia menção especial, esse cachorro era Togo”.

Mas o legado de Balto continua sendo o mais celebrado entre os cães que participaram desta página da história dos Estados Unidos. Seu monumento em Nova Iorque foi complementado por um filme infantil em 1995, que teve outras duas edições mais tarde.

Balto faleceu em 1933, aos 14 anos de idade, e seu corpo foi preservado no Museu de História Natural de Cleveland, em Ohio. Ele permanece em exibição até hoje, para que os admiradores ainda possam prestar seus respeitos a este verdadeiro herói nacional.


Com informações do All That’s Interesting.

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