O “Portão do Inferno” mortal da Roma Antiga que exterminava suas vítimas

Em 2011, arqueólogos da Universidade de Salento redescobriram uma caverna com mais de 2200 anos, que remonta ao Império Romano. Para o povo daquela época, o local tinha uma fama de ser amaldiçoado, pois supostamente era mortal para todos os animais que se aproximavam dela, menos os sacerdotes que levavam eles até lá. Milênios mais tarde, a ciência acredita ter descoberto por que isso acontecia. E a resposta pode estar em uma nuvem de dióxido de carbono que sufocava os animais até a morte.

A caverna ficava localizada na cidade de Hierapolis, na antiga região da Frígia, onde hoje é a Turquia, e era utilizada para sacrifícios envolvendo principalmente touros. A entrada da caverna ficava em uma espécie de arena, onde uma multidão se aglomerava para assistir a um show macabro, onde os animais eram mortos sufocados pela fumaça que emanava do portão que separava a caverna do resto do arena.

“Este espaço é cheio de um vapor tão enevoado e denso que mal se pode ver o solo. Qualquer animal que passa lá por dentro encontra a morte instantaneamente. Atirei pardais e eles deram o último suspiro de forma imediata, caindo no chão”, escreveu o historiador grego Estrabão (64 a.C – 24 d.C).

Curiosamente, foi este texto do antigo historiador grego que levou os pesquisadores até a localização da caverna. Os arqueólogos perceberam que os pássaros que voavam muito perto da entrada da caverna acabavam caindo mortos, mostrando que mesmo depois de milhares de anos, o local ainda continua extremamente mortal. De acordo com os cientistas, a culpa dessas mortes é da atividade sísmica subterrânea. Quem defende essa ideia é o vulcanologista Hardy Pfanz, da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, que liderou uma pesquisa envolvendo o local em 2018. De acordo com Pfanz, uma fissura nas profundezas da caverna provoca a emissão de grandes quantidades de dióxido de carbono.

A equipe liderada por Pfanz em 2018 mediu os níveis de dióxido de carbono na arena conectada à caverna, e descobriu que o gás – ligeiramente mais pesado que o ar – formava uma espécie de “lago”, que se elevava 40cm acima do chão da arena. Conforme eles perceberam no estudo, esse gás é dissipado pelo Sol durante o dia, mas é mais mortal ao amanhecer, por conta do acúmulo verificado durante a noite. A concentração chega a mais de 50% no fundo do lago, subindo para cerca de 35% até 10%, o que ainda é suficiente para matar um ser humano. Porém, acima dos 40 centímetros, a concentração cai rapidamente. Dentro da caverna, os níveis chegam a valores entre 86% e 91%, já que o Sol nem o vento podem entrar lá.

Francesco D’Andria/University of Salento

Mas o dióxido de carbono presente durante o dia não é assim tão inofensivo, o que fica comprovado pela presença de besouros mortos encontrados pela equipe de pesquisa no chão da arena mesmo à luz do Sol.

Há mais de 2 mil anos, dizem os pesquisadores, multidões se aglomeravam para ver touros grandes e fortes sucumbindo ao vapor mortal em uma questão de poucos minutos, enquanto os sacerdotes que levavam os animais até lá não sofriam nenhum efeito adverso. Isso, na época, reforçava a imagem mística e provava o poder dos sacerdotes. No entanto, os pesquisadores acreditam que os sacerdotes sabiam muito bem como funcionavam as propriedades da caverna. Por isso, provavelmente realizavam grandes sacrifícios ao amanhecer, ou ao anoitecer em dias calmos. E quando queriam provar que não eram afetados pela caverna, escolhiam o meio da tarde para suas apresentações.

Porém, independentemente da forma como os sacerdotes conduziam suas cerimônias macabras envolvendo a gruta, esta descoberta pode ser bastante importante para ajudar a revelar a localização de outros pontos semelhantes. Além disso, descobertas desta natureza são de grande importância para o estudo das atividades sísmicas.


A pesquisa que mencionamos foi publicada no Archaeological and Anthropological Sciences. Este conteúdo também possui informações do ScienceAlert.

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