A macabra história do “núcleo do demônio” – a massa radioativa que matou os seus desenvolvedores

O Projeto Manhattan, talvez um dos mais nefastos da história dos Estados Unidos, foi aprovado pelo presidente Franklin Roosevelt em 9 de outubro de 1941. Caso você não o conheça, estamos falando de um programa dedicado ao desenvolvido de armas nucleares, que acabou por ser o “pai” das bombas Little Boy e Fat Man, que foram detonadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, causando a morte de mais de 214 mil pessoas. Foi justamente este ataque que fez com que o imperador japonês Hirohito fosse a público em rede nacional para anunciar a rendição do país da Segunda Guerra Mundial.

Harry Daghlian e Louis Slotin, cientistas do Laboratório de Los Alamos, no Novo México, eram as duas mentes pensantes por trás do projeto. Em determinado momento, eles se dedicaram ao estudo de uma esfera de 6,2kg de plutônico e gálio refinados, que deveria ser utilizada como núcleo para futuros artefatos explosivos de grande potencial destrutivo. Por se tratar de um artefato extremamente perigoso, ele recebeu o apelido de “núcleo do demônio”, e recebeu autorização do governo para que fosse amplamente testado.

Com 89 milímetros de diâmetro, o chamado núcleo do demônio era feito de dois hemisférios de plutônio-gálio prensado a calor, e um anel revestido por uma camada de níquel, feito justamente para proteger o plutônio dos efeitos da ferrugem, além de impedir que o fluxo de nêutrons emanasse da superfície entre os hemisférios da esfera durante a implosão. E este dispositivo extremamente perigoso foi fabricado para ser mortífero e de rápida explosão. Tanto isso é verdade que era necessário apenas 5% a mais de plutônio para que o núcleo do equipamento liberasse quantidades assustadoras de radiação.

The Nuclear Secrecy Blog/Reprodução

Cientes de toda periculosidade do equipamento que manuseavam, os cientistas do Grupo de Montagem de Criticidade de Los Alamos se dedicaram a testes minuciosos envolvendo o núcleo. A ideia era desestabilizar o equipamento, tentando descobrir qual a quantidade de tungstênio ao redor da esfera era necessária para torná-la crítica e explosiva. No dia 21 de agosto de 1945, Harry Daghlian, de 24 anos, estava sozinho no laboratório de Los Alamos posicionando tijolos de tungstênio ao redor da esfera, sempre cuidando atentamente aos indicadores mostrados pelo contador de nêutrons, que media a radiação emitida pelo núcleo. Em determinado momento, o contador indicou que, com apenas um tijolo a mais, o material atingiria o estágio de super criticidade, tornando a situação totalmente insegura. O cientista obviamente parou, mas um dos tijolos escorregou de sua mão e caiu sobre a esfera. Ainda que Daghlian, assustado, tenha tentado remover o tijolo rapidamente, ele não conseguiu ser ágil o bastante. De repente, uma explosão de luz azul tomou conta da sala, e uma onda de calor insuportável atravessou o corpo do jovem.

Comic Vine/Reprodução

No fim das contas, ele foi exposto a uma dose de 200 rads, o limite que um ser humano consegue suportar ao longo de um ano inteiro. Durante 2 semanas, o físico sofreu com queimaduras no corpo e com fortes dores e náuseas. Depois deste período, o homem entrou em coma, morrendo 25 dias depois por resultado da síndrome aguda da radiação. Um guarda do laboratório, que encontrava-se sentado a 3 metros de distância de Daghlian no momento da explosão, teve leucemia e morreu 33 anos depois do incidente.

Mesmo depois do acidente fatal, os testes não pararam. Cerca de 9 meses depois, os cientistas envolvidos no Projeto Manhattan desenvolveram cúpulas feitas de berílio, posicionadas sobre o núcleo da esfera para servir como um novo método para refletir os nêutrons. O processo, no entanto, era delicado, e consistia em colocar manualmente as esferas dentro do núcleo, aproximando-as lentamente, com o auxílio de uma chave de fenda. No dia 21 de maio de 1946, o físico Louis Slotin, de 35 anos, estava fazendo uma demonstração para seus colegas, mostrando para eles o procedimento que ele já havia realizado diversas vezes. No entanto, em uma das execuções da técnica, ele acabou deixando cair a chave de fenda, o que fez com que a cúpula de berílio cobrisse totalmente o núcleo por alguns segundos. Slotin foi exposto a mais de mil rads, enquanto os outros 7 físicos na sala receberam doses entre 33 e 166 rads.

Comic Vine/Reprodução

A partir do acidente, Slotin entrou em uma grave crise de vômitos, e seu corpo rapidamente mostrou sinais de contaminação. A mão que segurava a chave de fenda foi muito mais afetada do que o resto do corpo, e em pouco tempo apresentava um aspecto azulado, e estava coberta de bolhas. Mesmo com todas as tentativas dos médicos para minimizar os problemas, era praticamente impossível controlar o inchaço e a dor. Cinco dias depois, a contagem de leucócitos de Slotin caiu de forma considerável, acompanhando uma drástica perda de peso e episódios de confusão mental. No sétimo dia, o físico foi colocado em respiração mecânica, morrendo dois dias depois, quando já estava em coma profundo.

Como não poderia ser diferente, as autoridades dos Estados Unidos foram obrigadas a desenvolver protocolos mais seguros para procedimentos desta natureza, e os testes envolvendo o “núcleo do demônio” foram totalmente abandonados, com o artefato sendo derretido e reaproveitado para outras finalidades.


Com informações do MegaCurioso.

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