A verdadeira história de Pocahontas, por trás da ficção contada pela Disney

Se você assistia a desenhos animados no final dos anos 90 e início dos anos 2000, você certamente já viu o filme que conta a história de Pocahontas, a destemida filha de um chefe nativo americano. Talvez você não saiba, mas Pocahontas realmente existiu, mas talvez não da forma como o filme da Disney conta.

De acordo com a história real, Pocahontas nasceu em meados de 1596, em uma tribo chamada ‘Powhatan’, na região onde hoje fica a Virgínia, nos Estados Unidos. Ela era a filha favorita do chefe da tribo, mas o que poucos sabem é que o seu nome verdadeiro era ‘Amonute’. ‘Pocahontas’, na verdade, era uma espécie de apelido carinhoso, que na língua da tribo significava algo como “brincalhona”.

Durante a sua infância, Pocahontas se comportava e se vestia como qualquer outra menina da sua tribo. Como era a cultura da época, ela raspava a cabeça e usava roupas bastante curtas. Entre os integrantes da tribo Powhatan, apenas as mulheres mais velhas podiam cultivar longos cabelos. Ainda bem jovem, ela aprendeu a cozinhar, cultivar a terra, fazer fogueiras e realizar várias outras atividades comuns dentro da tribo. Mas tudo mudou em 1607.

Naquele ano, um grupo de colonizadores ingleses chegou na região para estabelecer a cidade de Jamestown. Um dos colonizadores era o Capitão John Smith, que também aparece no filme da Disney. Mas apesar da emocionante história do filme, a verdade é que não existe nenhuma evidência real de que houve um romance entre os dois. Na verdade, Pocahontas tinha apenas 11 anos de idade quando conheceu Smith.

Gravura do livro escrito por John Smith. | Houghton Library

Mas ainda que o relacionamento dos dois provavelmente não tenha acontecido da forma como a Disney contou, John Smith foi de fato importantíssimo para a criação da imagem de Pocahontas como conhecemos hoje em dia. Ainda que, no fim das contas, ela possa não ser tão confiável assim.

Em uma das narrativas de John Smith, a tri Powhatan supostamente teria o capturado e ameaçado matá-lo. Porém, segundo o capitão, a corajosa filha do chefe da tribo teria salvo sua vida no último momento. “No minuto de minha execução, ela arriscou a sua própria cabeça para salvar a minha. E não só isso, mas argumentou tanto com seu pai, que fui conduzido em segurança para Jamestown”, escreveu Smith em 1616.

Pintura do Século 19, imaginando o momento em que Pocahontas salvou a vida de John Smith. | Wikimedia Commons

Mas as histórias contadas oralmente entre o povo Powhatan davam conta de uma versão bem diferente. Segundo a história oral, a tribo nunca tentou executar John Smith. Em vez disso, o que aconteceu de fato foi uma espécie de ritual tribal para formalizar o lugar de Smith entre os Powhatan. A cerimônia supostamente teria consistido em um “nascimento e morte” simbólico, transformando Smith em um líder entre os integrantes da tribo.

Quanto à relação entre Pocahontas e Smith, algumas evidências mostram que a filha do chefe realmente fez amizade com o capitão inglês, levando suprimentos para os colonos de Jamestown em mais de uma ocasião. Em 1609, Smith precisou voltar a Inglaterra para cuidar da sua saúde, mas a versão passada para a tribo era de que o capitão havia morrido.

E a relação antes saudável e amistosa entre os Powhatan e os ingleses começou a dar errado quando os colonizadores passaram a exigir mais e mais suprimentos da tribo, mas durante os períodos de escassez. Em 1613, Pocahontas já havia se casado, e supostamente já tinha até mesmo um filho. Tragicamente, ela acabou se transformando em uma espécie de moeda de troca para os ingleses em meio ao conflito com os Powhatan, que cada vez mais ganhava intensidade. Foi então que o capitão inglês Samuel Argall planejou sequestrar a filha do chefe tribal e mantê-la em cativeiro até que um resgate fosse pago.

Argall enganou Pocahontas, fazendo com que ela entrasse em seu navio, e se recusou a deixá-la sair. Por aproximadamente um ano, ela foi mantida como prisioneira pelos ingleses, ainda que seu pai tenha concordado em pagar o que estava sendo demandado.

Em cativeiro, Pocahontas aprendeu sobre a religião e as práticas inglesas, e também aprendeu a falar em inglês. Em 1614, de acordo com os registros históricos, ela se converteu ao cristianismo e até mesmo adotou um novo nome: Rebecca. Pouco tempo depois, casou-se com um colono chamado ‘John Rolfe’. E nesse momento há mais uma discordância nas versões da história.

Pintura famosa do batismo de Pocahontas. | John Gadsby Chapman/U.S. Capitol

De acordo com as histórias contadas pelos ingleses, Pocahontas foi bem tratada durante o tempo em que ela estava no navio inglês. No entanto, a tradição oral das tribos nativas americanas diz que isso não é verdade. Segundo algumas lendas passadas de geração em geração, Pocahontas teria confidenciado para sua irmã que, em determinado momento, chegou a ser abusada enquanto estava sendo mantida prisioneira pelos ingleses. E ela supostamente só aceitou o casamento porque não tinha outra opção.

Em 1616, Pocahontas chegou a viajar para a Inglaterra para conhecer o Rei e a Rainha. Durante a viagem, ela foi apresentada como uma “selvagem domada”, e ainda que não fosse considerada uma princesa pelo povo Powhatan, ela era chamada de “princesa Matoaka” pelos ingleses. Sua ida ao Reino Unido também fez com que ela reencontrasse John Smith, que supostamente foi repreendido por Pocahontas pela forma como seu povo foi tratado pelos colonizadores.

Na viagem de volta para casa, Pocahontas repentinamente adoeceu, morrendo pouco tempo depois, aos 21 anos de idade. Até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu, ainda que algumas fontes digam que ela provavelmente morreu de tuberculose, pneumonia ou varíola.

Como você pode ver, há uma série de divergências entre a história real mais aceita e a versão contada pela Disney. No fundo, a obra de ficção talvez não se aproxime da realidade, mas pelo menos ela contribuiu para que a história e a imagem de Pocahontas ficasse ainda mais eternizada na memória de várias gerações.


Com informações do ‘AllThatsInteresting‘.

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