A Terra está se fraturando sob o Pacífico e ameaça reconfigurar o planeta

por Lucas Rabello
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A Terra está se fraturando sob o Pacífico e ameaça reconfigurar o planeta

O fundo do oceano no noroeste do Pacífico está passando por um processo raro e impressionante: parte da crosta oceânica está se fragmentando enquanto mergulha sob a América do Norte. O fenômeno foi identificado por pesquisadores do Experimento de Imagens Sísmicas de Cascadia, conhecido como CASIE21, e descrito em um estudo publicado na revista Science Advances.

O foco da pesquisa está nas placas tectônicas Juan de Fuca e Explorer, que fazem parte da complexa zona de subdução de Cascadia. Ali, uma placa oceânica desliza lentamente para baixo da placa norte-americana. Esse tipo de região costuma concentrar grande interesse científico porque está associado à formação de montanhas, vulcões, terremotos e mudanças profundas no relevo do planeta.

A novidade é que os pesquisadores conseguiram enxergar com clareza algo que, até então, era muito difícil de observar: uma zona de subdução em processo de desaparecimento. Em vez de simplesmente continuar afundando de forma uniforme, a placa está se rasgando aos poucos, criando blocos menores e novos limites geológicos.

Uma placa se desfaz no fundo do mar

Brandon Shuck, professor adjunto da Universidade Estadual da Louisiana e autor principal do estudo, explicou a importância da descoberta. “Esta é a primeira vez que temos uma imagem clara de uma zona de subdução em pleno processo de desaparecimento”, afirmou.

Para tornar o fenômeno mais fácil de entender, ele comparou o processo a um acidente ferroviário muito lento. “Em vez de colapsar de uma vez, a placa está se desintegrando pouco a pouco, criando microplacas menores e novos limites. Então, em vez de um grande acidente, é como ver um trem descarrilar lentamente, vagão por vagão”, disse Shuck ao ScienceDaily.

As imagens sísmicas de grande profundidade revelaram uma falha com cerca de 75 quilômetros de comprimento cortando a placa de Juan de Fuca. Essa fratura não é apenas uma marca antiga no fundo do mar. Segundo os pesquisadores, ela está ativa e faz parte de um processo contínuo de fragmentação.

Apesar do nome alarmante, esse rompimento não significa que o oceano esteja se abrindo de forma repentina. A mudança ocorre em uma escala de milhões de anos, lenta demais para ser percebida diretamente por uma pessoa. Ainda assim, para a geologia, trata-se de uma transformação importante.

O que a falta de terremotos revela

Um dos pontos mais curiosos do estudo está justamente em áreas onde a atividade sísmica parece menor do que o esperado. Em algumas partes da placa, a fratura existe, mas os terremotos são escassos. Para os cientistas, isso pode indicar que certos fragmentos já se separaram da placa principal.

Quando um pedaço deixa de estar conectado ao sistema maior, ele também pode deixar de acumular tensão da mesma maneira. Isso ajuda a explicar por que algumas áreas fraturadas não produzem tantos sinais sísmicos ou vulcânicos quanto se poderia esperar.

“Ainda não se desprendeu por completo, mas está perto de fazer isso”, afirmou Shuck, referindo-se ao processo de separação da placa. Essa “proximidade”, no entanto, deve ser entendida em tempo geológico. Não se trata de dias, anos ou séculos, mas de períodos extremamente longos.

O estudo combina imagens sísmicas profundas com catálogos de terremotos registrados na região. Essa união permitiu montar uma espécie de mapa interno da placa, revelando grandes rachaduras que atravessam a crosta oceânica e avançam em direção ao manto.

O ciclo de vida das placas tectônicas

A descoberta também ajuda a entender como as placas tectônicas nascem, se movem, envelhecem e desaparecem. Em zonas de subdução, a litosfera oceânica costuma afundar sob outra placa. Mas quando uma dorsal oceânica se aproxima de uma fossa, a crosta mais jovem, quente e flutuante pode resistir a esse mergulho.

Essa resistência pode provocar deformações, rupturas e divisões internas. Foi isso que os pesquisadores observaram em Cascadia: uma placa em estágio avançado de transformação, sendo segmentada por falhas profundas.

Suzanne Carbotte, cientista do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, destacou que a desaceleração das placas já era conhecida, mas nunca havia sido vista com esse nível de detalhe. “Esses novos achados nos ajudam a compreender melhor o ciclo de vida das placas tectônicas que moldam a Terra”, afirmou.

Mesmo com a descoberta, os cientistas ressaltam que o fenômeno não altera de forma imediata o risco de grandes terremotos ou tsunamis na região. A zona de Cascadia continua sendo monitorada com atenção, mas a fratura estudada representa um processo lento e profundo, não uma ameaça súbita.

O achado também pode explicar formações antigas em outras partes do planeta, como fragmentos tectônicos encontrados na Baixa Califórnia. Estruturas desse tipo podem ter surgido por processos parecidos, em que placas oceânicas foram sendo cortadas, isoladas e reorganizadas ao longo de milhões de anos.

A rede de falhas identificada no noroeste do Pacífico funciona como um sistema de segmentação da crosta. Ela mostra que o fundo do oceano não é uma superfície imóvel, mas uma estrutura ativa, pressionada por forças gigantescas, em constante rearranjo sob a água.

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