A história misteriosa de Dan Cooper, que sequestrou um avião e fugiu com 200 mil dólares

É popularmente dito que o crime não compensa, e que aqueles que optam por enriquecer de forma ilícita eventualmente acabam pagando um alto preço por isso. No entanto, alguns casos desafiam esta regra. Em 24 de novembro de 1971, um homem chamado Dan Cooper sequestrou um avião que voava de Portland para Seattle, nos Estados Unidos, embolsou um generoso resgate em dinheiro e depois simplesmente desapareceu no ar, usando um paraquedas.

Tudo isso aconteceu à bordo de um Boeing 727, que deveria fazer um trajeto bem curto entre as duas cidades americanas, mas acabou sendo marcado por um dos sequestros mais curiosos e misteriosos da história da aviação americana. Até hoje, os investigadores se esforçam para tentar entender quem era Dan Cooper, que também é chamado de “D.B Cooper”, e como ele bolou e colocou em prática este plano que, ao que tudo indica, foi um grande sucesso para ele. Mesmo com várias descrições físicas do criminoso, e até mesmo um exemplar do seu DNA, o FBI ainda não conseguiu responsabilizar ninguém pelo crime, nem mesmo responder às mais simples das respostas: Quem era o criminoso por trás do sequestro? E será que ele sobreviveu ao pular do avião?

Retrato falado de Dan Cooper, feito pelo FBI. | Federal Bureau of Investigation

O QUE SE SABE SOBRE O CRIME

No dia 24 de novembro de 1971, um homem que se apresentava como Dan Cooper adquiriu uma passagem área para o voo entre Portland e Seattle. O homem sentou-se na poltrona 18C do Voo 305 da Northwest Orient Airlines, que deveria levar cerca de 30 minutos. Todos os passageiros esperavam uma viagem tranquila, como é típico de trajetos curtos. Mas tudo estava prestes a mudar. Vestido com uma camisa social e um gravata preta, Dan Cooper se passava por um empresário, provavelmente em uma viagem de negócios. Essa imagem era ainda mais reforçada por conta da sua maleta.

Como era comum na época, o homem acendeu um cigarro e pediu um drink no bar do avião. De acordo com informações do FBI, tratava-se de um homem caucasiano, com 1,80m de altura e cerca de 75kg, beirando os 40 anos de idade. “Olhos castanhos, cabelo preto, corte convencional, repartido à esquerda”, lê-se nos arquivos do FBI.

Modelo do avião sequestrado pelo criminoso. | Wikimedia Commons

As coisas começaram a mudar de cenário quando Cooper sinalizou para um aeromoça, chamada Florence Schaffner. Ele chamou a garota até o seu assento e entregou a ela um pedaço de papel. Schaffner estava acostumada a receber flertes de homens de negócio durante os voos, então presumiu que tratava-se apenas de mais um passageiro entregando a ela seu número de telefone. Sem sequer ler o papel, colocou ele no bolso. Foi então que Cooper chamou a sua atenção: “Senhorita, é melhor ler este bilhete. Eu tenho uma bomba”.

Incomodada, Schaffner abriu a nota, que estava escrita em caneta hidrográfica: “Tenho uma bomba na minha pasta. Eu quero que você sente ao meu lado”. Schaffner sentou-se ao lado do passageiro e pediu para ver a bomba. Calmamente, Cooper abriu a pasta que carregava junto ao seu colo, exibindo um emaranhado de fios, uma bateria e algo que parecia dinamite. “Quero 200 mil dólares até as 17h”, disse Cooper, mantendo a calma e o semblante sério. “Coloque em uma mochila. Eu quero dois paraquedas traseiros e dois paraquedas frontais. Quando pousarmos, quero um caminhão de combustível pronto para reabastecer. Não faça nenhuma gracinha ou eu vou executar o trabalho”, ameaçou. Sem alertar os demais passageiros, Schaffner manteve a calma e foi avisar o piloto sobre o que estava acontecendo.

Bill Mitchell, estudante do segundo ano da Universidade de Oregon, estava sentado do outro lado do corredor em relação ao criminoso. Ele lembra que o piloto anunciou pelo microfone algum tipo de problema envolvendo o motor, e que eles teriam que circular um pouco para gastar parte do combustível. O piloto ainda convidou os passageiros a moverem-se em direção à parte frontal do avião, mas Mitchell permaneceu em seu assento – sem fazer a menor ideia do que estava acontecendo. Posteriormente, ele disse que até mesmo sentiu um certo “ciúme”, porque a aeromoça estava dando muita atenção ao rapaz com a pasta.

“Meu ego se incomodou com a situação”, disse Mitchell em 2019. “Fiquei meio que incomodado que a comissária de bordo estava conversando com um cara mais velho, de terno e fumando, enquanto aqui do outro lado havia um aluno do segundo ano. E ela não fazia nenhum contato visual nem nada disso comigo”, admitiu Mitchell, que apesar de não ter percebido a ação criminosa, foi um dos que ajudou a descrever o homem para o FBI mais tarde. Os outros passageiros não haviam prestado atenção nele.

Após receberem informações do piloto sobre a situação, oficiais em solo tentavam satisfazer as exigências do sequestrador. Enquanto isso, o avião girou no ar por aproximadamente duas horas. Enquanto isso, a tripulação precisou inventar uma boa história para que os passageiros não percebessem que a viagem curta, de meia hora, havia se transformado em um possível pesadelo.

O avião pousou em Seattle às 17h39, e uma equipe foi ao encontro de Cooper com o dinheiro e os paraquedas. Nesse momento, o sequestrador liberou os 36 passageiros, deixando também que dois membros da tripulação descessem do avião, incluindo Florence Schaffner. Depois disso, Cooper exigiu que o piloto voasse até a Cidade do México. Porém, a aeronave não tinha autonomia suficiente para voar as 2200 milhas, então o sequestrador concordou que ele parasse em Reno, no estado de Nevada, para reabastecer. Mas não sem fazer mais uma série de exigências.

Cooper disse para o piloto manter o avião abaixo de 10 mil pés, com os flaps das asas a 15 graus, e com uma velocidade inferior a 200 nós. Além disso, a porta traseira deveria permanecer aberta durante o percurso. Quando o avião decolou, por volta das 19h40, vários jatos da Força Aérea o seguiram a uma distância furtiva, para que o sequestrador não percebesse. Cooper ordenou que a tripulação fosse para dentro da cabine do piloto quando o frio tomou do interior da aeronave, por conta da porta traseira aberta. Os quatro membros que estava a bordo alegaram, mais tarde, que a temperatura lá dentro estava abaixo dos 0ºC.

Então, às 20h, uma luz de advertência acende na cabine, avisando que a escada traseira havia sido baixada. Cerca de 15 minutos, os membros da tripulação notaram um movimento na parte de trás do avião, mas não puderam checar do que se tratava. Eles permaneciam praticamente amontoados, por conta do frio, por quase duas horas. Ao pousar em Reno, por volta das 22h15, o avião foi totalmente cercado pela polícia local e pelo FBI. Os agentes entraram na aeronave e reviraram todo o seu interior. No entanto, não conseguiram achar o criminoso, nem o dinheiro roubado. Tudo que Cooper deixou para trás foi dois dos paraquedas exigidos e a sua gravata preta.

FBI ENTRA EM AÇÃO

Pôster de procurado de Dan Cooper. | Wikimedia Commons

Cooper literalmente desapareceu no ar, deixando as autoridades espantadas. O que é mais curioso é que nenhum dos tripulantes dos caças que seguiam a aeronave sequestrada viram o homem deixando o avião. Mesmo assim, o FBI afirmava que poderia rastrear Cooper. Afinal, eles tinham um nome, uma descrição física e vários detalhes específicos sobre o criminoso. No entanto, eles tinham muito menos informações do que pensavam. Para começar, Dan Cooper não era o seu nome verdadeiro, como eles perceberam depois.

Cinco anos depois do início das investigações, o FBI parecia ter chegado a um beco sem saída. Naquele momento, eles já haviam investigado mais de 800 suspeitos, dos quais poucos podiam ser encaixados nas características de Dan Cooper. Para se ter uma ideia, em 2011, o arquivo do FBI envolvendo este caso já media mais de 12 metros. E ainda não tinha nenhuma resposta clara sobre o crime. Durante todo esse tempo, como não poderia ser diferente, Dan Cooper ganhou um espaço notório na cultura popular americana. Inspirou canções, filmes, livros e até mesmo o personagem de Dale Cooper em ‘Twin Peaks’.

Um dos principais suspeitos considerados pelo FBI foi Rober Rackstraw, ex-paraquedista das Forças Especiais Americanas, que certamente teria as habilidades necessários para sobreviver a um salto como esse. Em 1979, as autoridades inocentaram Rackstraw, mas algumas pessoas seguem céticas quanto à sua inocência até os dias de hoje.

Comparação entre Rackstraw e o retrato falado de Cooper. | Wikimedia Commons

O cineasta Thomas Colbert, que investigou de forma independente o caso, acredita que exigem evidências que podem ligar Rackstraw ao crime. Entre elas, estão cartas que supostamente foram escritas por Cooper após o sequestro. Colbert também acredita que o FBI bloqueia e encobre os rastros de Rackstraw devido aos seus possíveis laços com a CIA. Por outro lado, Geoffrey Gray, que escreveu o livro ‘Skyjack’, um dos principais sobre Dan Cooper, não concorda. Para ele, Rackstraw nem mesmo mereceu ser citado na sua obra.

Em 1980, um menino de 8 anos de idade fez uma descoberta interessante nas proximidades do Rio Columbia, em Portland. Ele encontrou maços de notas de dólar danificadas, totalizando cerca de 5800 dólares. Os números de série correspondiam ao dinheiro dado a Cooper pelo seu resgate, nove anos antes. Mas até hoje, esta é a única prova do crime encontrada fora do avião.

Notas encontradas em 1980. | Wikimedia Commons

Em 2001, o FBI retirou uma amostra do DNA de Cooper usando a sua gravata, e a utilizou para eliminar outro suspeito da lista – Duane Weber, que alegou ser Dan Cooper em seu leito de morte. Anos mais tarde, outro homem, chamado Kenneth Christiansen, foi citado em um artigo de revista como sendo o criminoso. No entanto, ele não correspondia nem sequer à descrição física de Cooper, ainda que fosse um paraquedista de notória habilidade.

Gravata deixada para trás pelo sequestrador. | Federal Bureau of Investigation

As investigações mudaram um pouco de curso depois que um dos agentes envolvidos, Larry Carr, disse que Cooper provavelmente não era um paraquedista tão habilidoso assim. “Originalmente, nós pensávamos que Cooper era um paraquedista experiente, talvez até mesmo um paraquedista profissional. Concluímos depois de alguns anos que isso simplesmente não era verdade. Nenhum paraquedista experiente teria saltado na noite escura como breu, na chuva, com um vento de 320 km/h batendo no rosto, usando mocassins e um sobretudo. Era simplesmente muito arriscado”, disse Carr.

FIM DAS INVESTIGAÇÕES

No ano de 2016, o FBI anunciou que iria parar de investigar o caso de forma ativa. “Após uma das investigações mais longas e exaustivas da nossa história, em 8 de julho de 2016, o FBI redirecionou os recursos alocados para o caso D.B Cooper, a fim de se concentrar em outras prioridades investigativas”, afirmou o FBI em um comunicado à imprensa.

No entanto, ainda que as autoridades tenham comunicado sua retirada parcial do caso, elas ainda incentivam que qualquer um que encontre “pedaços de dinheiro ou restos de paraquedas” faça contato com o escritório local do FBI. Enquanto isso, obviamente, detetives amadores e investigadores independentes seguem estudando o caso. Em algumas regiões dos EUA, existem até mesmo eventos chamados de “CooperCons”, em que vários entusiastas do assunto se reúnem para reunir informações sobre o caso e explorar potenciais teorias.

É claro que existe uma possibilidade muito grande de que Cooper simplesmente não tenha sobrevivido ao salto. O mundo talvez nunca saiba com certeza, e é justamente isso que faz com que muitas pessoas se interessem tanto pelo caso.

E você, o que acha que aconteceu com Dan Cooper naquele dia 24 de novembro de 1971?


Com informações do AllThat’sInteresting.

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