A triste história de Schlitzie, o pequeno homenzinho que virou astro dos ‘freakshows’

Schlitzie, uma das figuras mais notórias dos chamados “Freakshows”, recebeu vários apelidos ao longo da sua carreira. “Garota macaca”, “O Último dos Astecas”, “cabeça de alfinete” ou “aberração” eram alguns dos nomes mais simpáticos pelos quais ele era obrigado a atender.

Seus apelidos eram tão fortes e conhecidos que até hoje nós não sabemos qual é o seu nome completo, da mesma forma que sabemos muito pouco sobre a sua vida fora dos shows de horrores. O mundo, no fim das contas, só se lembra de Schlitzie por suas condições físicas, que fizeram com que ele fosse levado à fama, ao mesmo tempo em que deram a ele um triste fim.

Schlitzie
Schlitzie em ‘Freaks’, filme de 1932. | MGM

VIDA ANTES DOS FREAKSHOWS

Como mencionamos anteriormente, muito pouco se sabe sobre a vida de Schlitzie além do fato de que ele parece ter nascido em algum momento no começo dos anos 1900. Segundo algumas fontes, o homenzinho nasceu no Bronx, ou ainda em Nova Iorque de acordo com outros documentos.

Seu nome de nascimento também é alvo de discussões, e alguns historiadores dizem que ele era chamado Simon Metz, enquanto outros defendem que seu nome era Shlitze Surtees. Mas a verdade é que os relatos variam, e ninguém sabe ao certo qual era o seu nome e como foi o começo da sua vida, já que ele foi passado entre muitos pais adotivos ao longo da sua infância.

Mas apesar de todos os fatos confusos, nós sabemos que Schlitzie nasceu com uma condição chamada microcefalia, uma deformidade marcada pelo mau desenvolvimento do cérebro, do crânio e do corpo como um todo. As causas para essa condição podem variar de pessoa para pessoa, mas no caso deste homenzinho, ele já nasceu com ela.

A microcefalia afetou Schlitzie tanto física quanto mentalmente, fazendo com que ele fosse seriamente incapacitado. Mesmo quando adulto, ele tinha a aptidão mental de uma criança de três ou quatro anos de idade, e só conseguia falar frases curtas. Além disso, a microcefalia fez com que sua cabeça se desenvolvesse de forma realmente muito pequena, uma característica que fez com que ele atraísse a atenção das pessoas na época.

A FAMA

Schlitzie ganhou a vida com praticamente todos os grandes circos do início do século 20, incluindo o Dobritsch International Circus, o Ringling Bros. e o Barnum & Bailey Circus. Estamos falando de uma sociedade que ainda não tinha a mínima preocupação com temas sociais como a inclusão e o respeito às diferenças e minorias. Por isso, grandes multidões se reuniam de perto para verem o que eles consideravam ser uma “aberração”.

Durante a maior parte das suas apresentações, Schlitzie atuou como mulher, mesmo tendo nascido homem. Portanto, ele costumava se apresentar usando vestidos e outras roupas que o caracterizassem como mulher. Alguns historiadores dizem que Schlitzie preferia atuar assim porque os vestidos facilitavam a troca das suas fraldas, uma necessidade que ele tinha por conta da sua incontinência urinária.

Em 1932, sua fama disparou depois que ele apareceu no filme “Freaks”. A produção, que é uma história de amor e traição ambientada no mundo dos “espetáculos secundários”, é mais conhecido hoje em dia por apresentar vários dos personagens que faziam parte dos freakshows americanos do começo dos anos 1900.

Como não poderia ser diferente, o filme foi amplamente criticado pelo seu horror grotesco, envolvendo cenas bizarras como a castração de um dos homens que faziam parte dos espetáculos. O Hollywood Reporter, por exemplo, definiu a obra como “um ataque ultrajante aos sentimentos, sentidos, cérebros e estômagos da audiência”.

Obviamente, o filme foi proibido em várias cidades dos EUA. Uma mulher inclusive ameaçou processar a produtora do filme, MGM, depois de alegar que ele fez com que ela sofresse um aborto espontâneo. Com toda a repercussão negativa, a MGM se viu obrigada a cortar e, em seguida, arquivar totalmente o filme. Mas isso não impediu que ele voltasse a ser transmitido de forma clandestina alguns anos depois.

Apesar da negatividade em torno do filme, Schlitzie muitas vezes roubou a cena. Agindo de forma fofa e inocente, ele ganhou o carinho do elenco, da produção e, depois, do público. A simplicidade do pequeno homenzinho acabou cativando grande parte da audiência, e fazendo com que ele fosse transformado em uma espécie de estrela.

APÓS O FILME

Schlitzie
MGM

Depois do lançamento do filme, Schlitzie continuou na estrada, se apresentando nos freakshows. Ele estava tão profundamente enraizado no mundo dos espetáculos secundários que, em 1936, um treinador de chimpanzés chamado George Surtees, do Tom Mix Circus, decidiu entrar na justiça para se tornar seu guardião legal. Surtees supostamente amava e cuidava de Schlitzie como se fosse um filho.

Mas essa relação durou apenas até 1965, quando Surtees faleceu. Foi então que sua filha, que não tinha nenhum apreço por Schlitzie, mandou o homem para uma instituição mental em Los Angeles.

Durante três anos tristes e solitários, ele permaneceu sob os cuidados de um hospital psiquiátrico. E mesmo que ele nunca tenha tido uma família de verdade, ele amava o circo como se fosse a sua casa, e havia encontrado nele uma espécie de lar. Era a única vida que ele conhecia, enquanto o hospital era hostil, solitário e arrepiante.

Por coincidência, no entanto, um engolidor de espadas chamado Bill Unks o reconheceu durante uma apresentação no hospital. Unks imediatamente pressionou o hospital para se tornar cuidador de Schlitzie, e a instituição assim permitiu.

O homenzinho então se apresentou mais algumas vezes com o Dobritch International Circus, antes de se aposentar em Los Angeles. Mas mesmo durante a sua aposentadoria, ele gostava de se apresentar, e divertia as pessoas enquanto alimentava os pombos e os patos no MacArthur Park, local que frequentava.

Depois de uma vida bastante agitada, e após ter feito muito sucesso, Schlitzie faleceu em 1971. E mesmo com toda a fama, ele nunca teve uma casa própria, e nunca foi rico. Seu dinheiro não foi suficiente nem mesmo para comprar uma lápide adequada, e foi só em 2007 que um fã levantou dinheiro para colocá-lo em um local apropriado para o seu descanso eterno.

No fim das contas, este foi um ato final de bondade para um homem que, mesmo com a mentalidade de uma criança, impactou positivamente a vida de milhões de pessoas ao longo da sua vida.

buy metformin metformin online