A história da cozinheira que infectou mais de 50 pessoas com uma doença mortal, mas parecia totalmente saudável

Mary Mallon é uma mulher muitíssimo popular nos Estados Unidos, onde ela é chamada de “Typhoid Mary”, ou “Maria Tifoide” (em português). Mallon ficou famosa por ter transmitido febre tifoide para centenas de pessoas nos EUA durante o final dos anos 1890 e começo dos anos 1900.

Nascida na Irlanda do Norte em 1869, ela imigrou de forma solitária para os Estados Unidos, em busca de melhores condições de vida. Em Nova Iorque, ela desempenhou a função de cozinheira em diversas famílias diferentes, incluindo residências de luxo, tendo como patrões pessoas da mais alta classe americana.

Apesar de ter contraído a febre tifoide (uma doença bastante grave na época, que costumava levar à morte), ela não apresentava sintomas da enfermidade, ainda que fosse capaz de transmiti-la para outras pessoas. As pessoas ao redor de Mary viviam adoecendo, em praticamente todas as casas em que ela trabalhava. No entanto, durante muito tempo ninguém (nem ela mesmo) desconfiou que o vetor da doença estava na própria cozinheira.

© Lupo / Wikimedia

Mary começou trabalhando em Mamaroneck, onde duas pessoas demonstraram claros sinais da doença, sendo que a cozinheira inclusive ajudou a cuidá-las, sem saber que na verdade estava contribuindo para que a condição dos pacientes se agravasse. Depois disso, assumiu a cozinha de uma residência em Manhattan, onde voltou a transmitir a doença para seus residentes, tendo inclusive ocasionado a morte de uma funcionária que trabalhava na lavanderia. Conta-se que em uma das outras casas que Mary assumiu depois disso, 7 dos 8 residentes desenvolveram a doença, e em outra, ainda, 10 dos 11 moradores ficaram doentes.

Investigações e descobertas

Como a febre tifoide era uma doença tida como pertencente às classes baixas, a atenção se voltou para Mary quando seis pessoas de uma residência luxuosa, pertencente a um banqueiro de Nova Iorque, contraíram a doença. O dono da mansão, Charles Warren, decidiu então contratar um especialista em febre tifoide para tentar entender o que estava acontecendo na sua casa.

Após descartar todas as suspeitas iniciais, como o sistema de abastecimento de água e outras possíveis origens da doença, as atenções se voltaram para a cozinheira. No entanto, as chances de contrair a doença a partir da comida não eram muito grandes, já que as bactérias causadoras da enfermidade não poderiam resistir à temperatura dos alimentos durante o preparo. Mas tudo mudou quando o especialista analisou uma das especialidades de Mary – uma sobremesa de sorvete com pêssegos.

Como os pêssegos não passavam por nenhum processo de cozimento, eles facilmente poderiam se tornar uma “ponte” para a doença entre Mary e os moradores da casa.

Quando confrontada, Mary agiu de forma agressiva, e em um primeiro momento chegou a recusar ser submetida a exames e testes para analisar a presença da doença em seu corpo. Foi constatado, no entanto, que a cozinheira não tinha o hábito de lavar as mãos durante o trabalho, já que pensava que esta era uma prática dispensável e desnecessária. Além disso, exemplares de seus alimentos acabaram tendo testes positivos quanto à presença das bactérias causadoras da febre tifoide, e Mary acabou sendo confirmada como a responsável pelas contaminações.

Tal descoberta causou certo alvoroço na sociedade americana da época, já que até então não se imaginava como alguém aparentemente saudável poderia ser responsável pela transmissão de doenças tão sérias. Hoje em dia, no entanto, já sabe-se que em certos casos as doenças podem permanecer de forma “recessiva” no corpo de algumas pessoas, o que faz com que elas possam transmitir enfermidades mesmo que aparentemente não apresentem nenhum sintoma.

Confirmada como portadora de febre tifoide, e com o intuito de evitar novas contaminações, Mary foi encaminhada para uma quarentena em 1907. Durante três anos, ela permaneceu sem poder ter contato com ninguém além de um cão, para evitar que a doença se espalhasse. Porém, em meados de 1910, seus exames pararam de apontar a enfermidade, provavelmente porque a mulher deveria estar em remissão. Por isso, a quarentena em seu caso tornou-se ilegal, e ela foi liberada com a condição de que não voltasse a trabalhar como cozinheira.

Durante alguns anos, Mary realmente cumpriu com a ordem de não cozinhar mais profissionalmente, tendo trabalhado na área de lavanderia em outras casas. No entanto, acabou por trocar de nome e voltar às atividades na cozinha, o que acarretou em mais casos de transmissões da febre tifoide, levando inclusive a mais duas mortes.

Detida novamente, teve de passar mais 23 anos em quarentena, até a sua morte, por pneumonia, em 1938. De acordo com as estimativas mais precisas e confiáveis, ao todo Mary infectou 122 pessoas, causando a morte de cinco.

Para muitas pessoas, no entanto, o tratamento recebido pela cozinheira foi cruel e injusto, visto que outras pessoas da época também foram confirmadas como portadoras assintomáticas da mesma doença, porém nunca foram privadas do convívio social. Além disso, há quem diga que os médicos nunca realmente se esforçaram para tentar explicar à mulher o verdadeiro risco que ela apresentava para as pessoas que conviviam perto dela, e apenas a forçaram a passar por diversos procedimentos médicos até a sua morte.

E você, o que acha sobre a forma como Mary Mallon foi tratada por conta de seu problema?

você pode gostar também

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.