Coronavírus na China: Como a censura e a propaganda obstruíram a verdade

Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original clicando aqui.

Paul Gardner, Candidato a PhD em Estudos Chineses e Comunicação Política na Universidade de Glasgow.

Os líderes políticos da China esperam que quando as preocupações sobre o coronavírus eventualmente comecem a retroceder, as lembranças sobre as falhas do Estado chinês no começo do surto também desapareçam. Eles estão particularmente ansiosos para que as pessoas esqueçam a raiva que muitos sentiram após a morte por Covid-19 do Dr. Li Wenliang, o médico censurado por tentar alertar os colegas sobre o surto. Após sua morte, a frase “Queremos liberdade de expressão” chegou a estar nas mídias sociais chinesas por várias horas antes que as postagens fossem excluídas.

Li havia avisado a outros profissionais da área médico sobre o novo vírus em um grupo de bate-papo no dia 30 de dezembro. Ele foi, então, acusado de “boataria”, e as autoridades ignoraram ou menosprezaram os riscos até janeiro deste ano. “Se as autoridades tivessem divulgado informações sobre a epidemia anteriormente, acho que teria sido muito melhor. Deveria haver mais abertura e transparência”, disse Li ao jornal estadunidense ‘New York Times’.

Kuang Biao/CC BY-SA 4.0

Atualmente, estou pesquisando os esforços do Partido Chinês para aumentar a legitimidade, controlando as informações que chegam a seus cidadãos. A falta de abertura e transparência nessa fase inicial do surto ocorreu em parte porque as autoridades se reuniam para reuniões das legislaturas locais do Partido Comunista, onde os departamentos de propaganda instruíam a mídia a não cobrir histórias negativas.

No entanto, a censura nesse período também reflete um controle cada vez mais rígido sobre as informações na China. Como observa a especialista em mídia chinesa, Anne-Marie Brady, desde o início de sua presidência, Xi Jinping deixou claro que a mídia deveria “se concentrar em notícias positivas que mantenham a unidade e a estabilidade, e que sejam encorajadoras”.

Cerceando a liberdade de imprensa

A deterioração da liberdade limitada da mídia sob o governo de Xi Jinping foi sublinhada por uma visita que ele fez às organizações de mídia em 2016, declarando que “toda a mídia do Partido deve ter o ‘sobrenome’ Partido”, e exigindo lealdade ao Partido Comunista Chinês.

Houve uma série de matérias investigativas de boa qualidade, principalmente pela publicação comercial Caixin, desde que as autoridades reconheceram a existência do vírus. Como argumenta a cientista política Maria Repnikova, fornecer espaço temporário para a mídia trabalhar livremente pode ajudar o Partido a “projetar uma imagem de transparência gerenciada”. Entretanto, a restrição teve, sem dúvidas, um efeito significativo sobre a capacidade da mídia de fornecer material investigativo eficaz, particularmente no início do surto.

No terreno da Internet, houve uma sucessão de medidas para limitar o discurso que o Partido considera como uma ameaça. Isso inclui leis que ameaçam com penas privativas de liberdade aqueles que forem considerados culpados por espalhar “rumores”. Em um regime autoritário, interromper os rumores limita a capacidade das pessoas de levantar questionamentos e tentar descobrir a verdade. O que ficou totalmente claro com o caso do Dr. Li.

O Partido concentra sua censura em problemas que podem minar sua legitimidade. Parte de minha pesquisa em andamento sobre controle de informações na China envolve uma análise das instruções de censura vazadas pelo China Digital Times, com sede nos EUA. Entre 2013 e 2018, mais de 100 instruções vazadas diziam respeito a problemas ambientais, segurança alimentar, saúde, educação, desastres naturais e acidentes graves. É provável que o número de assuntos seja ainda muito maior.

Por exemplo, após uma explosão em uma fábrica petroquímica, as organizações de mídia foram instruídas a censurar “comentários negativos relacionados a projetos petroquímicos”. E depois que vários pais começaram a protestar sobre vacinas contaminadas, a mídia foi instruída a fornecer apenas informações de fontes oficiais nas primeiras páginas.

A mídia estatal desempenha um papel fundamental nos esforços do Partido Comunista Chinês para definir a agenda on-line. Minha pesquisa mostra que o número de notícias tratando de problemas sobre o meio-ambiente e desastres naturais publicadas pelo People’s Daily no Sina Weibo (equivalente ao Twitter) caiu significativamente entre 2013 e 2018.

Cerca de 4,5% de todas as publicações do People Daily no Weibo entre 2013 e 2015 eram sobre meio ambiente, mas em 2018 este número caiu para apenas 1%. Da mesma forma, cerca de 8 a 10% de todas as postagens do jornal eram sobre desastres e acidentes graves entre 2013 e 2015, porém este número caiu para menos de 4% nos três anos seguintes.

O Partido quer que as pessoas se concentrem em tópicos que, de acordo com ele, melhoram sua legitimidade. O número de postagens do People’s Daily com foco no nacionalismo dobrou para 12% do total de publicações em 2018.

O jornalismo cidadão contra-ataca

Além de relatos investigativos sobre o surto em partes da mídia, alguns indivíduos chineses também fizeram um grande esforço para informar sobre o vírus e as condições de Wuhan. No entanto, as autoridades vêm silenciando constantemente vozes críticas e intensificando seus esforços para censurar outros conteúdos que consideram particularmente pouco úteis.

A censura não consegue parar tudo, mas como sugere a estudiosa Margaret E. Roberts, a “censura porosa” ainda pode ser muito eficaz. Ela ressalta que os esforços das autoridades chinesas para dificultar o acesso de pessoas a conteúdos críticos on-line, enquanto inundam a Internet com informações que o Partido Comunista quer que elas vejam, ainda podem ser muito eficazes.

Quando um problema não pode ser evitado, minha pesquisa mostra que as autoridades de propaganda tentam controlar a narrativa, garantindo que a mídia se concentre nos esforços do Estado para resolver o problema. Após um deslizamento de terra em uma mina no Tibete, a mídia foi instruída a “cobrir o socorro rápido e eficaz”. A cobertura de tais desastres pelo People’s Daily concentra-se em imagens de heroicos profissionais de resgate.

Esse mesmo esforço de propaganda está em evidência agora. Como observa David Bandurski, do China Media Project, a cobertura da mídia chinesa está cada vez mais buscando retratar o Partido Comunista Chinês “como o facilitador de feitos humanos milagrosos” no combate ao vírus.

Após a morte de Li, os líderes do Partido Comunista tentaram culpar as autoridades locais por adverti-lo. No entanto, as ações tomadas contra o médico foram totalmente consistentes com a abordagem do Partido sob o comando de Xi Jinping para controlar as informações.

É impossível saber quantas pessoas morreram ou podem morrer no futuro, porque as pessoas decidiram autocensurar-se, em vez de correr o risco de serem punidas por espalhar boatos, ou porque as autoridades tentaram evitar que as informações chegassem ao público. O surto de coronavírus destaca os riscos de um sistema que coloca a estabilidade social e a legitimidade do Partido no poder acima do interesse público.

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